Publicado em Eu li, Outros

{euLi} Ciranda de Pedra – Lygia Fagundes Telles

CIRANDA_DE_PEDRA_1387677177BSinopse: Quando um casal de classe média se separa, a caçula, Virgínia, é a única das três filhas que vai morar com a mãe. É do ponto de vista dessa menina deslocada e solitária que se narram os dramas ocultos sob a superfície polida da família. Loucura, traição e morte são as forças perversas que animam esse singular romance de formação, que já na época de seu lançamento, em 1954, chamou a atenção para o talento e a originalidade da literatura de Lygia Fagundes Telles. Saudado com entusiasmo por intelectuais como Antonio Candido, Paulo Rónai, Otto Maria Car-peaux e Carlos Drummond de Andrade, “Ciranda de Pedra” mantém-se há meio século como um dos livros mais amados da autora.

Gente esse livro é sensacional, a maneira como os personagens são construídos é desconcertante. E cheguei o final e li a carta do Drummond para a Lygia (eu amo Drummond), ele amou, acho que se eu não tivesse gostado teria ficado envergonhada por conta da carta. hhahaha E para completar esse foi o primeiro romance da autora e ela bem modesta considera tudo o que escreveu antes meras “juvenialidades”.

Vídeo o final da página 🙂

Esse livro mostra o crescimento da personagem Virgínia, é um livro que acompanha-a em várias idades, cercada de meias verdades.  No começo ela é uma menina que mora com a mãe e o padrasto, sem luxo e dinheiro, enquanto suas irmãs moram com o pai que é rico. A  história da separação dos pais no começo é meio nebulosa, mas Virgínia acredita que a mãe estaria melhor com o pai e inveja a boa vida das irmãs. A mãe, Laura, tem problemas mentais, que no começo fiquei a dúvida se eram sérios ou forçados por remédios (acho que fiquei com isso por causa da versão da novela), mas se revela bem grave. E ela não consegue conversar muito com a mãe e ainda é muito pequena para entender.

Havia na festa tanta gente, tato espelho, tanto lustre! Mas só nós dois vivos tudo o mais era falso, tão vazio e sem sentido como papelão pintado..Só nós dois vivendo.

As circunstâncias em que Laura e Natércio se separam vão sendo esclarecidas ao longo do livro. Mas fica claro que ela não era feliz. E que por ter se separado para ficar com outra pessoa, Dr. Daniel, para a época em que o livro se passa, década de 50, foi um verdadeiro escândalo. E ela é julgada pelas filhas e pelo ex-marido.

Abandonou o marido, as filhas, abandoou tudo e foi viver com outro homem. Esqueceu-se dos seus deveres, enxovalhou a família, caiu em pecado mortal!

O fato de conviver pouco com as irmãs, Bruna e Otávia, é agravado por elas tratarem Virgínia de forma meio esnobe, assim como os amigos das duas, menos Conrado que ela fica apaixonada embora ele só ligue mesmo para Otávia. Esse círculo de jovens composto pelas irmãs, o encantador Conrado e sua irmã Letícia e Afonso, formam uma “ciranda” em que Virgínia quer se encaixar ao mesmo tempo que repudia ao logo da trama. O “pai” também é com ela um homem distante e frio e suas visitas são vazias de sentimento. Mas será que ela sabe toda a verdade? Uma hora Daniel decide que é melhor por condições financeiras  que ela more com Natércio e a princípio ela vai feliz, mas logo vê que é difícil se encaixar.

Uma das melhores partes do livro é quando ela descobre mais sobre o seu papel na relação dos pais e acaba tomando a decisão de estudar no internato em tempo integral. Isso a afasta para depois voltar e ter de confrontar as irmãs e os amigos, que mudaram em alguns aspectos e ela tem que refazer a imagem que ela tem deles o tempo todo. Ela vai se enganar bastante, julgar o que não sabe, tentar passar por cima da inveja que sentia e até tentar se vingar um pouco. Vai precisar se perder antes de encontrar um rumo. O livro é basicamente sobre o crescimento dela e lições que são dadas pela vida.

A dança era antiga e exaustiva justamente porque ficara de fora, desejando participar e sedo rejeitada. E rejeitando-a para logo em seguida esforçar-se para entrar.

Também há no livro uma série de amores desencontrados, como o da empregada de Daniel Luciana que vivia para ele enquanto ele só olhava para Laura. E me lembra justamente um poema de Drummond nesse aspecto.

Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Há uma grande lição na história sobre não julgar os atos alheios, porque você nunca sabe todos os lados e versões. E claro que acho exagerada essa fala, abaixo, da Otávia, mas ajuda a situar a Virginia a questão dos julgamentos.

Não fique assim com essa cara de donzela folhetinesca, não separe com tanta precisão os heróis dos vilões , cada qual de um lado tudo muito bonitinho como as experiências de química. Não há gente completamente boa nem gente completamente má, está tudo misturado e a separação é impossível. O mal está no próprio gênero humano, ninguém presta. às vezes a gente melhora, mas passa.

Além dessa trama rica em personagens bem elaborados, profundos e peculiares, o livro faz um retrato da época. Fala do lugar da mulher na sociedade, da busca por maior liberdade sexual e da homossexualidade vista com muito preconceito. E isso mostra como a autora estava ciente do que acontecia a sua volta, o livro foi publicado em 1954.

Novelas

A Rede Globo fez duas adaptações do livro para a novela, eu assisti a segunda mas foi em 2008! Mesmo lembrando pouco acho que as modificações foram grandes. De cara o papel de Laura (Ana Paula Arósio na segunda versão e Lucélia Santos na primeira) acho que foi esticado porque no livro ela só convive com Virgínia na infância, e na trama as filhas já estão mais velhas e ela presente. As outras coisas que lembro também me parecem destoar bem do livro.

lygiaA autora:

Nasceu e vive em São Paulo. Considerada pela crítica uma das mais importantes escritoras brasileiras, publicou ainda na adolescência o seu primeiro livro de contos, Porão e sobrado (1938). Estudou direito e educação física antes de se dedicar exclusivamente à literatura. Foi eleita para a Academia Brasileira de Letras em 1985 e em 2005 recebeu o Prêmio Camões, o mais importante da literatura de língua portuguesa. E concorre esse ano ao obel de Literatura. Em meio a outros livros bem sucedidos, publicou, em 1973, “As Meninas”, romance psicológico que conta a história de três jovens, de origens, personalidades e trajetórias diferentes, sendo uma delas envolvida com a luta armada. Com uma narrativa surpreendente, o romance retrata os sonhos e conflitos da geração jovem que vivia no auge da ditadura militar. Fonte: Companhia das Letras e Memórias da Ditadura.

E está concorrendo ao Nobel de Literatura esse ano!

Recomendo a leitura de As meninas.

Gostou? Comente!

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Autor:

Estudante de Jornalismo na UFF, leitora voraz, que gosta muito de dividir com os amigos o que lê, o que gosta de ler e o que amou ler.

7 comentários em “{euLi} Ciranda de Pedra – Lygia Fagundes Telles

  1. Ooi! Não me lembro se já assisti a novela, mas achei bem interessante o enredo em si, ainda mais por se tratar de um nacional. Quem sabe um dia eu possa ler, né? Como sempre, suas resenhas são muito boas!
    Beeijos

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