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Uma história para o dia dos pais

imagesEm homenagem ao dia dos pais, resolvi trazer o primeiro capítulo do livro O Silêncio das montanhas do Khaled Hosseini (resenha aqui) . Nesse trecho o pai de Pari e Abdullah conta uma história sobre o sacrifício de um pai por seu filho, é bem emocionante e linda. Perfeita para o dia de hoje.

ENTÃO, É ISSO. VOCÊS QUEREM uma história, e eu vou contar uma. Mas somente uma. Nem pensem em me pedir mais. É tarde e temos um longo dia de viagem pela frente, Pari, você e eu. Você precisa de uma boa noite de sono. E você também, Abdullah. Estou contando com você, garoto, enquanto sua irmã e eu estivermos fora. E sua mãe também. Bem. Uma história, então. Escutem, vocês dois, escutem com atenção. E não me interrompam. Era uma vez, nos tempos em que devs, jinis e gigantes vagavam pela terra, um fazendeiro chamado Baba Ayub, que morava com a família numa pequena aldeia chamada Maidan Sabz. Como tinha uma família grande para alimentar, Baba Ayub via seus dias ser consumidos por trabalho árduo. Todos os dias, ele trabalhava do amanhecer ao pôr do sol, arando o campo, afofando a terra e cuidando de suas poucas árvores de pistache. A qualquer momento do dia, podia ser visto na lavoura, inclinado para a frente, as costas curvas como a foice que empunhava o dia inteiro. Suas mãos eram sempre calosas e sangravam com frequência, e todas as noites o sono o raptava assim que encostava a cabeça no travesseiro.

 Devo dizer a seu favor que não era só ele. A vida em Maidan Sabz era difícil para todos os moradores. Havia outras aldeias ao norte, mais afortunadas, construídas em vales floridos e com árvores frutíferas, com ar agradável e riachos de águas frias e límpidas. Mas Maidan Sabz era um lugar desolado, não se parecendo em nada com a imagem sugerida pelo seu nome, Campo de Verde, se você tirasse uma foto. Ficava numa planície poeirenta rodeada por uma cadeia de montanhas escarpadas. O vento era quente e soprava poeira nos olhos. Encontrar água era uma batalha diária, porque os poços da aldeia, até os mais fundos, quase sempre tinham pouca água. Sim, havia um rio, mas os aldeões precisavam enfrentar uma caminhada de meio dia para chegar até lá, e mesmo assim as águas corriam lamacentas o ano todo. Agora, depois de dez anos de estiagem, o rio também estava seco. Vamos dizer que as pessoas de Maidan Sabz trabalhavam duas vezes mais para conseguir metade do necessário para sobreviver.

Ainda assim, Baba estava entre os mais afortunados, pois tinha uma família que prezava acima de todas as coisas. Amava a esposa e nunca erguia a voz para ela, muito menos a mão. Valorizava seus conselhos e sentia um prazer genuíno em sua companhia. Quanto a filhos, foi abençoado com tantos quanto os dedos de uma mão, três filhos e duas filhas, e amava muito a todos eles. As filhas eram diligentes, amáveis e de bom caráter e reputação. Aos filhos, ele já tinha ensinado o valor da honestidade, da coragem, da amizade e do trabalho árduo sem queixas. Eles lhe obedeciam como os bons filhos devem obedecer, e ajudavam o pai nas colheitas.

