Publicado em Eu li, Outros

{euli} A hora da estrela – Clarice Lispector

A_HORA_DA_ESTRELA_1387553444BSinopse: A história da nordestina Macabéa é contada passo a passo por seu autor, o escritor Rodrigo S.M. (um alter-ego de Clarice Lispector), de um modo que os leitores acompanhem o seu processo de criação. À medida que mostra esta alagoana, órfã de pai e mãe, criada por uma tia, desprovida de qualquer encanto, incapaz de comunicar-se com os outros, ele conhece um pouco mais sua própria identidade. A descrição do dia-a-dia de Macabéa na cidade do Rio de Janeiro como datilógrafa, o namoro com Olímpico de Jesus, seu relacionamento com o patrão e com a colega Glória e o encontro final com a cartomante estão sempre acompanhados por convites constantes ao leitor para ver com o autor de que matéria é feita a vida de um ser humano.

Meus Deus, que livro diferente e único. Nunca tinha lido nenhum livro da Clarice Lispector, só um ou outro conto, e achei que comecei muito bem com A hora da estrela. Essa história é disfarçada de uma história que não quer dizer nada, mas traz muitas reflexões. É um livro com um narrador muito intrometido na história que ele mesmo está escrevendo. Ele não fica a parte e chega a ser um dos personagens principais, já que passa bastante tempo explicando o que está fazendo, como, porque e também sobre si mesmo. Rodrigo S.M conta que essa história não tem nada de impressionante, que Macabéa é “insignificante” e tenta algumas vezes nos convencer disso. Mas aos poucos vai se encantando, preocupando e mudando. Um personagem que irrita mas que passamos a gostar de ser irritados por ele.

Vídeo no final da página 😉

A história – determino com falso livre-arbítrio – vai ter uns sete personagens e eu sou o mais importante deles, é claro. Eu, Rodrigo S. M. Relato antigo, este, pois não quero ser modernoso e inventar modismos à guisa de originalidade. Assim é que experimentei contra os meus hábitos uma história com começo, meio e “gran finale” seguido de silêncio e chuva caindo.

Como o autor conta a personagem é uma Nordestina que ele pode ter visto na rua e que não tem nada de incomum. Pessoa simples que vive uma vida carente mas que não percebe que sua vida é triste. O “autor” interfere na história mas consegue contar como é seu trabalho que está por um fio, como surgiu um namorado e um triste fim. Mais importante do que a história é o que está por trás dessas situações. A personagem desperta vários sentimentos: pena e raiva, por exemplo. Ela nunca revida os revés que sofre, e isso incomoda, mas não tem como não se penalizar, mesmo tudo sendo narrado de uma forma tão nua e crua.

Com a nordestina, há milhares de moças espalhadas por cortiços, vagas de cama um quarto, atrás de balcões trabalhando até a estafa. Não notam sequer que são facilmente substituíveis e que tanto existiriam como não existiriam. Poucas se queixam e ao que eu saiba nenhuma reclama por não saber a quem. Esse quem será que existe?

Macabéa é muito ingênua e não percebe que na sua infância era maltratada pela tia (ela é órfã). Assim como acha normal o jeito rude e sem jeito do namorado. Mas ao mesmo tempo gosta de ouvir a rádio-relógio que traz informações soltas sobre vários assuntos que ela aprende mesmo se saber a utilidade da informação.

O que impressiona é como o livro continua atual, porque ainda vemos pessoas sendo tratadas como nada e a realidade do imigrante nordestino hoje não é tão distinta da de Macabéa. É claro que não todos, alguns tem sorte de conseguir se firmar, mas quantos continuam sem acesso a educação e trabalhando de mão-de-obra barata?

Eu não inventei essa moça. Ela forçou dentro de mim a sua existência. Ela não era nem de longe débil mental, era à mercê e crente como uma idiota. A moça que pelo menos comida não mendigava, havia toda uma subclasse de gente mais perdida e com fome. Só eu amo.

Reparei em alguns comentários no skoob que muita gente acha esse livro chato e outras tantas defendem. Acho que só se deve ler esse livro se estiver disposto a embarcar em algo bem diferente, um livro duro com seus personagens, uma representação de como pode ser áspera uma existência. Não é um livro em que a heroína vá fazer algo brilhante, e em que a história deixa uma lição clara, tem que se estar de peito aberto para aceitar esse texto. Clarice nesse livro faz quem lê refletir sobre um contexto e ponto. Não é um livro que ler vá te deixar felizinho e nem uma leitura agradável. Mas é um livro curtinho (só 87 páginas), dá para ler em um dia só.

Decisões…

dia-nacional-livro Esse ano decidi que pelo menos uma vez no mês vou ler um livro nacional, há vários autores importantes que nunca li. E muitos livros considerados essenciais que nunca folheei. É claro que também há livros nacionais novos na minha lista, mas estou a busca dos clássicos que me interesso e estou sempre deixando para depois. Há várias listas de livros brasileiros essenciais, te convido a pesquisar e se aventurar. Se acha que a sinopse não te interessou tanto, que tal procurar algum do mesmo autor?  Se você já leu A hora da estrela, ou outro texto de Clarice, ou tem interesse não deixe de comentar! :* Se quiser me dar uma dica também!

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Autor:

Estudante de Jornalismo na UFF, leitora voraz, que gosta muito de dividir com os amigos o que lê, o que gosta de ler e o que amou ler.

7 comentários em “{euli} A hora da estrela – Clarice Lispector

  1. Oooi! Clarice é massa, não é? Eu estudei sobre ela no colégio e precisei ler análises e resumos (resenhas também) sobre este livro, no qual realmente ainda se mantém bem atual. Eu gosto da ideia do livro e fico até um pouco revoltada com a falta de caráter de alguns personagens, e chocada com a ingenuidade de Macabéa, apesar de que demonstra a ingenuidade de muitas pessoas também. A vida sofrida da jovem também nos mostra a crítica, porque não só sofria por causa do mal cuidado da tia, mas por ser nordestina também. Nas entrelinhas percebemos demais as críticas contra a sociedade da época, e que em certos aspectos ainda se vê nos dias atuais, não é? Bom, nunca cheguei a ler realmente o livro, mas já me sinto familiarizada com o enredo de tanto que li sobre ele rsrsrs E ah, adorei essa decisão! Se eu tivesse realmente mais tempo, eu até faria algo parecido, mas né… Quem sabe outro ano =)
    Beeeijos e ótima resenha!

  2. Oiii
    Eu fiz o mesmo desafio para mim este ano, comecei em fevereiro mesmo, lendo A cidade e as Serras, eu nunca li nada da Clarice, mas tenho muito interesse referente a quantidade de livros que ela possui e a quantidade de pessoas que falam bem de seus livros. Adorei este teu texto e quero ver se compro este livro.
    Beijão

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