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{eu li} Toda luz que não podemos ver – Anthony Doerr

Toda luz que nao podemos verSinopse: Marie-Laure vive em Paris, perto do Museu de História Natural, onde seu pai é o chaveiro responsável por cuidar de milhares de fechaduras. Quando a menina fica cega, aos seis anos, o pai constrói uma maquete em miniatura do bairro onde moram para que ela seja capaz de memorizar os caminhos. Na ocupação nazista em Paris, pai e filha fogem para a cidade de Saint-Malo e levam consigo o que talvez seja o mais valioso tesouro do museu. Em uma região de minas na Alemanha, o órfão Werner cresce com a irmã mais nova, encantado pelo rádio que certo dia encontram em uma pilha de lixo. Com a prática, acaba se tornando especialista no aparelho, talento que lhe vale uma vaga em uma escola nazista e, logo depois, uma missão especial: descobrir a fonte das transmissões de rádio responsáveis pela chegada dos Aliados na Normandia. Cada vez mais consciente dos custos humanos de seu trabalho, o rapaz é enviado então para Saint-Malo, onde seu caminho cruza o de Marie-Laure, enquanto ambos tentam sobreviver à Segunda Guerra Mundial.

Comecei esse livro com grandes expectativas que foram correspondidas conforme li o livro. No começo estava lendo poucas páginas, interrompendo a leitura toda hora e o livro parecia que não ia fluir. Mas o problema era comigo, eu que tinha que dedicar mais o meu tempo a uma narrativa muito especial que não é linear e que envolve muitos detalhes e muitos personagens importantes. O livro se passa durante a segunda guerra, acompanhamos a história de Marie e Werner, suas mudanças e ao mesmo tempo flashes do ano de 1944 onde o caminho dos dois se cruza definitivamente (e você logo percebe que não vai ser nada fácil). Isso porque suas histórias já tinham elos desde o começo do livro que o leitor aos poucos vai percebendo. Além disso, ano é importante porque um ataque aéreo organizado pelos aliados destrói a cidade francesa de Saint-Malo e expulsa os alemães. O ataque liberta, mas em guerra todos pagam, principalmente os inocentes.

Veja também a resenha em vídeo:

A história, narrada em terceira pessoa, se passa na França e na Alemanha. Em Paris, Marie vive com o pai, que é muito mais do que um chaveiro, no começo me interessei mais por ele do que por ela. Ele é um verdadeiro artista, sabe criar cofres, caixas secretas, objetos com seus próprios segredos para guardar preciosidades, alguns nem precisam de chave. Ele é um excelente pai, que ensina a filha (a esposa já faleceu) a se virar e ler em braile depois que ela fica cega. Ele trabalha em um museu, então os arredores da filha são sempre bem interessantes e ela vive feliz mesmo sem poder enxergar.

No entanto, também há lugar para o orgulho _ orgulho de fazer tudo sozinho. De ver a filha tão curiosa, tão resiliente, Há a humildade de ser o pai de alguém tão forte, como se ele fosse meramente um canal para algo maior. Esse é o sentimento de agora, pensa ele, ajoelhado ao lado da menina, lavando o cebelo dela: como se o seu amor pela filha ultrapassasse os limites do seu próprio corpo.

saint maloAté que precisam deixar a cidade e ir buscar abrigo na casa do tio-avô dela, que mora em Saint-Malo (região da Bretanha), um senhor recluso e traumatizado com a primeira guerra. A cidade é um refúgio afastado o princípio, antes da guerra tomar conta de tudo. É bonito ver como uma criança pode iluminar a vida de alguém e como o conhecimento, a curiosidade e o amor podem tirar alguém da toca.

Ele a fez girar; os dedos dela reluzem no ar. à luz da vela, ela aprece ser de outro mundo, o rosto todo cheio de sardas e no centro das sardas aqueles dois olhos imóveis como as bolsas dos ovos das aranhas. Eles não o seguem, mas tampouco o incomodam; parecem olhar para um lugar diferente, mais profundo, um mundo que consiste apensas de música.

Além disso, seu pai leva também um tesouro do museu (tamanha a confiança que o personagem passa) que dizem carregar uma maldição e que desperta a cobiça de um homem poderoso relacionado ao governo alemão, responsável por capturar obras e jóias para os nazistas, avalia-lás quanto a sua autenticidade, principalmente. Naquele sonho louco de Hitler de pegar as maiores oras e criar um museu do mundo. O autor também retrata o esforço de pessoas comuns em se libertar da opressão, correndo riscos de serem apanhadas.

