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{euLi} O filho de mil homens – Valter Hugo Mãe

O_FILHO_DE_MIL_HOMENS_1336244277BCom vontade imensa de ser pai, o pescador Crisóstomo, um homem de quarenta anos, conhece o órfão Camilo, que um dia aparece em sua traineira. Ao redor dos dois, outros personagens testemunham a invenção e construção de uma família em vinte capítulos. Valter Hugo Mãe, ao falar de uma aldeia rural e dos sonhos anulados de quem vive nela, atravessa temas como solidão, preconceitos, vontades reprimidas, amor e compaixão.

 Alguns livros são tão bons que fazer um post sobre parece insuficiente, dá vontade de ficar lendo o livro para as pessoas se convencerem de lê-lo também. Olha, olha isso. É um pouco do que faço com minha mãe, mas como não posso conversar com todos vocês sobre esse livro e perturbar, só me resta esse espaço. Quando eu estava começando a ler esse livro vi um post do blog Uma pedra o caminho falando da epígrafe (com tradução lá), da capa, do autor que acho muito válido vocês darem uma olhada.

nunca limites o amor

O livro começa cotando algumas histórias que aos poucos são costuradas umas nas outras até os personagens estarem conectados de formas surpreendentes, mostrando que o amor pode ser aceitado de várias formas basta as pessoas estarem abertas para isso. A conexão que esses personagens vão criando é linda e mostra um crédito na humanidade dado pelo autor. Mas antes disso vemos lados muito feios das pessoas: hipocrisia, preconceito, maldade… Todos esses mix de sentimentos estão presentes no livro e são apresentados de uma forma dura mas ao mesmo tempo linda. Há algumas histórias que começam bem tristes mas é tudo escrito de uma forma tão bela, esses personagens que sofrem carregam um poder de aceitação impressionante e uma capacidade de amar além da medida. Além da escrita brilhante do autor que já vale o livro. É tudo tão poético e necessário que o livro lava a alma.

Com certeza a história mais bonita, é a de Crisóstomo e Camilo,eu fiquei com vontade de abraças esses dois. Porque são ser humanos tão lindos. O pescador queria um filho, e via um filho quase como algo sobrenatural, um presente de Deus e da  natureza que ele ainda não tinha. Então quando ele vê essa oportunidade, consegue dizer tudo que precisa. Quem não acredita que pra ser filho não precisa de sangue tem que ler.

Perguntou-lhe,por responsabilidade, contendo a ansiedade mas assim perguntando como se fosse uma coisa normal, se podia ser seu pai. Porque havia metade de si que apenas estaria completa quando tivesse um filho. p.16

Mas há duas histórias que mais me indignaram e me fizeram fazer paralelo com a sociedade hipócrita que vivemos. Uma delas de uma anã, que vivia muito bem e contava com a caridade de todos, mas esse “todos” só se interessavam nela para posarem de boa gente,de pessoas caridosas, como a viam como diferente eram incapazes de vê-la como uma pessoa normal. Sempre preocupados com um sofrimento que para eles ela tinha uma obrigação de sentir o tempo todo. Uma história que dá muito o que pensar. A outra conta a dificuldade uma mãe amar um filho “maricas”, mas uma vontade mais imposta socialmente do que pelo seu coração de mãe.

As pessoas imaginavam e desejavam as coisas mais feias, tornando-se pessoas feias pelo medo e a avidez de continuarem a ser como sempre haviam sido. p. 33.

Essas  histórias acontecem em uma vila, em um lugar atrasado, mas contam a história do mundo. Vivo um certo desânimo com as barbaridades que vejo, mas o autor consegue nos dar uma pontinha de esperança.

O livro nos lembra que é impossível ser feliz sozinho e que os afetos nascem de forma inesperada e sem necessidade de explicação. Com um mundo tão cheio de gente há de haver amor e lugar para todo mundo. E esses personagens crescem ao passo que conseguem abrir de novo o coração mesmo depois das mazelas.

Eu já comentei da forma linda como Valter Hugo Mãe escreve e só me resta bombardear um pouco vocês com citações, é um daqueles livros que você quer marcar inteiro, então fica até difícil de escolher.

A Isaura sabia que amava alguém por vir, amava uma abstração de alguém no futuro. Ela esperava o futuro, e esperar era já um modo de amar. Esperar era amar. Certamente, amava de um modo impossível o futuro. p. 59.

Contudo, como no ditado português, quem não tem filho cada dia mata cem. Ter o filho feito, ainda que em grande nojo ali levantado, era muito outra coisa. Não era uma retórica. Dizer era muito fácil. Fazer ficava reservado para heróis e gente com grandes sortes. p.89.

O Crisóstemo explicava que o amor era uma atitude. Uma predisposição natural para ser a favor de outrem. É isso o amor. Uma predisposição natural para se favorecer alguém. Ser, sem sequer se pensar, por outra pessoa. Isso dava também para as variações estranhas do amor. p. 111

O Crisóstemo então levantou-se , atravessou o quarto, saiu, foi ver o Camilo deitado e beijá-lo para dormir e disse-lhe: nunca limites o amor. O miúdo perguntou/; porque dizes isso, pai. O pescador respondeu: porque é o único modo de também tu, um dia, te sentires o dobro do que tu és. p. 128.

valterO autor: Valter Hugo Mãe é português nascido em Angola ( essa frase é sensacional).   A sua obra está traduzida em variadíssimas línguas, merecendo um prestigiado acolhimento em países como o Brasil, a Alemanha, a Espanha, a França ou a Croácia. Publicou seis romances: A desumanização; O filho de mil homens; a máquina de fazer espanhóis (Grande Prémio Portugal Telecom Melhor Livro do Ano e Prémio Portugal Telecom Melhor Romance do Ano); o apocalipse dos trabalhadores; o remorso de baltazar serapião (Prémio Literário José Saramago) e o nosso reino. Confira o post sobre A desumanização do mesmo autor.

Valter Hugo Mãe – Eu combato a tirania da individualidade. Cada um de nós é uma figura coletiva e a única forma de reclamarmos uma identidade humana é termos em conta os outros. Parece que criamos uma euforia por nós mesmos e quase nos convencemos de que somos autossuficientes e podemos rejeitar os outros. Essa solidão extrema como objetivo é uma forma desumanização. Fonte: Época

Resenha em vídeo:

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Autor:

Estudante de Jornalismo na UFF, leitora voraz, que gosta muito de dividir com os amigos o que lê, o que gosta de ler e o que amou ler.

11 comentários em “{euLi} O filho de mil homens – Valter Hugo Mãe

      1. Concordo com o que você falou, às vezes um livro é muito bom e a gente só quer que as pessoas leiam, pq nossas palavras dificilmente serão suficientes! Mas pelo menos, muitas pessoas que vierem aqui vão ficar com aquela vontadezinha de ler o livro! bjs

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