Embora amasse a todos os filhos, Baba Ayub tinha uma preferência secreta e especial por um deles, o mais jovem, Qais, que estava com três anos de idade. Qais era um garotinho de olhos azul – escuros. Encantava qualquer um que o conhecesse com sua risada maliciosa. Era também um desses garotos tão cheios de energia que chegava a drenar a energia dos outros. Quando aprendeu a andar, ficou tão maravilhado que andava o dia inteiro, enquanto estava acordado, e depois, de forma preocupante, até à noite, durante o sono. Saía sonambulando da casa de taipa da família para vagar sob a luz do luar. Era natural que seus pais se preocupassem. E se ele caísse num poço, ou se perdesse, ou, pior de tudo, se fosse atacado por uma das criaturas à espreita nas planícies à noite? Tentaram diversos remédios, mas nenhum funcionou. No fim, a solução que Baba Ayub encontrou foi simples, como costumam ser as melhores soluções: retirou a sineta de uma das cabras e pendurou no pescoço de Qais. Dessa forma, a sineta sempre acordaria alguém se Qais se levantasse no meio da noite. O sonambulismo parou depois de um tempo, mas Qais se apegou à sineta e não quis mais se separar dela. E assim, mesmo sem mais servir ao seu uso original, a sineta continuou amarrada a um cordão ao redor do pescoço do garoto. Quando Baba Ayub voltava para casa depois de um longo dia de trabalho, Qais saía correndo e enfiava a cara na barriga do pai, com a sineta tocando no ritmo de cada passinho. Baba Ayub o erguia nos braços e o levava para casa, e Qais observava com muita atenção enquanto Baba Ayub se lavava, antes de se sentar à mesa ao lado do pai para o jantar. Depois de comerem, Baba Ayub bebericava o seu chá, observando a família, imaginando o dia em que todos os filhos já casados teriam seus próprios filhos, quando ele seria o orgulhoso patriarca de uma prole ainda maior.

Infelizmente, Abdullah e Pari, os dias de felicidade de Baba Ayub tiveram um fim. Um dia, um dev chegou a Maidan Sabz. Quando ele se aproximou da aldeia, vindo da direção das montanhas, a terra tremeu com cada um de seus passos. Os aldeões largaram as pás, as enxadas e os machados e saíram correndo. Trancaram -se em suas casas e ficaram abraçados uns aos outros. Quando o som ensurdecedor dos passos do dev parou, os céus sobre Maidan Sabz escureceram com a sua sombra. Dizem que da cabeça brotavam chifres curvados e que um pelo áspero e negro recobria os ombros e o poderoso rabo. Dizem que os olhos eram de um vermelho brilhante. Ninguém sabia ao certo –– vocês compreendem? ––, pelo menos ninguém que estivesse vivo: o dev devorava no ato quem se atrevesse a lançar um único olhar a ele. Cientes disso, os aldeões sabiamente mantinham os olhos grudados no chão.
Todo mundo na aldeia sabia por que o dev estava lá. Já tinham ouvido as histórias de suas visitas a outras aldeias e até se surpreendiam com o fato de Maidan Sabz ter conseguido escapar de sua atenção por tanto tempo. Talvez, deduziram, a vida pobre e difícil que tinham em Maidan Sabz tivesse funcionado a favor deles, pois as crianças não eram muito bem alimentadas e não tinham muita carne recobrindo os ossos. Mesmo assim, um dia a sorte deles mudou.

Maidan Sabz tremeu e prendeu a respiração. Famílias rezavam para que o dev não notasse suas casas, pois sabiam que se o dev batesse no teto, eles teriam de dar um filho. O dev poria então a criança num saco, jogaria em cima do ombro e voltaria para o lugar de onde viera. Nunca mais ninguém veria a pobre coitada. Se alguma família se recusasse, o dev levaria todas as crianças da casa.
Mas para onde o dev levava as crianças? Para a sua fortaleza, que ficava no alto de uma montanha escarpada. A fortaleza do dev era muito distante de Maidan Sabz. Vales, vários desertos e duas cadeias de montanhas tinham de ser percorridos para chegar até lá. E por que alguém em sã consciência faria isso, só para encontrar a própria morte? Diziam que a fortaleza era cheia de calabouços com cutelos pendurados nas paredes. Ganchos de açougue pendiam dos tetos. Diziam
que havia grandes espetos e bocas de fogo. Diziam que se o dev pegasse algum invasor, era fato conhecido que superaria sua aversão à carne de adultos.
Acho que vocês já sabem qual teto recebeu o temível tamborilar do dev. Quando ouviu aquilo, um grito de agonia escapou dos lábios de Baba Ayub, e sua mulher desmaiou na hora. As crianças choraram, de terror e também de tristeza, pois sabiam que a perda de um deles agora era certa. A família tinha até a manhã seguinte para fazer sua oferenda.

