Publicado em Debates e Reflexões

Livro, esse artefato de rebeldes

Cada vez que reflito mais sobre a importância de ler, acredito que estou no caminho certo para algum lugar… Mesmo quando algumas pessoas acham que estou perdendo tempo de vez em quando. Mas também há o outro lado, sempre encontro pessoas que amam tanto ler quanto eu. E foi assim que me deparei com esse texto delicioso de ler, no facebook, da minha amiga Raissa Vidal. E como palavras boas eu compartilho pedi a ela para colocar aqui o seu belo texto. Não deixem de comentar!

Livro, esse artefato de rebeldes
por Raissa Vidal

livrossMais perigoso do que bombas de efeito moral, mais viral do que os boatos, mais transgressor do que performances pós-contemporâneas.

Ontem à noite estava muito frio e eu queria continuar lendo no tablet, então me cobri até a cabeça e mantive a leitura quentinha e escondida. Essa situação me lembrou uma parte deliciosa da infância e da adolescência: ler escondido!

Meus pais costumavam me dar boa noite, falar que era hora de parar de ler e apagar meu abajur. Só que alguns livros não sabem escutar essas regras e continuam atiçando seus jovens leitores… Eu preferia fingir que obedecia a discutir, então encontrei uma lanterna na minha casa e a escondia perto da minha cama. Depois que ficava sozinha no quarto com a luz apagada me escondia até a cabeça no edredom coma a lanterna e o livro. Sempre amei suspense e é incrível como aquilo era duplamente empolgante!

Tinham vezes também em que eu dava “boa noite” pro meus pais enquanto eles viam TV e ia para meu quarto. Quando eu percebia que estava muito tarde é já ouvia o som da TV cessar eu não podia mais desligar correndo a luz do abajur, pois ele era rosa e refletia uma luz chamativa na parede do corredor. Se essa luz sumisse do nada eu sabia que levaria esporro por ter ficado acordada até tarde e ter tentado disfarçar. Qual era a solução? Eu deixava o livro aberto em cima de mim e fechava os olhos, como se tivesse dormido enquanto lia. Meu pai ou minha mãe marcavam cuidadosamente a página e apagavam a luz do abajur enquanto meu coração estava acelerado pelo temor de que eles percebessem que eu não estava dormindo!

Uma das memórias mais recentes que tenho de ler escondido foi no ensino médio. No primeiro ano do EM eu estudava em uma escola que odiei (Abel) e de que trouxe de bom apenas alguns amigos e críticas eternas ao sistema tradicional de ensino. Lá, dentre alguns professores queridos que fugiam um pouco da metodologia dilacerante, tinha um professor de História que tirava nota até se deixássemos de levar o livro didático de 1000 páginas e 3kg em algum dia (mesmo que ele não fosse usar)… Em uma de suas aulas que não me empolgavam, estava com um exemplar de literatura russa apoiado na perna e tentava disfarçar a leitura enquanto ele tentava nos doutrinar. Ele pegou meu livro de qualquer jeito, sem marcar a página, e me mandou para o SOD (sim, era o tipo de escola que tinha orientação DISCIPLINAR! Pensem…). Lá, meu livro foi retido e o responsável pelo setor disse que eu poderia pegar no final do dia, mas que se acontecesse de novo meus pais seriam chamados na escola…

Dentre as lembranças carinhosas da família querendo que eu dormisse cedo e esse episódio desconfortante – e abusivo-, é curioso como os momentos em que ler é proibido, ou tolido de alguma forma, tornam esse ato mais excitante ainda. Disso tudo, penso que devemos ver como a mídia, o Estado, o capital, o mercado e toda e qualquer força que visa dominar nossa mente, desejam que sejamos ignorantes. Diante dessa demanda de sermos desinformados, vamos ser rebeldes! Vamos ler quando quisermos, aonde quisermos, mesmo que os livros sejam vistos como uma perigosa arma de combate a um mundo sem poesia.

Gostaram?

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Autor:

Estudante de Jornalismo na UFF, leitora voraz, que gosta muito de dividir com os amigos o que lê, o que gosta de ler e o que amou ler.

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