Publicado em Eu li...

{Eu li} O inventário das coisas ausentes – Carola Saavedra

inventario-199x300

Eu te amo, diz o texto. Talvez entre o eu te amo e o amor propriamente dito haja um espaço intransponível. Talvez o tempo que passa. Mas não apenas. Talvez um inevitável desencontro. Essa incoerência. Leio o texto como se fosse parte de um romance. Talvez seja isso, e quando o amor acaba resta apenas a ficção.”

Sinopse: Como começa o amor? À primeira vista, num encontro casual, depois de anos de convivência? Qual é a distância entre dizer “eu te amo” e amar alguém? O que resta quando o tempo passa, as pessoas mudam e o amor acaba? Nina tem vinte e três anos quando ela e o narrador se conhecem na faculdade. Os dois têm um envolvimento amoroso, mas certo dia ela desaparece sem deixar notícias. A partir da reconstrução ficcional dos diários deixados por Nina, o narrador conta a história de seus antepassados e assim vai delineando seus contornos, numa tentativa de recriar a mulher amada. Mas como falar do outro sem falar de si? E como falar de si quando a sua própria vida é marcada pelo abandono, pelo impalpável?

É com passagens incríveis como essas que me encantei pelo livro O inventário das coisas ausentes da Carola Saavedra. Não é um daqueles livros que você acaba de ler com uma opinião formada… Sei que gostei da narrativa bem fragmentada, com trechos de histórias diferentes que se ligam ou não, em alguns momentos me perdi. Gostei muito das histórias bem reais que foram intercaladas na narrativa principal, se é que o livro tem uma só,  essas foram demarcadas pela autora com um “História paralela” e o elo entre as histórias são as ausências, perdas, escolher se perder de um tipo de vida ou se perder em um tipo de vida, e até encontrar o que foi perdido, mas sendo este não mais o mesmo. A maioria das personagens acabam por fazer um inventário das coisas que se foram. Através do diário deixado por Nina, são relatadas a herança de vida dela: a família e quem ela era.

Outro ponto do livro que gostei bastante é o livro dentro do livro, o narrador principal da história está escrevendo um livro que como ele diz fala de um pai e de um filho, da morte e de uns diários. Esses elementos estão presentes na própria vida do autor fictício. Nina deixou para ele alguns diários, sem explicação, e ele recria a situação dos diários só quem com um motivo específico, outra incorporação é a má relação com o pai que o narrador também não vê há muitos anos.

A ideia de testamento, nomeada desde o título, remete às formas encontradas pela linguagem para dar conta de algo que fica para trás, mas se presentifica a todo instante. Heranças a gritar em gestos paternos, silêncios familiares e opressões as mais diversas. Nesse quesito, o lugar da mulher é insistentemente questionado na prosa da autora. Impedimentos de toda ordem marcam a trajetória das personagens femininas, cujos corpos sofrem violência, abandono, descaso, traição. “Então é isso o amor”, se perguntam em diversas ocasiões, como a sondar o que de fato resulta na concretização desses afetos. Stefania Chiarelli para O GLOBO

A autora:

carola A Carola é uma autora muito elogiada pela crítica, já com alguns livros escritos como: Toda terça, Flores Azuis e Paisagem com dromedário. Esses dois últimos estou bem curiosa de ler. O inventário das coisas ausentes acabou de ser lançado.  Ela nasceu no Chile, em 1973, e mudou-se para o Brasil com três anos de idade. Morou na Espanha, na França e na Alemanha, onde concluiu um mestrado em Comunicação. Falou alemão durante muito tempo, e foi assim que sentiu que o Brasil era de fato sua casa, porque apesar das raízes chilenas ela pouco viveu o Chile de verdade. Hoje vive no Rio de Janeiro. Seus livros estão sendo traduzidos para o inglês, francês, espanhol e alemão. Está entre os vinte melhores jovens escritores brasileiros escolhidos pela revista Granta.

P.S. Estou formada! Passei com 10! Agora sou jornalista de verdade!

Publicado em Eu li...

{Eu li} O Rei Branco de György Dragomán

Primeiro post de junho, um mês muito querido, porque é o mês do meu aniversário e porque daqui a dois dias estou formada. JORNALISTA, sim. Estou num misto de emoções nostálgicas, esperanças e medos para o futuro. Acabei meu tcc, então posso escrever aqui mais tranquila.

ReiBrancoComprei o livro O Rei Branco de György Dragomán, sem grandes expectativas, por cinco reais na bienal, no ano passado. E ele estava intocado desde então… o livro traz a história de Dzsátá, de 11 anos, que vive na União Soviética, um tema muito interessante, tendo e mente as falhas capitalistas que vivemos, mas sabendo que o sistema socialista conforme foi implantado não deu certo e acabou degringolando. Na história, Dzsátá vê seu pai partir, preso por um “crime” político, seu pai é levado para longe da família e passa a fazer trabalhos forçados.  E ele fica com a mãe e a família despedaçada. Dessa forma o autor traz as esperanças do menino de ver seu pai voltar e episódios de uma infância muito árida, em meio a racionamento de comida, intoxicação por radiação, ele vai aos poucos construindo um ambiente totalitário, com a constante presença da elite militar privilegiada.

A narrativa foi construída em um fluxo de pensamentos, diálogos e sonhos, mostrando como enxerga a sua volta uma criança que está entrando na adolescência. O personagem tem um jeito muito peculiar de enxergar as pessoas profundamente e no momento seguinte preferir não entender bem o que está acontecendo a sua volta, como uma forma de proteção. Os capítulos, são vários episódios da infância do menino durante a espera do pai, isso me cansou um pouco na metade do livro, nem todos os capítulos conseguiram me prender muito, mas achei o final muito bom. Forte e triste, na medida, mostrando a que nível de degradação pode-se levar uma pessoa.

Sinopse: 

Estar sempre em casa aos domingos: isso é um compromisso para Dzsátá, de 11 anos, um menino do Leste Europeu. Foi em um domingo que os homens da Polícia do Estado entraram em sua casa e levaram seu pai. Ele acredita que será em um domingo que o pai voltará. Enquanto isso, em sua rotina de aventuras, entretido com violentos jogos de guerra ou brigas nos campos de trigo, com filmes pornôs no reservado do cinema ou com o planejamento de encontros com meninas, Dzsátá começa a descobrir outra realidade: seja por meio da tirania do treinador do time de futebol da escola e dos campeonatos decididos de acordo com interesses do partido, seja devido às trapaças e às dissimulações de trabalhadores e pessoas comuns, ou de diplomatas e privilegiados, como seu avô, integrante da elite política. À espreita dessa adolescência rebelde, contudo, sempre cutucando seu coração, está a prolongada ausência do pai. Quando o garoto finalmente descobre a verdade, arrisca-se a perder sua juventude. Para sempre.

O autor:

GyorgyDragomanGyörgy Dragomán nasceu em Marosvásárhely, Romênia, em 1973, e se mudou para a Hungria aos 15 anos. Seu primeiro romance, Genesis Undone, venceu o Bródy Prize de Melhor Livro de Estreia, em 2002. O rei branco, publicado em húngaro em 2005, ganhou os prêmios József Attila, Tibor Déry e Sándor Márai e foi traduzido para vinte idiomas. O autor mora em Budapeste com a mulher e dois filhos.