O que posso dizer a vocês da angústia que Baba Ayub e a esposa sofreram naquela noite?
Nenhum pai ou mãe deveria ser obrigado a fazer uma escolha como essa. Longe dos ouvidos das crianças, Baba Ayub e a mulher discutiram sobre qual atitude tomar. Falavam e choravam, falavam e choravam. A noite toda andaram em círculos, a manhã já se aproximava, e eles ainda não tinham chegado a uma decisão — o que talvez fosse o que o dev quisesse, pois aquela indecisão permitiria que ele levasse os cinco filhos em vez de um só. No fim, Baba Ayub recolheu do lado de fora da casa cinco pedras de tamanhos e formas idênticos. Na superfície de cada uma escreveu o nome de um filho e, quando acabou, jogou as pedras dentro de um saco de aniagem. Quando apresentou o saco para a esposa, ela se retraiu, como se ali dentro houvesse uma cobra venenosa.
— Eu não consigo fazer isso — disse ao marido, negando com a cabeça. — Não quero ser eu a fazer essa escolha. Eu não aguentaria.  — Nem eu — começou a dizer Baba Ayub, mas viu pela janela que o sol surgiria a qualquer momento sobre as colinas do leste. O tempo estava acabando. Olhou para seus cinco filhos com uma expressão infeliz. Um dedo teria de ser cortado, para salvar a mão. Fechou os olhos e retirou uma pedra do saco.

Imagino que vocês já saibam qual pedra Baba Ayub pegou por acaso. Quando viu o nome na pedra, ergueu o rosto em direção ao céu e soltou um grito. Com o coração partido, pegou o filho mais novo no colo; e Qais, que tinha uma fé cega no pai, enlaçou os braços no pescoço de Baba Ayub com toda a alegria. Só quando Baba Ayub o deixou fora da casa e trancou a porta o garoto percebeu que estava perdido, e lá ficou Baba Ayub, olhos bem fechados, lágrimas escorrendo, encostado na porta, enquanto seu adorado Qais a esmurrava com suas mãozinhas, chorando para que Baba o deixasse voltar para dentro, e Baba Ayub ficou lá murmurando: “Perdão, perdão, perdão”, com o solo tremendo com os passos do dev, o filho gritando e a terra tremendo e tremendo enquanto o dev partia de Maidan Sabz, até que, afinal, foi embora, a terra se aquietou, e tudo ficou em silêncio, a não ser Baba Ayub, que continuou chorando e pedindo o perdão de Qais.

Abdullah, sua irmã caiu no sono. Cubra os pés dela com uma manta. Isso. Muito bem. Talvez seja melhor parar agora. Não? Quer que eu continue? Tem certeza, garoto? Tudo bem. Onde eu estava? Ah, sim. Seguiu -se um período de quarenta dias de luto. Todos os dias os vizinhos faziam comida para a família e mantinham vigília. As pessoas traziam as doações que podiam, chá, açúcar, pão, amêndoas, e prestavam suas condolências e sua solidariedade. Baba Ayub precisava se esforçar muito para dizer uma palavra de agradecimento. Ficava num canto, chorando, torrentes de lágrimas jorrando dos olhos, como se quisesse interromper a sucessão de secas na aldeia com elas. Nem ao mais vil dos homens se pode desejar tal tormento e aflição. Muitos anos se passaram. As secas continuaram, e Maidan Sabz caiu numa pobreza ainda pior. Vários bebês morreram de sede ainda no berço. Os poços ficaram cada vez mais baixos, e o rio secou, no sentido inverso da angústia de Baba Ayub, um rio que aumentava e aumentava a cada dia que passava. Ele não tinha mais utilidade para a família. Não trabalhava, não rezava, mal comia. A mulher e os filhos argumentaram com ele, mas não adiantou. Os filhos restantes tiveram de assumir seu trabalho, pois todos os dias Baba Ayub não fazia nada além de se postar junto à plantação, uma figura triste e solitária olhando na direção das montanhas. Parou de falar com os aldeões, pois acreditava que eles cochichavam coisas às suas costas. Diziam que era um covarde por ter dado o filho de bom grado. Que não era um bom pai. Um verdadeiro pai teria lutado contra o dev. Teria morrido defendendo a família.
Uma noite ele mencionou isso à esposa.
— Eles não dizem essas coisas — contestou a esposa. — Ninguém acha que você é um covarde.
— Eu ouço o que eles falam — disse.
— É a sua própria voz que você está ouvindo, meu marido — falou. Mas não contou que os aldeões cochichavam mesmo às suas costas. E o que cochichavam era que talvez ele tivesse enlouquecido.
Então, um dia, Baba Ayub provou que eles estavam certos. Acordou ao amanhecer. Sem despertar a mulher e os filhos, jogou alguns restos de pão num saco de aniagem, calçou os sapatos, amarrou a foice na cintura e partiu. Caminhou durante muitos e muitos dias. Andou até o sol se tornar um brilho vermelho desmaiado a distância. À noite, ele dormia em cavernas ouvindo o vento farfalhar do lado de fora. Ou dormia à beira de rios, debaixo de árvores ou sob uma cobertura de rochas. Comeu o pão que trouxe e depois comeu o que conseguia encontrar — frutinhas silvestres, cogumelos, peixes que apanhava só com as mãos nos riachos, e em alguns dias não comia nada. Mas continuou caminhando. Quando passantes perguntavam para onde ia, ele respondia, e alguns riam, outros fugiam de medo de que
fosse um maluco, e alguns rezavam por ele, pois também haviam perdido um filho para o dev. Baba Ayub mantinha a cabeça baixa e andava. Quando os sapatos se desfizeram, ele os amarrou aos pés com cordas, e, quando as cordas arrebentaram, ele continuou em frente com os pés descalços. Dessa forma, Baba Ayub atravessou desertos, vales e montanhas. Finalmente chegou à montanha em cujo ápice ficava a fortaleza do dev. Tão ansioso estava para cumprir sua missão que não descansou e imediatamente começou sua escalada, as roupas esfarrapadas, os pés sangrando, o cabelo emplastrado de pó, porém inabalável em sua resolução. As pedras pontudas rasgavam as solas dos pés. Gaviões bicavam seu rosto quando ele passava perto de algum ninho. Violentas rajadas de vento quase o arrancavam da encosta da montanha. Mas ele continuou subindo, de uma rocha para a seguinte, até que afinal se postou diante dos enormes portões da fortaleza do dev.

