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{ConhecendoClarice} Perto do Coração Selvagem – Clarice Lispector

perto_do_coracao_selvagem_1271115369bSinopse: A vida de Joana é contada desde a infância até a idade adulta através de uma fusão temporal entre o presente e o passado. A infância junto ao pai, a mudança para a casa da tia, a ida para o internato, a descoberta da puberdade, o professor ensinando-lhe a viver, o casamento com Otávio. Todos estes fatos passam pela narrativa, mas o que fica em primeiro plano é a geografia interior de Joana. Ela parece estar sempre em busca de uma revelação. Inquieta, analisa instante por instante, entrega-se àquilo que não compreende, sem receio de romper com tudo o que aprendeu e inaugurar-se numa nova vida. Ela se faz muitas perguntas, mas nunca encontra a resposta.

Um livro bem inquietante marca esse início do projeto Conhecendo Clarice, como o autor da biografia da autora que começamos a discutir aqui no blog disse de cara que esse livro tem muito a ver com a própria Clarice na infância, resolvi que seria a primeira obra que leria para o projeto. Não é meu primeiro contato com um romance “clariciano”, já li A hora da estrela e achei incrível, mas esse romance é diferente de tudo que já li. Os fatos narrados na sinopse já contam os pontos importantes que acontecem com Joana, a personagem principal, mas o livro é muito mais do que contar sua história.

Joana é uma personagem que faz autorreflexão o tempo inteiro, todos esses acontecimentos são repensados e mastigados por ela ao longo do livro. Não é um livro com começo, meio e fim, a narrativa vai e vem pela sua vida e desestabiliza o que pensamos sobre ela e nós mesmos. Ela não cansa de surpreender e derrubar as próprias ideias e conceitos. E nos provoca a pensar também.

Gosto. Mas eu nunca sei o que fazer das pessoas ou coisas de que eu gosto., elas chegam a me pesar, desde pequena.

 Joana se casa mesmo achando que o casamento é uma prisão, ama mesmo que isso pese no seu espírito livre, abre mão e quer solidão vivendo com outra pessoa. Busca entender o que quer e partir mesmo quando dói. Não está presa nem à bondade e nem às convenções sociais, mas nunca está completamente livre, porque isso seria possível?

Julgava mais ou menos isso: o casamento é o fim, depois de casar nada mais poderá me acontecer. Imagine: ter sempre uma pessoa ao lado, não conhecer a solidão. _ Meu Deus! _ não estar consigo mesma nunca, nunca, E ser uma mulher casada, uma pessoa com destino traçado. Daí em diante é só esperar a morte.

O casamento não é fácil para Joana e Otávio, a primeira fala quase outra língua, o outro tem uma amante que é o posto dela (vive a seus pés). Ao mesmo tempo que o marido se sente atraído pela pessoa diferente com quem se casou, não sabe como lidar. E Joana agradece por dentro os momentos que pode ficar sozinha em casa. A forma como lida com a amante surpreende e é um misto de cansaço e libertação.

É que tudo o que eu tenho não se pode dar. Nem tomar. Eu mesma posso morrer de sede diante de mim. A solidão está misturada à minha essência.

Semelhanças com Clarice

Como muitas das criaturas ficcionais de Clarice,  personagem principal, Joana, guarda notável semelhança com sua criadora: as mesmas circunstâncias familiares, a mesma personalidade obstinada, a mesma resistência às convenções. (…) E a mesma proximidade do coração selvagem, a mesma existência animal. (Clarice, – Benjamin Moser)

Para muitos a autora era como um animal selvagem e exótico, pouco presa a moral e mais ligada aos extintos, e isso se reflete em Joana. Outra semelhança é na forma de escrever: a personagem escreve alguns versos ainda criança, para o pai, que fogem do padrão, como Clarice que pequena dizia não saber fazer histórias “Era uma vez” como as outras crianças e por isso elas não eram escolhidas para suplementos infantis.

Crítica social

(…) oh, por que você fala em coisas difíceis, por que empurra coisas enormes num momentos simples, me poupe, me poupe (…)

Joana não é compreendida pelas pessoas quando reflete e divaga, ninguém quer embarcar no seu raciocíneo. Para mim aqui há uma crítica a sociedade que quer continuar na mesma, não pensar e nem evoluir, seguir remando da forma mais fácil, par que dificultar a vida pensando demais?

O que impressiona na escrita desse livro que é ousada e diferente até hoje foi ele ter sido lançado por Clarice com 23 anos apenas. Foi só o primeiro dos romances escritos por ela. Esse projeto de leitura promete!

Tá aí nossa primeira parada na obra de Clarice, sexta conversaremos mais sobre a sua vida. A próxima discussão sobre a biografia Clarice, de Benjamin Moser, vai ser do capítulo 11 ao 23. Se você não conferiu o vídeo sobre os dez primeiros capítulos veja o post anterior do projeto Conhecendo Clarice (clique aqui) e saiba sobre sua infância e a difícil vida de sua família de refugiados.

Boa semana!

