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{Eu li} Americanah – Chimamanda Ngozi Adichie

AMERICANAH Sinopse: Lagos, anos 1990. Enquanto Ifemelu e Obinze vivem o idílio do primeiro amor, a Nigéria enfrenta tempos sombrios sob um governo militar. Em busca de alternativas às universidades nacionais, paralisadas por sucessivas greves, a jovem Ifemelu muda-se para os Estados Unidos. Ao mesmo tempo que se destaca no meio acadêmico, ela se depara pela primeira vez com a questão racial e com as agruras da vida de imigrante, mulher e negra. Quinze anos mais tarde, Ifemelu é uma blogueira aclamada nos Estados Unidos, mas o tempo e o sucesso não atenuaram o apego à sua terra natal, tampouco anularam sua ligação com Obinze. Quando ela volta para a Nigéria, terá de encontrar seu lugar num país muito diferente do que deixou e na vida de seu companheiro de adolescência. Chimamanda Ngozi Adichie parte de uma história de amor para debater questões prementes e universais como imigração, preconceito racial e desigualdade de gênero.

Eu fiquei totalmente deslumbrada com esse livro, é uma excelente lição para as pessoas que acham que o preconceito racial não existe ou que tentam minimizar as coisas. E se colocam contra as medidas governamentais, chamando de privilégios o que os negros recebem hoje. Como a personagem Ifemelu se indaga e também a autora: e os privilégios que os brancos receberam a vida toda? Acredito que as injustiças do passado e presente devem sim ser corrigidas. E a autora através de sua personagem não tem vergonha de dizer isso e eia o grande ponto do livro.

Ifemelu vai pros Estados Unidos e enfrenta muitas dificuldades até conseguir se destacar como blogueira e ter o seu espaço social, mas mesmo depois de tal feito consegue enxergar as linhas que todos não esperam que ela ultrapasse, como namorar um branco rico ou poder fazer o que quiser. Na verdade o racismo para ela surge nos Estados Unidos, porque na Nigéria havia uma preocupação étnica e não racial. No blog ela mostra como as pessoas não querem ouvir a verdade sobre o preconceito, pelo menos a maioria delas.

Querido Negro Não Americano, quando você escolhe vir para os Estados Unidos, vira negro. Pare de argumentar. Pare de dizer que é jamaicano ou ganense. A América não liga. E daí se você não era negro no seu país? Está nos Estados Unidos agora.

O livro tem uma personagem jovem, debatendo questões que nós, adultos recentes, enfrentamos todos os dias: trabalhar no que? ser o que agora que já cresci? me formar em que? Me identifiquei muito com a personagem na sua busca pelo emprego e nas portas fechadas. É claro que para ela, que é negra, muitas portas não se abriram justamente por isso. Absurdo que infelizmente ainda existe.

Na trama temos dois personagens, Ifemelu e Obinze, amores eternos um do outro, mas que estão separados há treze anos. Obinze também narra parte do que viveu, várias barras também, enquanto Ifemelu lhe deixou no silêncio por algo que aconteceu e ele não sabe o que é. Mesmo assim eles nunca se esqueceram, o romance dos dois traz a parte de entretenimento do livro. E me deixou encantada, acredito que todo mundo tem alguém que compreende nossa alma e par ao qual não precisamos dizer muita coisa para ser entendidos. A narrativa é construída com grandes flashbacks da vida de Ifemelu e Obinze, ela na Nigéria e nos Estados Unidos, e ele na Inglaterra também, intercalados com o que ela escreveu para o blog na época e com o presente em que ela está voltando para casa.

