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{euLi} Sangue no olho – Lina Meruane

SANGUE_NO_OLHOEstreia da chilena Lina Meruane no Brasil, este romance narrado em primeira pessoa conta a história de uma mulher que vê tudo ao seu redor se modificar quando se dá conta que está quase cega. A enfermidade – seus olhos se encharcam de sangue – é tratada por Leks, o médico russo que a submete a um extenuante périplo de exames, sem nunca chegar a um diagnóstico. Enquanto espera por uma definição, Lina passa a viver entre Nova York e Santiago do Chile – cidades que também são como personagens do livro – e reconfigura todas as suas relações pessoais: os velhos fantasmas familiares saem à luz e a relação com o namorado, Ignácio, ganha traços perversos.

Livro incrível! Eu fiquei cheia de expectativas com esse livro depois do que ouvi falar dele e foi bom porque elas foram superadas. Não imaginava uma leitura tão rítmica, dessas que você não consegue parar. Ao mesmo tempo uma escrita poética mas com linguagem dura e sem medo de usar palavras cruas.

logo youtbe Veja também o vídeo no canal. Clique aqui ou vá ao final da página.

A casa estava viva, empunhava suas maçanetas e afiava seus ferros enquanto eu insistia em me apoiar em cantos que não estavam mais no mesmo lugar. Mudava de forma, a casa, trocava suas peças como um jogo de xadrez, mudava os móveis de lugar para me confundir. Com um olho cego de sangue e o outro embaçado pelo movimento, eu parecia mais perdida, mais cabra-cega, zonza e de perna bamba.

Esse livro mostra a dificuldade de uma pessoa que fica cega, pelo menos temporariamente (não direi o que acontece no final se fica cega ou não), mostrando os tropeços e necessidade de reaprender o espaço. Essa doença não é nova para Lina, que a tem desde criança, mas em um momento do livro em que ela está para se mudar, o sangue domina seus olhos e permanece. Aos poucos Lina nos conta como sua infância foi complicada e como a relação com os pais médicos, que levaram o “trabalho para casa” é complicada. E como isso levou a “fugir” para Nova York. Muito interessante essa relação, como os cuidados podem sufocar alguém. Uma luta constante na cabeça de Nina que quer que a compreendam e ajudem mas que também quer fazer as coisas por si mesma.

A relação com o médico que não consegue mais saber quem são seus pacientes pelo nome é muito intrincada. O modo como ele é analisado por Lina que parece ver sua alma é brilhante. Ele pede a ela mais um mês antes da operação que pode não dar em nada, enquanto ela quer ser operada agora já que não aguenta mais a dúvida se ficará cega ou não.

Um olho, depois o outro. Lekz tinha pedaços de palavras entre os lábios, pedaços de palavrinhas penduradas o nariz e, deslizando pelo queixo, pedaços de palavrinhas penduradas no nariz e, deslizando pelo queixo, pedaços de sílabas efastas que protelavam a intervenção imediata. Um olho e o outro, mas não agora, só mais adiantes, repetiu, seco como uma gravação, como uma máquina repetidora, embora dentro de Lekz a língua parecesse continuar palpitando; era uma língua espevitada entrando em minha orelha com sua baba espessa e morna.

 Enquanto espera ela vai para o Chile e passa um tempo com os pais que querem que ela se opere lá e seja cuidada lá, coisa que ela se nega.  A relação com a mãe é a parte mais difícil. Quantas vezes não jogamos as pessoas que mais amamos nossas frustrações? E quando somos sufocadas por elas e temos que brigar para ter o nosso espaço? E continuar sendo nós mesmas sem a invasão do outro?

Quem? Pediu? Para você? Fazer alguma coisa? Estou latindo para minha mãe com dentes ansiosos, vou fincar as presas nela, lambuzá-la de saliva amarga. Agachada no chão, agitada sobre mim mesma, agitada, colérica, brigando com minha mãe que acabava de se transformar numa menina trêmula (…).

Tão difícil quanto quase é a relação com o namorado, a quem Nina tenta prever os movimentos, ao passo que ele escuta que virou uma bengala. “Ela não é sua namorada, é seu fardo”. Quantos parceiros de pessoas com deficiência devem ter encarado frases como essa? No livro conhecemos essa relação, que ora é amorosa ora é dura. É engraçado como a impaciência domina os dois em diferentes momentos, já que ele também está aprendendo e também em alguns momentos não sabe o que fazer.

O livro consegue tratar de todas essas relações e pontos de vista, mesmo sedo narrados só pela Lina, que tem uma visão muito abrangente de com quem ela está lidando. E sem apelar para o melodrama e sem perder o ritmo de  “thriller”. O final é surpreendente e destaca bem o lado ficcional da trama, o que durante o livro paira uma dúvida. Até que ponto uma pessoa vai para ter o que quer?

Lina Meruane é ao mesmo tempo nome da autora e da personagem, que se chama Lucina mas que tem esse apelido, e isso durante a leitura me deixou na dúvida se a autora estava ou não falando de si mesma. Mesmo lendo que era uma ficção, fiquei curiosa com isso. E achei em uma entrevista para o jornal Estadão a resposta da autora.

A doença nos olhos é uma experiência pela qual você passou?
A escrita desse romance usa uma experiência própria e logo vai se tornando outra. Então é e deixa de ser uma experiência própria. Por isso, escrevi um romance e não uma memória ou uma autobiografia. A realidade da doença é de Lucina e sua ficcionalização corresponde à outra, a Lina Meruane que assina seus livros. É um jogo de espelhos cegos. Interessava-me usar essa dúvida, essa curiosidade, essa doença, para tensionar a relação entre realidade e ficção e levar o meu leitor imaginário (como um cego, à mão) a remexer nos extremos obscuros a que a trama leva quando se separa do real. Fonte: Estadão. Confira a reportagem.

Leiam, leiam esse livro! Além dessa escrita maravilhosa, a parte gráfica é incrível! As páginas do livro vão escurecendo. Começam claras e vão ficando cinza. No vídeo eu mostro.

Gostou? Não deixa de comentar! 😉 Já leu esse livro? Quero saber o que você achou! Obrigada pela visita.

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Autor:

Estudante de Jornalismo na UFF, leitora voraz, que gosta muito de dividir com os amigos o que lê, o que gosta de ler e o que amou ler.

10 comentários em “{euLi} Sangue no olho – Lina Meruane

  1. Oooi! Gostei muito da resenha, como sempre. Acho interessante livros que nos trazem alguma deficiência, principalmente quando o mesmo nos traz as superações junto. Fico ainda chocada ao notar que ainda existe preconceito para com os deficientes, seja ele visual, ou com qualquer outra doença. Isso é o cúmulo! Bom, quem sabe um dia eu chegue a ler este livro, certo?
    Beeijos

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