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{eu li} O sol é para todos – Harper Lee

Sol e para todos.inddSinopse: A história de um advogado que defende um homem negro acusado de estuprar uma mulher branca nos Estados Unidos dos anos 1930 e enfrenta represálias da comunidade racista. O livro é narrado pela sensível Scout, filha do advogado. Uma história atemporal sobre tolerância, perda da inocência e conceito de justiça. Já vendeu mais de 30 milhões de cópias nos Estados Unidos. O livro foi Vencedor do Prêmio Pulitzer, escolhido pelo Library Journal o melhor romance do século XX, eleito pelos leitores de Modern Library um dos 100 melhores romances em língua inglesa. E o filme homônimo venceu o Oscar de melhor roteiro adaptado (skoob).

Para ver a resenha em vídeo, clique aqui.

O livro O sol é para todos começa de forma inocente, com brincadeiras de crianças passando o verão e aos poucos vai evoluindo quando elas começam a tomar consciência do que está acontecendo. Confesso que fiquei ansiosa e querendo chegar na parte que os conflitos começam, porque já fazia ideia do que viria, mas o começo é bem interessante. Gostei muito, o tom das crianças é perfeito, os questionamentos, as visões e experiências são bem reais. Mesmo Jean Louise, apelidada de Scout, sendo uma menina incrivelmente esperta, precoce na leitura segundo suas professoras e com uma noção inteligente do que a cerca, mesmo sendo tão novinha. É muito engraçado que ler para ela é algo muito natural, mas quando tem que ir para a escola se decepciona porque o “sistema” quer quase que ela finja que não sabe para se adequar a idade. Seu irmão Jem, mais velho, não fica atrás, é inteligente e já enfrenta os desafios de crescer.

Como diz na sinopse, o pai de Scout e Jem, é “selecionado” para defender um homem acusado de estupro, conforme o livro segue fica claro que a acusação em si é absurda, mas os porquês disso vão sendo explicados aos poucos. E para todos o que importa é que o acusado é negro, então por isso, Atticus, o pai, que até então era respeitado na cidade de Maycomb (Alabama) começa a ser acusado de “amar os negros”, já que ele realmente queria defender Tom. Isso tudo por perceberem que Atticus estava realmente do lado do acusado. A intolerância como vemos no livro é algo fácil de se propagar, mesmo o advogado sendo de uma família antiga e conhecendo ou ajudando todos na cidade.

Ele gostava de Maycomb, era nascido e criado lá, conhecia as pessoas e as pessoas o conheciam e , graças à enorme descendência de Simon Finch, Atticus era parente, por laços de sangue ou de casamento, de quase todo mundo na cidade.

Essas pessoas certamente têm o direito de pensar assim, e têm todo o direito de ter sua opinião respeitada _ considerou Atticus_ Mas antes de ser obrigado a viver com os outros, tenho de conviver comigo mesmo. A única coisa que não deve se curvar ao julgamento da maioria é a consciência de uma pessoa.

No trecho Atticus parece, e às vezes é mesmo, meio condescendente com o preconceito alheio. Mas vale lembrar que ele é um homem de sua época, e que não quer que os filhos briguem com as pessoas que o atacarem. Por isso a defesa de que elas tenham tais opiniões. É um personagem que acredita numa mudança gradual. Como outra personagem que o vê como aquele a qual foi dada uma responsabilidade que também é de outros, como se mesmo quem acredita que o veredicto deva ser a favor do negro ainda não estivesse pronto para assumir tal lado publicamente.

É claro que temos alguns personagens mais tolerantes, mas o preconceito na cidade vira uma arma perigosa, porque ninguém mais questiona a estabelecida noção de que os negros valem menos. De que a palavra deles valem menos do que a do pior branco. É assustador no livro quando conhecemos mais sobre os “Eweel” família da suposta “vítima”, vemos que não são pessoas respeitadas, vivem as custas do governo e, ainda assim, suas palavras tem mais valor do que a de um negro com família e trabalhador. E é no meio dessa confusão que Atticus, viúvo, tenta ensinar aos filhos os valores certos. Ele é o herói desse livro para mim, mesmo a história sendo contada pela Scout. É claro que tem uma passagem em que ela vai ser notável para o leitor, que não vou nem contar.

À medida que você for crescendo, vai ver brancos enganando negros todos os dias, mas vou lhe dizer uma coisa e quero que nunca esqueça: sempre que um branco faz esse tipo de coisa com um negro, não importa quem ele seja, quanto dinheiro tenha ou quão distinta seja a família da qual ele vem, esse homem branco não vale nada.

A historia também vai trazer outros tipos de preconceito, o diferente nessa cidade pequena não é bem visto. As pessoas mais simples e humildes também são consideradas menores na hierarquia social. Infelizmente ainda vemos isso hoje,né? Até o jeito que Atticus cria Scout, sem exigir dela que se comporte como uma “menininha” é criticado por todos, porque ela é uma muleca. E para a época deveria estar de vestido tomando chá, em vez de vestir suspensório e brincar de tudo com o irmão, viver sujinha. Ele conta com a ajuda de Cal, uma senhora negra que é uma segunda mãe, mas que também vai ter a relação com as crianças questionadas, até onde vão seus direitos como babá, como empregada, como negra… Paralelo ao caso, as crianças somadas com o menino Dill (amigo que passa o verão em Maycomb) também tem seus preconceitos infantis: por causa de umas histórias que correm na cidade sobre um vizinho recluso, conhecido como Boo Radley, que nunca é visto, eles sismam de tirar ele de casa. E vão fazer certas travessuras por isso, não chegam a ser maldosas, mas o livro prepara para eles uma surpresa em relação a isso.