Quem se atreve?, trovejou a voz do dev quando Baba Ayub atirou uma pedra no portão. Baba Ayub anunciou seu nome. — Eu sou da aldeia de Maidan Sabz — falou. Você quer morrer? Deve querer, com certeza, vindo me perturbar na minha casa! Qual é o seu propósito?
— Eu vim aqui para matar você.
Houve uma pausa no outro lado do portão. Depois os portões se abriram com um rangido, e lá estava o dev, bem maior do que Baba Ayub, em toda a sua glória aterrorizante.
Você veio me matar?, falou, numa voz grossa como trovão.
— Exatamente — respondeu Baba Ayub. — De um jeito ou de outro, hoje um de nós vai morrer. Por um momento pareceu que o dev ia atacar Baba Ayub e acabar com ele com uma mordida de seus dentes afiados como adagas. Mas alguma coisa fez a criatura hesitar. O dev estreitou os olhos. Talvez fosse a loucura das palavras do homem. Talvez fossem a aparência do velho, a roupa em farrapos, a face sangrando, a poeira que o recobria da cabeça aos pés, as feridas abertas na pele.
Ou talvez porque, nos olhos do velho, o dev não tivesse encontrado o menor sinal de medo.

De onde você disse que veio?
— De Maidan Sabz — respondeu Baba Ayub.
Deve ser bem longe, pela sua aparência, essa Maidan Sabz. — Não vim aqui para tagarelar. Eu vim para…
O dev ergueu uma pata cheia de garras. Sim. Sim. Você veio aqui para me matar. Eu sei. Mas com certeza eu tenho direito a algumas últimas palavras antes de ser morto.
— Muito bem — disse Baba Ayub. — Mas só umas poucas palavras.
Agradeço. O dev arreganhou os dentes. Posso perguntar que mal cometi contra você para desejar minha morte?
— Você levou o meu filho mais novo — respondeu Baba Ayub. — Ele era a coisa mais preciosa do mundo para mim.
O dev grunhiu e levou um dedo ao queixo. Eu já tirei muitos filhos de muitos pais, falou.
Baba Ayub sacou a foice, com raiva. — Então, eu vou me vingar por eles também.
Devo dizer que sua coragem me desperta uma onda de admiração. — Você não sabe nada de coragem — disse Baba Ayub. — Para ter coragem, é preciso haver algo em risco. Eu vim aqui sem nada a perder.
Você tem sua vida a perder, disse o dev.
— Você já tirou isso de mim.
O dev rosnou outra vez e examinou Baba Ayub, pensativo. Depois de um tempo, falou: Muito bem, então. Vou aceitar o seu desafio. Mas antes vou pedir que me acompanhe. — Seja rápido — disse Baba Ayub. — Eu estou sem paciência.
Mas o dev já se encaminhava a um corredor gigantesco, e Baba Ayub não teve escolha, a não ser segui -lo. Acompanhou o dev por um labirinto de corredores, com tetos que quase roçavam as nuvens, todos apoiados em enormes colunas. Passaram por muitas escadas e aposentos, grandes o suficiente para conter toda Maidan Sabz. Andaram dessa maneira até que afinal o dev conduziu Baba Ayub a um salão enorme, com uma cortina na parede do fundo.
Chegue mais perto, gesticulou.
Baba Ayub ficou ao lado do dev. O dev abriu as cortinas. Atrás havia uma janela de vidro. Pela janela, Baba Ayub viu um imenso jardim. Fileiras de ciprestes rodeavam o jardim, com canteiros cheios de flores de todas as cores. Havia piscinas feitas de azulejos azuis, terraços de mármore, fontes de água rumorejante à sombra de árvores de romã. Nem em três vidas Baba Ayub poderia ter imaginado um lugar tão lindo. Mas o que realmente fez com que caísse de joelhos foi a imagem de crianças correndo e brincando felizes pelo jardim. Elas corriam umas atrás das outras pelos caminhos e ao redor das árvores. Brincavam de esconde -esconde atrás das sebes. O olhar de Baba Ayub procurou entre as crianças e, afinal, achou o que estava procurando. Lá estava ele! Seu filho, Qais, vivo, e mais do que bem. Tinha aumentado em altura, e o cabelo estava mais longo do que Baba Ayub recordava. Usava uma linda camisa branca por cima de calças bonitas. Ria com alegria correndo atrás de dois companheiros.
— Qais — murmurou Baba Ayub, a respiração embaçando o vidro. Começou a gritar o nome do filho.
Ele não pode ouvir você, disse o dev. Nem ver.
Baba Ayub começou a pular, acenando com os braços e esmurrando o vidro, até o dev fechar as
cortinas.
— Eu não entendo — disse Baba Ayub. — Eu pensei…
Essa é a sua recompensa, disse o dev.
— Explique -se! — exclamou Baba Ayub.
Eu o forcei a passar por um teste.
— Um teste?
Um teste de seu amor. Foi um desafio difícil, admito, e devo reconhecer quanto custou a você. Mas você passou. E esta é a sua recompensa. E a dele.
