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{euLi} Mulheres de Cinzas – As areias do imperador Vol. 1 – Mia Couto

15151337_1254292054644779_1706587281_nSinopse: Primeiro livro da trilogia As areias do Imperador, Mulheres de cinzas é um romance histórico sobre a época em que o sul de Moçambique era governado por Ngungunyane, o último grande líder do Estado de Gaza. Em fins do século XIX, o sargento português Germano de Melo foi enviado ao vilarejo de Nkokolani para participar da batalha contra o imperador que ameaçava o domínio colonial. Lá, ele encontra Imani, uma garota local de quinze anos que lhe servirá de intérprete. Enquanto um dos irmãos da menina lutava pela coroa de Portugal, o outro se uniu aos guerreiros tribais. Aos poucos, Germano e Imani se envolvem, apesar de todas as diferenças entre seus mundos. Porém, num país assombrado pela guerra dos homens, a única saída para uma mulher é passar desapercebida, como se fosse feita de sombras ou de cinzas.

*Resenha no canal Eu li ou vou ler, se inscreva e acompanhe.

Diz a mãe: a vida faz-se como uma corda. É preciso trançá-la até não distinguirmos os fios dos dedos.

Que delícia é concluir um livro do Mia Couto e saber que já tenho uma continuação para ler e esse é um dos meus autores favoritos. O moçambicano que escreve de uma forma incrivelmente poética, e o livro é pulicado aqui exatamente como em Portugal. Uma leitura maravilhosa, quem não conhece precisa descobrir esse autor que fala da África de uma forma mágica. Seus romances nos fazem entender mais precisamente Moçambique, um país que também foi colonizado pelos portugueses e só ficou independente em 1975, podem ser feitos vários paralelos com o Brasil.

Essa trilogia vai contar a história do fim do Estado de Gaza, um império africano comandado por Ngungunyane que foi derrotado em 1895. Ele foi um grande símbolo da resistência contra os portugueses, mas como sempre tudo depende do ponto de vista e na guerra vemos vítimas de todos os lados. Mia Couto conta essa história, mas recriada ficcionalmente, ele ouviu muito entrevistados que contaram para ele histórias passadas oralmente sobre esse tempo.

A nossa terra porém era disputada por dois pretensos proprietários: os VaNguni e os portugueses. Era por isso que se odiavam tanto e estavam em guerra: por serem tão parecidos nas suas intenções.

Mas apesar do pano de fundo histórico, não espere desse livro uma recriação cronológica exata do que aconteceu que esse não é o objetivo do autor. A história mergulha no mundo de uma vila chamada Nkokolani, um local que teoricamente apoia os portugueses, mas que se vê arrasada no meio da disputa. O símbolo do lugar é Imani,  uma jovem que aprendeu português e os “modos” da sociedade, mas que carrega em si toda uma cultura que não consegue ser contida, também representa a posição da mulher na guerra e é uma das narradoras.

Não sei por que me demoro tanto nessas explicações. Porque não nasci para ser pessoa. Sou uma raça, sou uma tribo, um sexo, sou tudo que me impede de ser eu mesma. Sou negra, sou dos VonChopi, uma pequena tribo no litoral de Moçambique. A minha gente teve a ousadia de se opor à invasão dos VaNguni, esses guerreiros que vieram do sul e se instalaram como se fossem donos do universo. Diz-se em Nkokolani que o mundo é tão grande que nele não cabe dono nenhum.

O outro narrador é Germano que tem uma missão quase impossível, manter sozinho a resistência portuguesa no local. A verdade é que ele é mandado como punição para um lugar que não recebe quase apoio e aos poucos vai se misturando as pessoas mas continuando estrangeiro até de si mesmo (o personagem passa por uma grande descoberta pessoal). Acompanhamos Germano, como narrador, através das cartas que ele escreve para o Conselheiro José d’ Almeida e como não vemos as respostas de volta e nada é atendido como ele pede nas cartas é crescente a dúvida de se essas cartas realmente são enviadas ou se ele está escrevendo para si mesmo.Até porque as cartas vão ficando cada vez mais pessoais.

Na história acompanhamos o que acontece com Imani e sua família e como suas vidas são devastadas pela constante ameaça de invasão das tropas de Ngungunyane, o descaso de Portugal, o aculturamento, e a incapacidade de Germano de fazer algo de fato (além de sua aproximação com Imani). O sargento é um personagem que te surpreende, no começo a visão que tive dele foi de mais um opressor português, mas logo esse pré-julgamento cai por terra quando acompanhamos suas aflições e seu próprio abandono.

Ocorreu me pensar que o prisioneiro Vátua tinha razão: do ponto de vista dele e dos da sua nação, eles não estão a cometer nenhum crime. Pelo contrário, estão heroicamente a construir um império. Bem vistas as coisas, o que eles fazem não é muito diferente do que fazemos nós, com a devida distância e respeito.

Nada como o próprio autor falando de sua obra, eu li uma entrevista no site Revista Pazes e gostei muito de como ele explicou o livro:

É uma história sobre a vivência do tempo, o modo como diferentes gentes e culturas que partilharam um lugar se encontram e se desencontram no modo como narram e como lembram esse passado. Num primeiro instante, parece que a narrativa conta a história da derrocada de um império e de um imperador africano que dominou todo o Sul de Moçambique no século 19. Mas logo se percebe que não se trata de um romance histórico mas de um texto sobre a construção do medo e das falsas identidades que surjam como resposta de salvação perante esse medo. (Confira)

Tive a grande oportunidade de ouvir o autor falar um pouco sobre o livro e ler um trecho dele no lançamento aqui no Rio de Janeiro, ano passado, com a colaboração da atriz e escritora Fernanda Torres. Fiz alguns registros que estão no vídeo abaixo (relevem uns probleminhas técnicos):

Mia Couto pra mim é um poeta e me impacta ler o que ele escreve, o trecho que mais me vem a mente é o seguinte:

Sorte a dos que, deixando de ser humanos, se tornam feras. Infelizes os que matam a mando de outros e mais ainda os que matam sem ser a mando de ninguém. Desgraçados, enfim, os que, depois de matar, se olham no espelho e ainda acreditam serem pessoas.

Espero que gostem do livro, o segundo livro também já foi lançado e se chama Sombras da Água (desse ano, acredito que podemos esperar o terceiro para o ano que vem). beijos

Mais Mia Couto

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Autor:

Estudante de Jornalismo na UFF, leitora voraz, que gosta muito de dividir com os amigos o que lê, o que gosta de ler e o que amou ler.

4 comentários em “{euLi} Mulheres de Cinzas – As areias do imperador Vol. 1 – Mia Couto

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