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{euLi} A sangue frio – Truman Capote #SETEMBROPOLICIAL

a_sangue_frio_1384353147bSinopse: Um homem religioso, uma mãe depressiva, um adolescente, uma garota dona de casa, um cachorro amedrontado e dois ladrões frustrados. Esses e outros personagens são os ingredientes chave para o romance jornalístico A sangue frio, de Truman Capote. O livro é uma reportagem investigativa sobre o assassinato de quatro membros da família Clutter, o casal e seus dois filhos caçulas, ocorrido em 1959 na cidade de Holcomb, no Kansas, Estados Unidos.

Resenha em vídeo no final do post, confira também nosso canal.

Oi pessoal! Hoje vamos falar sobre um livro incrível, o penúltimo da minha meta de #SETEMBROPOLICIAL. Estamos chegando ao fim de setembro e eu adorei as leituras que fiz, espero que vocês também tenham gostado. Amanhã (29) é o último dia para vocês participarem do nosso super sorteio.

A sangue frio é um livro de não ficção, um dos grandes nomes quando se fala em jornalismo literário. “O jornalismo é fato da realidade. A literatura, da realidade somada à ficção. O jornalismo literário, logo, é uma miscelânea de ambos. Cumpre a missão de informar, preservando a essência jornalística, porém com ganho em vocabulário, estrutura narrativa e aprofundamento de conteúdo. Esse trinômio alicerça e ornamenta o texto que é levado ao leitor” (Observatório da Imprensa). Truman Capote chegou a dizer que estava inaugurando um novo gênero, mas se sabe que o jornalismo literário já existia antes dele, talvez ainda não com tanta profundidade. E não há quem fale de jornalismo literário sem falar desse livro, eu ouvi muito sobre na faculdade e já queria ler há bastante tempo. “Ele não foi pioneiro, mas foi o primeiro na era moderna a jogar luz sobre essas técnicas. Outros escritores acabaram seguindo o exemplo” (Gerald Clarke, biógrafo de Capote).

No livro não percebemos Truman, ele como personagem não aparece, na busca pela objetividade jornalística o autor não declara suas impressões escancaradamente. Mas é claro que a subjetividade está ali na forma de contar e no olhar do autor sobre a história. E que história seria essa? O assassinato da  família Clutter, o casal e seus dois filhos caçulas, Nancy (16) e Kenyon (15), ocorrido em 1959 na cidade de Holcomb, no Kansas, Estados Unidos, que abalou a cidade. A família era considerada queria e perfeita pela maioria, o Sr. Clutter um líder na comunidade, Nancy a menina que ajuda a todos, o único abalo é os problemas psicológicos da inofensiva mãe de família. Quem os mataria? Porque motivo?

Acompanhamos no começo do livro um pouco da história da família, seus amigos próximos e parentes. E ao mesmo tempo a história dos assassinos, o encontro entre eles e o rumo do assassinato. Até os dois pontos convergirem no crime brutal. Mas qual foi a motivação desses dois ladrões? Dinheiro? Capote teve a oportunidade de conversar e ficar amigo de Perry Smith e Dick Hickcock, mais do primeiro, um cara com uma história de vida conturbada, uma infância horrível, alguém com quem o escritor acabou se identificando. No livro a visão sobre os vilões é bem humanizada, o que mexe muito com o leitor, eu não consigo perdoar o que eles fizeram, mas acabei olhando para a história com uma visão bem ampla.

 Os assassinos são condenados a pena de morte, que no Kansas da época significava enforcamento. A parte do tribunal e o fato deles terem ou não problemas psicológicos levanta várias discussões sobre a justiça desse tipo de pena. Na época, no Kansas, havia também prisão perpétua mas com possibilidade de condicional em 15 anos. Seria justo eles serem condenados com possibilidade de serem soltos em 15 anos? Seria justo a pena de morte para alguém como Perry? Muitas questões fazem a cabeça do leitor girar. O próprio Capote ficou muito abalado com a execução dos assassinos e tentou ajudá-los.

Além das entrevistas com os assassinos, o autor entrevistou incessantemente e sem gravador ou anotações a maior parte dos moradores e dos investigadores envolvidos. Vemos a angústia da população, o medo de que algo aconteça novamente, a desconfiança de que alguém da própria comunidade esteja envolvido antes da verdade ser descoberta. A desconfiança com um motivo tão banal levaria uma família tão querida. A garra e o trabalho duro dos policiais tentando descobrir e pegar os criminosos. A mudança na sociedade local depois do crime é bem escrita e muito interessante. Capote era amigo de infância da autora de O sol é para todos, Haper Lee, e ela não só viajou com ele para o Kansas como ajudou a convencer as pessoas a falarem com ele. Truman era uma figura bem diferente dos moradores do interior e ela facilitou o contato.

