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{euLi} Dona Flor e seus dois maridos – Jorge Amado

13275766_1084021995005120_773138755_nSinopse: Num domingo de Carnaval, Vadinho parou de sambar e caiu duro. Uma vida de boemia chegava ao fim: cachaça, jogatina e noites de esbórnia arruinaram o jovem malandro. Dona Flor acorreu em prantos ao corpo do marido, fantasiado de baiana. Em sete anos de casamento, sofrera com as safadezas de Vadinho, mas o amava. Viúva, Florípedes Guimarães concentra-se nas aulas de cozinha na escola Sabor e Arte. Um ano depois da morte de Vadinho, porém, o desejo do corpo lhe incendeia o recato da alma. O farmacêutico Teodoro 13233393_1084021775005142_922132832_nMadureira surge como pretendente. Cerimonioso e equilibrado, o segundo marido é o oposto do primeiro. Dr. Teodoro vive para a farmácia e para os ensaios de fagote. Ela é feliz com ele, mas sente um vazio que não sabe definir. Certa noite, Flor toma um susto: Vadinho está nu, deitado na cama, rindo e acenando para ela. O fantasma do malandro passa a viver com o casal.

Para assistir a resenha no canal clique aqui ou assista no final da página.

Que livro incrível! Não imaginava que iria gostar tanto, tinha uma certa curiosidade mas não imaginava personagens tão contraditórios e envolventes. Jorge Amado (biografia) é um autor incrível e fico feliz de ler outro livro do autor, e mais ainda que tenha sido Dona Flor e seus dois maridos. Também li Capitães de Areia e amei.

Vadinho e Teodoro são  dois maridos representam dois lados de uma mesma mulher, a que ama com paixão, mesmo não achando que isso seja muito direito, e a que quer segurança, companhia e proteção. Uma não se completa sem a outra. Vadinho é bem cafajeste, para ele não existe monogamia, só no coração, mas não na cama. Também é viciado em jogo e na crise apela para um lado negro indefensável. Mas também quer ver Flor feliz e é amado na mesma medida que é odiado. Uma lábia e simpatia difíceis de ignorar. E Teodoro é o marido que repeita, é honesto e direito, só lhe falta um pouco de fogo com a esposa. Esse trio desperta no leitor as mais diversas emoções.

Tomava dela como de um brinquedo, um brinquedo ou um fechado botão de rosa que ele fazia desabrochar em cada noite de prazer.

Mas antes de eles serem um trio, o livro traz a história bem antes disso. Começa narrando a morte de Vadinho em pleno carnaval, a reação dos vizinhos, amigos e de Flor. A esposa apaixonada trocaria essa espera sem retorno que é a morte, por qualquer um dos seus piores dias com Vadinho. Ela amava muito o “crápula”, o “traste”, como ressaltam as comadres, e mesmo ele sendo tudo isso ela sabe que ele tinha seus melhores momentos e que deu significado para a vidinha dela. Eu jamais seria uma Dona Flor e aguentaria todos os desmandos de Vadinho, mas é impossível não compreender seu sofrimento.

Pois se é Vadinho, coitadinho dele!, constatou um careta, com sua máscara de meia, perdida a animação. Todos reconheciam o morto, era largamente popular, com sua alegria esfuziante, seu bigodinho recortado, sua altivez de malandro, benquisto sobretudo nos lugares onde se bebia, se jogava e farreava; e ali tão perto de sua residência, não havia quem não o identificasse.

Depois da morte de Vadinho, temos um grande flashback de como os dois se conheceram, namoraram e casaram. Para os bons costumes, nada começou direito. O pretendente já começou enganando a sogra (que merecia, velha chata e que só visava $$ e posição) e Flor, no começo ele parecia um partidão. Quando as coisas se provam contrárias, Flor resolve ficar com ele mesmo a revelia da mãe e pondo em risco sua honra. Com o casamento eles vão morar em Salvador, na época Flor já ensinava as artes da cozinha baiana e continua. São poucas as vezes que Vadinho põe algum dinheiro dentro de casa, isso quando ele não tira a força.