— E se eu não tivesse aceitado? — vociferou Baba Ayub. — E se tivesse recusado o seu teste?
Nesse caso todos os seus filhos teriam perecido, respondeu o dev, pois estariam desgraçados de qualquer forma, tendo um homem fraco como pai. Um covarde, que preferiu ver todos morrer a assumir o peso em sua consciência. O que você fez, o peso que carregou nos ombros, exigiu coragem. Por isso, devo reconhecer sua honra. Baba Ayub tirou a foice num gesto hesitante, mas ela caiu no piso de mármore com um ruído estridente. Seus joelhos fraquejaram, e ele teve de se sentar. Seu filho não se lembra mais de você, continuou o dev. Essa é a vida dele agora, e você viu o quanto está feliz. Aqui, ele desfruta as melhores comidas e roupas, amizade e afeto. Tem aulas de artes e linguagens, de ciências e dos caminhos da sabedoria e da caridade. Nada lhe falta. Algum dia, quando se tornar um homem, pode preferir ir embora e estará livre para partir. Imagino que vá influenciar muitas vidas com sua bondade e levar felicidade aos que estão presos ao sofrimento.
— Eu quero falar com ele — disse Baba Ayub. — Quero levá -lo para casa.
Quer mesmo?
Baba Ayub olhou para o dev.A criatura foi até um gabinete que ficava perto das cortinas e retirou uma ampulheta de uma das gavetas. Você sabe o que é isso, Abdullah, uma ampulheta? Sabe. Ótimo. Então, o dev pegou a ampulheta, virou -a de cabeça para baixo e colocou-a aos pés de Baba Ayub. Vou permitir que ele volte para casa com você, disse o dev. Se você quiser isso, ele nunca mais poderá voltar aqui. Se não quiser, você nunca mais poderá voltar. Quando toda a areia tiver escoado, vou perguntar qual é a sua escolha. E, com isso, o dev saiu do aposento, deixando Baba Ayub diante de mais uma dolorosa escolha a fazer.
Eu vou levar Qais para casa, pensou Baba Ayub de imediato. Era o que mais desejava, com todas as fibras de seu ser. Já não tinha visualizado isso em mil sonhos? Abraçar o pequeno Qais outra vez, beijar seu rosto e sentir a suavidade daquelas mãozinhas nas suas? No entanto… se o levasse para casa, que tipo de vida esperava por Qais em Maidan Sabz? A vida dura de um pastor, no máximo, como a sua, e pouco mais. Isto é, se Qais não morresse por causa das secas, como haviam morrido tantas crianças da aldeia. Você vai poder se perdoar, se isso acontecer?, perguntou Baba Ayub a si mesmo. Sabendo que o arrancou, por conta de suas razões egoístas, de uma vida de luxo e oportunidades? Porém, se deixasse Qais para trás, sabendo que o filho estava vivo, sabendo de seu paradeiro, e mesmo assim ser proibido de vê -lo? Como poderia suportar isso? Baba Ayub chorou. Sentiu -se tão desesperado que pegou a ampulheta e a atirou na parede. Ela se quebrou em mil pedaços e espalhou areia fina pelo chão. O dev retornou ao recinto e encontrou Baba Ayub ao lado dos cacos de vidro, os ombros curvados.
— Você é uma fera cruel — falou Baba Ayub. Quando alguém vive tanto quanto eu, replicou o dev, percebe que crueldade e benevolência são tonalidades da mesma cor. Você fez sua escolha? Baba Ayub enxugou as lágrimas, pegou sua foice e a enfiou no cinto. Andou lentamente em direção à porta, cabeça baixa. Você é um bom pai, disse o dev, quando Baba Ayub passou por ele. — Quero que você queime no fogo do inferno pelo que fez comigo — retrucou Baba Ayub, desanimado.
Saiu do aposento e estava se dirigindo ao corredor quando o dev foi atrás dele. Leve isso, disse o dev. A criatura deu a Baba Ayub um pequeno frasco de vidro contendo um líquido escuro. Beba quando estiver voltando para casa. Adeus.
Baba Ayub pegou o frasco e saiu sem dizer uma palavra. Muitos dias depois, a mulher de Baba Ayub estava na orla da plantação da família, procurando pelo marido, assim como ele ficava ali, esperando ver Qais. A cada dia que passava, as esperanças pela volta dele diminuíam. As pessoas da aldeia já falavam de Baba Ayub no passado. Um dia, lá estava ela na plantação de novo, uma oração nos lábios, quando viu uma figura esguia se aproximando de Maidan Sabz, vindo das montanhas. De início, achou que fosse um dervixe  perdido, um homem magro com roupas surradas, olhos vazios e têmporas encovadas, e só quandose aproximou ela reconheceu o marido. Seu coração saltou de alegria, e ela deu um grito de alívio. Depois de se lavar, se servir de água para beber e de comida para se alimentar, Baba Ayub estava em casa com os aldeões ao seu redor fazendo perguntas atrás de perguntas.