É um livro que te deixa com a vontade de fazer todo mundo lê-lo, cheio de argumentos que te conquistam e fazem repensar o racismo. Eu me peguei lendo uma página do blog de Ifemelu inteira no whats up para uma amiga. E a autora fez questão de colocar uma Ifemelu muito real, porque ninguém é perfeito por defender uma causa, e ela não está sempre certa, vemos no livro muitos tropeços por parte de Ifemelu, que em vários momentos questiona sua própria identidade. como no começo em que decide treinar o sotaque do negro americano ao invés do africano que fala inglês, mas que depois compreende que está perdendo quem ela é de verdade por algo que não vale a pena. Hoje Chimamanda escreve o blog As pequenas redenções de Lagos, como Ifemelu, que é o blog que a personagem cria quando volta para casa.

“Os textos ácidos do blog de Ifemelu expõem vários ângulos desse problema, do preconceito enfrentado por mulheres negras que se recusam a alisar o cabelo à hipocrisia no debate público sobre desigualdade racial: “Nos Estados Unidos o racismo existe, mas os racistas desapareceram”, ela escreve. Em outro post, alerta os leitores: “Se estiver falando com uma pessoa que não for negra de alguma coisa racista que aconteceu com você, tome cuidado para não ser amargo. Não reclame. Diga que perdoou. (…) Nem se incomode em falar de alguma coisa racista que aconteceu com você para um conservador branco. Porque esse conservador vai dizer que VOCÊ é o verdadeiro racista e sua boca vai ficar ainda mais aberta” (Reportagem O Globo)

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Em 2013, “Americanah” recebeu o National Book Critics Circle Award, concedido pela associação de críticos dos Estados Unidos. Foi o primeiro grande prêmio internacional para a escritora de 36 anos, que já havia recebido boas críticas pelos romances “Hibisco roxo” (2003) e “Meio sol amarelo” (2006), ambos lançados no Brasil pela Companhia das Letras. Enquanto os livros anteriores eram ambientados na Nigéria, “Americanah” é fruto das reflexões de Chimamanda sobre o trânsito cultural: ela nasceu em Enugu, no sudeste nigeriano, foi estudar nos Estados Unidos aos 19 anos e hoje vive entre Lagos e Baltimore. (Reportagem O Globo)

Parte da entrevista publicada no Estadão, com Chimamanda feita pelo telefone (veja ela completa):

Ifemelu diz que só se sentiu negra quando pisou na América. Pensando nisso, como as relações de raça acontecem de onde você vem?  Na Nigéria não temos tantas categorias, como branco, meio branco, meio negro. A discussão é étnica, não racial. Há privilégios para pessoas com um tom de pele mais claro. Infelizmente, na maior parte do mundo é assim. Nos EUA, a maior parte das pessoas negras bem-sucedidas tem tom de pele claro. Na Nigéria não é assim. Pessoas vão falar disso, mas atrizes populares são escuras. Não é tão institucionalizado.

O seu objetivo foi fazer um livro com poucas nuances e que não fosse sutil?

Eu discordo. Eu acho que ele tem, sim, nuances. As pessoas acabam pedindo por nuances quando o assunto é algo tão complicado quanto a raça. Elas querem ficar confortáveis. Pessoas que não experimentaram problemas raciais não entendem o que significa uma nuance. Ifemelu é uma pessoa muito vulnerável, e ela está longe de ser perfeita, assim como o mundo todo. Ela é capaz de apontar racistas e atos racistas, mas ela não está apontando de um lugar de perfeição, e é isso que é a nuance.

Ifemelu tenta não ser tão sutil.

Certamente no blog, sim.

Você vê alguma solução?

Gostaria de saber. No livro tem um personagem que viaja ao Brasil e as pessoas olham estranho quando ele entra na fila da primeira classe no aeroporto. Eu acho que o primeiro passo é ter consciência do problema. Ninguém quer realmente admitir que isso é um problema.

Perguntei sobre raça no Brasil e fiquei assustada com quantas pessoas me disseram que não havia problemas. Todas elas eram brancas.”

Inclusive, aqui.