Escassas porém eram as noites em que o tinha sem sair após o jantar, estirado no sofá, a cabeça em seu colo, a ouvir o rádio, a contar-lhe histórias, a mão indiscreta a cutucá-lá, a bolir com ela, tentando-a; e logo cedo no leito de ferro, na longa cavalgada. Aconteciam de raro em raro. Quando ele em um enjôo repentino e imprevisível, abandonava por três quatro dias, por toda uma semana, a estroinice, a baderna, a cachaça e o jogo e permanecia em casa. Dormido a maior parte do tempo, futucando nos armários, abusando as alunas, exigindo Dona Flor para vadiar a qualquer hora, mesmo nas mais impróprias e indiscretas.

Depois que Vadinho morre, a história fica um pouquinho arrastada, Dona Flor de luto e todas as comadres aporrinhando para que ela fique bem. Também tem visita demorada da mãe, os ânimos da heroína caem. Até ela resolver enterrar a saudade. E quando isso acontece é a saudade de ter alguém em sua cama que a consome, deixando uma solução a “depravação”, já que ela tem péssimas opiniões sobre quem se entrega a outro homem facilmente, ou um novo casamento. Esse momento da história temos uma crítica aos costumes da época, Flor quer muito ter alguém mas se prende e se apavora por achar que não é comportamento de uma viúva. Ela acredita que o desejo deveria ser enterrado com o marido. Demora muito para que ela se convença e para isso só o apoio das melhores amigas.

Essa parte evidencia as fofocas e os costumes, as pessoas que faziam parte de uma mesma comunidade em Salvador: vizinhos, amigos, companheiros de religião, sabiam tudo uns sobre os outros e davam mesmo sua opinião (consultados ou não). É claro que isso oras era bom porque trazia ajuda, amizade e apoio (dos amigos verdadeiros) mas também gerava muita intriga e raiva.

As outras trancaram as bocas, quem se incomoda em transmitir alvissareiras novas? Para isso não há urgência e sofreguidão, ninguém sai correndo rua a fora. Só para as más notícias. Para levá-las, sobram os arautos, não falta quem se dê aos maiores incômodos, quem largue trabalho, interrompa descanso, quem se sacrifique. Dar uma notícia ruim, coisa mais emocionante!

E são as amigas que percebem primeiro o interesse de Teodoro, o farmacêutico, em Flor. O pretendente a agrada e daí para o casamento é um pulo, preocupada com a honra ela exige o namoro dos mais castos e vigiados. A profissão e situação financeira do noivo agradam até a sogra mais chata. O casamento vem na sequência e a felicidade. Mas uma felicidade um tanto quanto morna, que não revela grandes emoções, apesar das grandes qualidade do marido e sem querer e perceber Flor deseja a volta de Vadinho. E é assim que começa a melhor parte do livro para mim.

Vadinho tenta de todas as formas carregar par a cama Flor, tentando a de todas as formas possíveis. Ela acha que pode estar chifrando Teodoro. Perdida não sabe o que fazer. Vadinho também vai deixar alguns companheiros de jogo de cabelo em pé, essa parte é muito engraçada, tentando ajudar os amigos ele vai causar uma grade confusão. Não vou contar o que acontece no final e como Flor se decide, mas Vadinho é fundamental para que ela perceba que seus desejos também fazem parte de quem ela é.