Aonde você foi, Baba Ayub?
O que você viu?
O que aconteceu com você?
Baba Ayub não podia responder, pois não se lembrava do que tinha acontecido com ele. Não se lembrava de nada da viagem, de ter escalado a montanha do dev, de ter falado com o dev, do grande palácio, do salão com as cortinas. Era como se tivesse acordado de um sonho já esquecido. Não se lembrava do jardim secreto, das crianças e, mais do que tudo, não se lembrava de ter visto o filho Qais brincando com os amigos entre as árvores. Aliás, quando alguém mencionava o nome de Qais, Baba Ayub piscava os olhos com perplexidade. Quem?, perguntava. Nem se lembrava de ter tido um filho chamado Qais. Você entende, Abdullah, que isso foi um ato de misericórdia? A poção, que apagou as lembranças dele? Foi a recompensa de Baba Ayub por ter passado no segundo teste do dev. Naquela primavera, os céus finalmente se abriram sobre Maidan Sabz. O que caiu não foi a chuvinha fraca dos anos anteriores, mas sim um grande, um imenso temporal. A chuva pesada caiu do céu, e os aldeões a acolheram, sedentos. O dia todo, a água tamborilou nos tetos de Maidan Sabz e abafou todos os outros sons do mundo. Gotas de chuva grandes e pesadas escorriam da ponta das folhas. Os poços encheram, e o rio subiu. As colinas do leste ficaram verdes. Flores silvestres se abriram, e pela primeira vez em muitos anos as crianças brincaram na grama onde as vacas pastavam. Todos ficaram contentes.