É muito interessante ver como a ocupação alemã assusta os franceses, que primeiro se preocupam com coisas fúteis, como alimentos refinados que somem, e depois veem que podem perder a liberdade ou a vida. A própria Marie reclama muito no começo e vai amadurecendo. O que mais me impressionou na história dela foi como o autor soube transformar a cegueira em sua aliada, com o desenvolvimento dos outros sentidos e uma capacidade de andar sem esbarrar nas coisas por memorização do lugar dos objetos. Isso é vital no momento mais tenso do livro.

No outro lado da história, temos Werner um órfão alemão, que cresce em um orfanato, com sua irmã, cuja única perspectiva é fazer 14 anos e trabalhar forçadamente nas minas de carvão (trabalho totalmente insalubre). Mas sua vida sofre uma mudança drástica quando seu talento para concertar rádios e sua inteligência é reconhecida. Ele vai estudar numa escola alemã e depois trabalhar captando ondas de rádio para o exército. Ele é um garoto muito inteligente, que aprendeu vários conceitos científicos por um misterioso programa de rádio, no começo ele se deslumbra com a possibilidade de ser alguém importante, aprender mais e trabalhar para o país, mas logo vê que o preço é alto.

Ainda na escola a vida não é fácil nem para os alemães devido a esse ideal nazista de purificação da raça ariana, alguns se veem em risco quando não são táo perfeitos como se espera deles (inteligentes, claros, atletas, ferozes…). Eles são medidos e testados como cobaias. E mesmo os que passam no teste são criados para obedecer a um nacionalismo cruel. Mas apesar dos pesadelos Werner tem uma chance de se redimir e não poderia ter escolhido uma vida diferente nas circunstâncias em que vivia.

Há cadete com pele de leite, íris de safiras e redes ultrafinas de veias azuis nas costas das mãos. Por enquanto toda via, com as rédeas nas mãos da administração, eles são todos iguais, todos *Jungmänner. Eles se amontoam pelos portões juntos, engolem ovos fritos no refeitório juntos, marcham pelo quadrilátero, passam por revista, fazem continência par a abandeira, atiram com rifles, tomam banho e sofrem juntos. Cada um é uma porão de argila, e o ceramista, que é o imponente comandante, está moldando quatrocentos jarros idênticos.  *Homens jovens

Os ideias nazistas são apresentados nesse livro de uma forma diferente, não vemos o lado judeu, mas o lado problemático para os próprios alemães. Como as ideias são incutidas nas pessoas, principalmente nos jovens como adiantei. E no caso de Werner alguém que tem uma mente em conflito por isso, a irmã que ele deixa para trás representa principalmente sua consciência.

A vida é um caos, senhores. E o que representamos é a imposição de uma ordem ao caos. Mesmo no caso dos genes. Estamos impondo ordem na evolução das espécies. Separando os inferiores, os desregrados, separando o joio do trigo.

O rádio é um elemento fundamental nessa história, um fio condutor que aos poucos liga Marie e Werner, o próprio rádio é uma pista. O leitor fica querendo saber de tudo ao mesmo tempo, chaga um momento que não dá mais para largar o livro. É um livro que eu aconselho ler trechos grandes para não se perder e deixar passar detalhes. Nele há muitos parágrafos também sobre ciência, eletrônica, ondas, temas que também são importantes no retrato histórico. Tem todos os elementos para os fãs de romances históricos e para os que não são fãs se tornarem.

anthony doerrO autor:
Anthony Doerr é americano e com esse livro ganhou o Prêmio Pulitzer de ficção de 2015.  é historiador e autor dos livros The Shell Collector Memory Wall (contos), Four Seasons in Rome (memórias) e About Grace (romance), dedicou 10 anos a criar Toda luz que não podemos ver. Pelo que li ele ficou bem surpreso com o prêmio e a repercussão do livro, antes do sucesso recente não se sustentava com a escrita e dava aulas de redação. Confesso que achei graça com a semelhança dele e do John Boyne, dois carecas que escrevem romances históricos. 🙂 Anthony tem tudo para ser um dos meus favoritos como o Boyne.

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Autor:

Estudante de Jornalismo na UFF, leitora voraz, que gosta muito de dividir com os amigos o que lê, o que gosta de ler e o que amou ler.

5 comentários em “{eu li} Toda luz que não podemos ver – Anthony Doerr

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