Quando fui ao Brasil (em 2008), amei o país, me senti confortável. Perguntei sobre raça e fiquei assustada com quantas pessoas me disseram que não havia problemas. Todas elas eram brancas. E pessoas que pareciam negras afirmavam que sim, existia um problema. É a história que o mundo conta sobre si mesmo, que existe esse maravilhoso ponto em que todo mundo é caramelo e está tudo bem. Não está.

Dá para perceber que o Brasil é mais parecido com a Nigéria do que com os Estados Unidos. Mas na questão racial, é o contrário.

Quando eu fui ao Brasil, lembro de ter comentado com amigos que gostei do País porque me fazia pensar que eu estava na Nigéria, mas as estradas eram melhores.

Mas você não notou esse problema por aqui?

Claro. Percebi. Olhando em volta, a infraestrutura do Brasil é meio parecida com a da Nigéria. Mas na infraestrutura social, é como nos EUA, não tem nada a ver com a Nigéria.

Uma das passagens mais emocionantes do livro é a cena em que Ifemelu e seus amigos celebram a eleição de Barack Obama. Cinco anos depois, isso ainda é uma emoção para você?

Eu sou uma grande admiradora de Barack Obama. Não sou uma das pessoas que dizem estar desapontadas com ele, porque nunca imaginei que ele fosse Jesus Cristo. Não esperei esse tipo de perfeição dele. Como presidente deste país ele tem feito coisas que admiro. Os programas de saúde, por exemplo. A questão sobre a política externa americana é que as pessoas ficam desapontadas porque ele faz algumas coisas que qualquer outro presidente americano faria. A primeira responsabilidade dele é proteger os Estados Unidos. Não concordo com algumas das políticas, mas não espero nada diferente. Também quero dizer que há algo nele que é humano. Sobre o que ele pensa da humanidade das pessoas. Eu admiro isso, porque não acho que os Estados Unidos tiveram isso com frequência nos seus presidentes.

Nos últimos 10 anos no Brasil, há por aqui ações afirmativas, como cotas raciais nas universidades públicas. Embora a maioria dos brasileiros aprove [62% em uma pesquisa Ibope/Estadão de 2013], há sempre pessoas que se opõem. O que você pode dizer sobre isso?

Quando pensamos nas razões desse tipo de coisa existir, é por causa de algumas políticas do governo. Pessoas foram excluídas da educação há 100, 60 anos, porque eram negras. Isso era uma política de governo. É algo que as pessoas deram um significado ruim, quando você fala de ações afirmativas, mesmo aqui nos EUA. Mas o governo foi responsável pela exclusão, então o governo deve ser responsável pela inclusão.

As ações estão funcionando por aí?

Eu acho que sim. Ainda há um longo caminho, mas as políticas têm feito possível que empresas de afro-americanos estejam um pouco melhor, e jovens têm oportunidades de estar em escolas melhores. Não é perfeito, mas é melhor do que nada.

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— Muita gente pensa na literatura como um remédio: “Tome isso, é ruim mas vai te fazer bem”. Isso é bobagem. A literatura feita na África precisa ser mais conhecida não porque vai “fazer bem” aos leitores, e sim porque é boa. A maior parte dos livros sobre a África que os leitores do resto do mundo conhecem foi escrita por autores de fora da África. É preciso mudar essa perspectiva. (Reportagem O Globo)

No vídeo a baixo ela discursa no TED, Ideas Worth Spreading, contando um pouco da sua história e dos perigos de uma História única.

O que me impressionou foi que ela tinha pena de mim antes de me ver. Sua posição padrão comigo, uma africana, era o tipo de arrogância bem intencionada, piedade. Minha colega de quarto só conhecia uma história da Africa, uma única história sobre catástrofe, e nessa  única história não havia possibilidade dos africanos serem iguais a ela de jeito nenhum.

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Autor:

Estudante de Jornalismo na UFF, leitora voraz, que gosta muito de dividir com os amigos o que lê, o que gosta de ler e o que amou ler.

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