Quando as chuvas pararam, a aldeia teve algum trabalho a fazer. Diversas paredes de taipa tinham derretido, alguns tetos cederam, e as plantações se transformaram em charcos. Mas, depois da miséria da seca devastadora, as pessoas de Maidan Sabz não estavam se queixando. Paredes
foram reconstruídas, tetos consertados, e canais de irrigação foram drenados. Naquele outono, Baba Ayub teve a colheita de pistache mais abundante de sua vida, e, no ano seguinte e no subsequente, as colheitas aumentaram tanto em quantidade como em qualidade. Nas grandes cidades onde vendia seus produtos, Baba Ayub posava satisfeito atrás de suas pirâmides de pistache e sorria como o homem mais feliz que já tivesse andado na Terra. Nunca mais Maidan Sabz teve uma seca.
Há pouco mais a dizer, Abdullah. Mas você pode perguntar se algum dia um homem garboso montando um cavalo passou pela aldeia a caminho de grandes aventuras. Será que parou para tomar um gole de água, que agora a aldeia tinha de sobra, ou para se confraternizar com os aldeões, talvez com o próprio Baba Ayub? Isso eu não sei dizer, garoto. O que posso dizer é que Baba Ayub viveu até se tornar muito velho. Posso dizer que viu seus filhos se casarem, como sempre desejou, e posso dizer que seus filhos lhe deram muitos netos e todos proporcionaram grande alegria para Baba Ayub.
E posso dizer também que, em algumas noites, sem nenhuma razão específica, Baba Ayub não conseguia dormir. Apesar de agora estar muito velho, ainda podia andar com as próprias pernas, desde que usasse uma bengala. E assim, nessas noites insones, ele se esgueirava da cama sem acordar a mulher, pegava a bengala e saía de casa. Andava pela escuridão, a bengala tateando à frente, a brisa da noite fustigando seu rosto. Havia uma pedra achatada na orla de seu terreno, onde
ele se sentava. Em geral, permanecia ali por uma hora ou mais, olhando as estrelas, as nuvens flutuando perto da lua. Pensava em sua longa vida, e agradecia por toda a generosidade e alegria que lhe haviam sido proporcionadas. Querer mais, desejar ainda mais, ele sabia, seria mesquinharia. Suspirava com prazer e ouvia o vento descendo das montanhas, os pios das aves noturnas.
Mas, de vez em quando, pensava ter ouvido outro ruído além desses. Era sempre o mesmo, o toque agudo de uma sineta. Não compreendia por que ouvia esse som, sozinho no escuro, com todas as ovelhas e cabras dormindo. Às vezes dizia a si mesmo que não tinha ouvido aquilo, e às vezes sentia -se tão convencido do contrário que falava para a escuridão: — Alguém está aí? Quem está aí? Apareça. — Mas nunca obteve resposta. Baba Ayub não entendia. Assim como não entendia por que uma onda de alguma coisa, alguma coisa como a parte final de um sonho triste, sempre o envolvia quando ouvia o toque da sineta, surpreendendo -o todas as vezes, como uma inesperada lufada de vento. Mas depois passava, como passam todas as coisas. Passava. Então é isso, garoto. Esse é o fim da história. Não tenho mais nada a dizer. E agora já está realmente tarde, e estou cansado, e sua irmã e eu temos de acordar ao amanhecer. Por isso, apague
essa vela. Deite a cabeça e feche os olhos. Durma bem, garoto. Vamos fazer nossas despedidas pela manhã.

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Autor:

Estudante de Jornalismo na UFF, leitora voraz, que gosta muito de dividir com os amigos o que lê, o que gosta de ler e o que amou ler.

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