Foi tudo verdade? Capote com certeza teve a licença poética de mudar falas e até algumas cenas, no fim do livro há um posfácil de Matinas Suzuki Jr. que discute isso. O livro recebeu várias críticas de que nem tudo aconteceu daquela forma, alguns moradores não gostaram de como foram retratados. Já outros acharam que ele alcançou mais do que eles disseram mas o que queriam realmente dizer. Não dá para levar o livro totalmente ao pé da letra, mas o que aconteceu acredito que esteja muito bem representado. Para mim o autor montou um livro que também interessasse o público como um romance e não necessariamente como uma reportagem, então teve a liberdade de adaptar situações.

Um autor Philip K. Tompkins, dedicou-se a pesquisar discrepâncias entre passagens do livro e o que ele diz ter apurado como fatos reais. No seu artigo “In cold fact” (“A fato frio”), ele conclui que Capote pôs suas próprias observações na boca e na cabeça dos personagens, e, para piorar, criou um retrato irreal e românico do assassino Perry Smith _ o qual o crítico Harold Bloom, que alega ficar deprimidos com a “imaginativa sublimação da identificação de Capote com os assassinos”, afirma ser o “demônio ou outro eu de Capote. (Posfácio)

É um livro que cada leitor deve tirar suas próprias conclusões a respeito disso. Capote esperou os quase seis anos entre a condenação e a execução dos assassinos, porque precisava de um desfecho para o seu livro. Primeiro a história saiu serializada na revista The New Yorker, em 1965, e só depois em livro.

p90443_p_v8_aaO filme Capote (2005) retrata os bastidores da apuração e escrita do livro: como a história mexeu com o autor, a ajuda da Haper Lee, todo o processo. É um filme excelente para conhecer mais sobre a personalidade e vida de Capote, tem um clima bem sombrio e sério, apesar de mostrar também que ele era famoso e frequentava várias festas. Quem interpretou o escritor, de forma brilhante, foi o ator Philip Hoffman (que faleceu aos 46 anos durante as gravações da parte 2 de Jogos Vorazes A Esperança). O filme foi baseado na biografia escrita por Gerald Clarke que conviveu com Capote, em entrevista ao Correio Braziliense ele fala da fidelidade do filme ao livro:

O filme foi fiel ao livro? Chegou a trabalhar diretamente com Philip Seymour Hoffman?
O filme foi, na maior parte, leal ao livro, mas houve algumas licenças poéticas. No longa, por exemplo, Perry Smith encara uma greve de fome e Truman o alimenta com papinhas de bebês para mantê-lo vivo. Perry, realmente, passou por uma greve de fome, mas Truman estava na Suíça na época. Eventualmente, eu conversava com Philip. Dei-lhe minhas fitas com as gravações das entrevistas com Truman, para que ele pudesse encontrar o tom ideal para fazer a voz. Philip fez um trabalho memorável. Na vida real, nem se parecia com Truman, mas quando o vi nas telas… Parecia que eu estava assistindo ao próprio Truman. (Correio Braziliense)

downloadCapote, cujo verdadeiro nome era Truman Streckfus Persons (ele adotou o nome do padrasto), começou a sua carreira em 1940 como colunista social numa revista nova-iorquina. Seu primeiro livro foi Breakfast at Tiffany’s (Bonequinha de Luxo no Brasil) publicado em 1958, que foi levado às telas em 1961, com Audrey Hepburn. Se fosse vivo, Truman Capote faria aniversário esse mês. Nasceu em Nova Orleães, nos Estados Unidos, a 30 de setembro de 1924. E morreu aos 60 em 1984 devido a problemas agravados pelo alcoolismo. Eu ainda não li a biografia do autor, no filme ele fala que a mãe se suicidou e que ele teve uma criação bem conturbada. Talvez por isso a grande identificação com Perry.

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Autor:

Estudante de Jornalismo na UFF, leitora voraz, que gosta muito de dividir com os amigos o que lê, o que gosta de ler e o que amou ler.

9 comentários em “{euLi} A sangue frio – Truman Capote #SETEMBROPOLICIAL

  1. Olá,
    Gostei muito, eu já havia ouvido falar deste livro mas nunca li nada a respeito dele.
    Parabéns pela super resenha, só me deu curiosidade para ler, já anotei aqui na minha lista de leitura, só vou demorar um pouco para ler XD
    Abraços
    pontoparaler.com.br

  2. Oi Thami,
    Já conhecia o livro, porém não imaginava que fosse tão bom rsrs – foi isso que percebi com a leitura da tua resenha. Gostei bastante, e vou anotar para ler assim que possível, mesmo sabendo que vai demorar um pouco…. E quanto ao #SETEMBROPOLICIAL, amei participar junto com você e todos os outros. Beijão

  3. Olá, já tinha ouvido falar dessa obra, mas nunca li nenhuma resenha…curti bastante a sua! Ainda mais porque eu adoro o gênero e sou bem suspeita para falar, kkkk

    Adorei a ideia de fazer um mês com leituras temáticas, quem sabe no ano que vem eu não participe também.

    Abraços

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