Também deu meu amor precisas para ser feliz, desse amor de impurezas, errado e torto, devasso e ardente, que te faz sofrer. Amor tão grande que resiste à minha vida desastrada, tão grande que depois de não ser voltei a ser e aqui estou. Para te dar alegria, sofrimento e gozo aqui estou. Mas não para permanecer contigo, ser tua companhia, teu atento esposo. Isso é com meu nobre colega de chibiu, e melhor jamais encontrarás. Eu sou o marido da pobre dona Flor, aquele que vai acordar tua ânsia e morder teu desejo, escondidos no fundo do teu ser, de teu recato. Ele é o marido da senhora dona Flor cuida de tua virtude, de tua honra, de teu respeito humano. Ele é tua face matinal, eu sou tua noite, o amante para o qual não tens nem jeito e nem coragem. Somos teus dois maridos, tuas duas faces, teu sim, teu não. Para ser feliz precisa de nós dois. Quando era eu só, tinhas meu amor, e lhe faltava tudo, como sofrias! Quando foi só ele, tinhas de um tudo, nada te faltava, sofrias ainda mais. Agora, sim, és dona Flor inteira como deves ser.

O livro constrói o cenário baiano dos anos sessenta de forma incrível, você passa a entender como a sociedade funcionava. O jogo era muito importante, mesmo quem não jogava tinha curiosidade e até um certo fascínio, e economicamente os donos dos cassinos tinham grande influência. O candomblé e a umbanda são temas fortes no livro, fazem parte da cultura da Bahia. Há muitos personagens que fazem parte dessas religiões e o autor desfila uma grande quantidade de nomes de divindades e de tipos de pessoas e seus “cargos”. A maioria eu não faço muita ideia do que seja, mas não impede em nenhum momento de captar o que o autor quis dizer. O autor gosta muito de dar exemplos com histórias paralelas e isso vai servir tanto para o jogo quanto para a religião.

O mesmo para a música e culinária. O leitor fica conhecendo vários pratos tipicamente baianos com direito as receitas de Dona Flor. Logo no começo tem um bilhete da personagem para o autor, o que é bem criativo, o autor se coloca como um personagem da Bahia. Assim, se equipara a sua criação como se pudesse mesmo viver nessa história. Ele também usa vários nomes de cantores e compositores reais. Como Dorival Caymmi (antes da fama) que participa da serenata para Flor feita por Vadinho.

Enfim, para mim é um livro excelente, tem pequenos momentos que a história fica mais parada, mas é muito pouco comparado com as partes agitadas. Ambas partes trazem reflexões sobre a sociedade da época, o papel da esposa e o amor. Leiam!

DONA_FLOR_E_SEUS_DOIS_MARIDOS_1284851453B*A edição que tenho em casa é da minha mãe, de 1995, faz parte de uma coleção da Editora Record chamada Mestres da Literatura Contemporânea e tem ilustrações bem legais de Eloriano Teixeira.

Gostaram, não esqueça de deixar aquele comentário! (:

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Autor:

Estudante de Jornalismo na UFF, leitora voraz, que gosta muito de dividir com os amigos o que lê, o que gosta de ler e o que amou ler.

11 comentários em “{euLi} Dona Flor e seus dois maridos – Jorge Amado

  1. Olá. Livros desses autores brasileiros geralmente não são valorizados e explorados, confesso que eu não leria esse livro pelo simples fato de ser do Jorge Amado. O que me deixa triste porque parece ser um livro tão cativante. Quem sabe um dia esse meu preconceito literário passe, não é? Haha.

  2. Olá Thamiris!
    Nossa menina que resenha maravilhosa! Parabéns!
    Nunca tinha pensado em ler esse livro… mas agora fiquei muito curiosa… acho que sua resenha deu certo hein???!!! kkkkkkk
    Vendo a situação de Dona Flor, acho que é assim mesmo… gostamos de nos sentir seguras, respeitadas, mas também queremos paixão e emoção!!!

  3. Oi Thamy!
    Esse é meu livro favorito do Jorge Amado, lembro que em 2012 tive que lê-lo para uma homenagem aos 100 anos do autor e me envolvi tanto com a obra que acabei sendo escolhida para interpretar a Dona Flor (e a minha paixonite de ensino médio foi o segundo marido de Flor, olha que máximo! hahaha)

    Amei a resenha, e fico feliz por também ter gostado. É sempre bom ver alguém curtindo os mesmos livros que a gente.

    Beijos..

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