Eu recomendo muito o livro, novidade eu recomendar um livro que fale sobre o preconceito? Não é, e ainda bem, ainda bem que esses livros existem para nos fazer questionar mais e mais. E principalmente não aceitar mais esse tipo de comportamento que ainda vemos. Comportamento de uma sociedade doente, mas que também é feito de escolhas.

trechodeosol

vaA continuação

Esse ano foi lançada uma continuação da história, 55 anos depois, e isso gerou muita polêmica porque a autora nunca tinha manifestado interesse em publicar esses textos escritos há muitos anos.Nesse livro Scout, já com 26 anos, volta a Maycomb para visitar seu pai (sinopse).

Além de grandes números, o novo livro de Lee, que hoje tem 89 anos, vive em uma clínica para idosos e tem a saúde extremamente debilitada, também vem acompanhado de uma polêmica. Após o lançamento de sua obra-prima a autora havia afirmado que não gostaria de voltar a publicar. Em entrevista para a Folha no início deste ano, após o anúncio de que um novo livro de Lee seria lançado, Charles Shields, um de seus biógrafos afirmou que ela já não está em “condições de dar um consentimento para a publicação de nada” e que alguém estaria se aproveitando de sua fragilidade. Esse alguém seria sua própria advogada de Lee, Tonja Carter, uma das únicas pessoas com acesso à escritora e quem achou “Go Set a Watchman” entre os arquivos de sua cliente – encontrou também o que pode vir a ser o terceiro romance de Lee. Especula-se que Tonja teria aproveitado o momento para lançar a obra à revelia da real opinião da autora (Continue lendo).

*Bem complicado né. Eu acho que vou ler o livro por curiosidade, mesmo com o pé atrás.

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Hoje ela tem 89 anos.

A autora

Sair de Monroeville para Nova York foi a decisão mais acertada da vida de Harper Lee. Ao contrário da esmagadora maioria de escritores que traçam o mesmo caminho, Lee — ostentando um estilo tomboy, com o curso de Direito pela metade — chegou à cidade mais promissora dos Estados Unidos em 1949, fez amigos, conseguiu emprego, escreveu um romance que chegou às listas dos mais vendidos do país, ganhou o Pulitzer, teve seu livro adaptado para o cinema e ainda levou o Oscar. Tudo isso entre as décadas de 50 e 60. Feitos nada comuns para uma menina do interior, mesmo nos EUA. Talvez influenciada por seu grande amigo Truman Capote, este sim, ávido pelos holofotes de Nova York, Lee trabalhou por muito tempo em um segundo livro nos anos 80, uma reportagem sobre um serial killer no Alabama. O título não chegou a ser publicado e Lee parece ter se conformado ao status de autora de um livro só. Desde então, ela se dividiu entre NY e Monroeville, até se voltar definitivamente para o Alabama, onde mora até hoje de maneira bastante reclusa, o que lhe rendeu uma fama salingeresca, não injustificada. Assim como Scout, a inconformada personagem-narrador de O sol é para todos, Lee é filha de advogado e cresceu em um ambiente muito similar à Maycomb. Ao nos aproximarmos da autora e da personagem, vemos que as semelhanças entre elas são muito mais essenciais do que esses fatos coincidentes nos levam a acreditar (editora José Olympio).

O filme

A adaptação do livro foi feita em 1962, e recebeu o Oscar de melhor roteiro adaptado. No filme quem fez o Atticus foi o Gregory Peck que também ganhou Oscar como melhor ator.

> Cena do filme

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Autor:

Estudante de Jornalismo na UFF, leitora voraz, que gosta muito de dividir com os amigos o que lê, o que gosta de ler e o que amou ler.

24 comentários em “{eu li} O sol é para todos – Harper Lee

  1. Ola!
    Nossa livro forte! Com continuação e filme antigo…
    Eu curto, mas não sei se leria o livro, acho que me agradaria mais ver o filme.
    Amei sua resenha!
    Bjks!

  2. Achei bem legal o tema, acho importante ser discutido, pois mesmo em 2015 o preconceito continua presente em nosso dia a dia.
    Adorei sua resenha, muito detalhada e completa, realmente me deixou com vontade de ler!

    1. Pois é né, preciso do apoio da literatura, porque tem horas que só penso que as pessoas não tem jeito. Fico feliz que vc ficou com vontade, depois me conta o que achou!

  3. Oiii flor, como vai!?
    Bom, eu nunca li esse livro, e achei bem interessante, o que eu mais queria olhar no livro era a diagramacao e você me mostrou, fiquei bem contente.
    Parabéns pelo o q escreveu, e eu também não sabia que tinha continuação kkkkkkkk
    Beijos

    1. Oii, tudo bem e vc? É interessante sim, uma história que acrescenta, leia! A diagramação é ótima, muito bom de ler.
      Obrigada querida, a continuação é bem recente. beijos

  4. Olá, eu queria muito ler esse livro, na verdade ano que vem estou com uma meta de ler mais clássicos da literatura e mesclar com os modernos, ler sua resenha só ressaltou o quanto um clássico pode influenciar e se tornar uma leitura agradável.

    Abraços e parabéns pela bela resenha.

    Giuliana.

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