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Perto do Coração Selvagem
Outros livros da Clarice

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{News} Eu li notícias literárias da semana

VERGONHA: Prefeitura manda tirar trechos de livros escolares com união entre gays
Decisão veio após reunião entre prefeito e vereadores de Ariquemes (RO). Escolas só poderão entregar livros após páginas serem revisadas. Fonte: G1. Continue lendo

Livros de Paulo Coelho são apreendidos na Líbia
Obras do autor foram consideradas ‘eróticas’ e ‘anti-Islã’. Fonte: O Globo. Continue lendo

Comemoração dos 50 anos de ‘Cem Anos de Solidão’ começa em Cartagena
Pessoas lerão, em ciclos de duas horas, trechos do romance sobre a família Buendía, que foi lançado em junho de 1967.  Fonte: Estadão. Continue lendo

Chico Buarque vence prêmio literário na França
Cantor e compositor foi premiado na categoria literatura latino-americana. Fonte: Estadão. Continue lendo

Maria Valéria Rezende ganha prêmio Casa de Las Américas
Seu romance ‘Outros Cantos’ venceu na categoria de literatura brasileira. Fonte: O Globo. Continue lendo

Ex-funcionários da Companhia das Letras abrirão nova editora
Nome ainda não foi divulgado, mas lançamentos começam no 2º semestre. Fonte: O Globo. Continue lendo

Star Wars: The Last Jedi é o título do Episódio VIII da saga
Filme estreia em 15 de dezembro. Fonte: Omelete. Continue lendo

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{euLi} Eternidade por um fio – Ken Follet

eternidade_por_um_fio_1400869871bSinopse: Durante toda a trilogia O Século, Ken Follett narrou a saga de cinco famílias americana, alemã, russa, inglesa e galesa. Agora seus personagens vivem uma das épocas mais tumultuadas da história, a enorme turbulência social, política e econômica entre as décadas de 1960 e 1980, com a luta pelos direitos civis, assassinatos, movimentos políticos de massa, a guerra do Vietnã, o Muro de Berlim, a Crise dos Mísseis de Cuba, impeachment presidencial, revolução… e rock and roll!

Veja o vídeo da resenha clicando aqui ou no final da página.

Semana passada acabei de ler esse livro com certa alegria por estar há um mês lendo (grandão), já estava na hora de ler outras coisas (focar nos projetos do ano), mas também com certa pena de não acompanhar mais personagens tão marcantes. Esse é o terceiro volume da trilogia O Século que conta a história do mundo e de algumas famílias desde a Primeira Guerra Mundial até a queda do Muro de Berlim com o fim da Guerra Fria. Eu falei dos dois primeiros aqui no blog: Queda de Gigantes e Inverno do Mundo, hoje vou falar de Eternidade por um fio que fecha a trilogia.

Os eventos do livro vão de 1961 até 1989 (com direito há um epílogo em 2008 super emocionante). Como nos dois primeiros livros, o leitor acompanha famílias em diferentes partes do mundo: União Soviética, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra… e também outros países por onde os personagens acabam circulando como Cuba, Polônia, Vietnam. E isso ajuda o leitor a ter vários pontos de vista desse período tão conturbado. No começo temos a grande ameaça de uma guerra nuclear, vemos o medo dessas famílias de que da noite para o dia seu país seja riscado do mapa, passando pela crise dos mísseis em Cuba e outros pontos da história da Guerra Fria.

Nos Estados Unidos o personagem que mais se destaca é George, que filho de uma mãe negra e um pai branco, encara vários preconceitos. Depois de se formar em Havard e atuar no movimento negro, vê uma portinha para participar do governo dos irmãos Kennedy e com ele acompanhamos todos os bastidores da política e das lutas pelos direitos civis. Nessa época no Sul dos EUA os negros ainda não conseguiam votar, e na luta surgem nomes como Martin Luther King (que também aparece no livro). George vai se ver fazendo a ponte entre a Casa Branca e King, graças ao contato com Verona (uma mulher forte que vira braço direito do pastor). Lá outra mulher negra que luta pelo seu lugar no governo é Maria que também uma história bem surpreendente.

Rebeca e sua família na Alemanha Oriental, no lado comunista que fecha cada vez mais o cerco sobre a liberdade individual trazem uma história muito emocinante. Depois de dela sofrer uma grande desilusão com seu casamento ela decide fugir par a Alemanha Ocidental e isso traz consequências. Seu irmão, Walli, depois decide traçar o mesmo caminho por querer ser livre e tocar suas músicas no Ocidente, deixando além dos pais outras pessoas importantes demais, o resultado disso é uma família separada pelo muro impossível de não querer acompanhar.

Não é só Walli que tem o rock nas veias, Dave filho dos Williams não se encaixa na escola e deixa o pai desesperado quando abandona os estudos para tocar também. É claro que uma ponte se cria entre os personagens e temos muito sexo, drogas e rock. A liberação sexual que começa nos anos sessenta também é discutida nesse núcleo e o risco do abuso de drogas, como isso pode afundar uma carreira de sucesso.

E na Rússia, Dimka e Tanya (sobrinhos de Volodoya) encaram as várias faces do comunismo. Os irmãos que são muito unidos trabalham em lados opostos no começo do livro, Dimka é assessor de Krushev e Tanya apesar de trabalhar para a revista oficial, na clandestinidade escreve contra o governo. Um tenta trazer reformas para o governo, apoiando medidas que melhorem a economia, a agricultura e diminua a repressão (o que vai ficando cada vez mais impossível), a outra já não acredita mais no comunismo. O comunismo é uma parte que me é sensível da discussão, já que não acredito que o capitalismo seja nenhuma maravilha, e com o livro é possível entender que o problema da URSS foi, principalmente, o desinteresse dos líderes em fazer qualquer coisa que diminua o a concentração do poder. E como Tanya diz no livro a supressão dos órgãos de imprensa e a repressão contra qualquer um que pense diferente.

O livro trata de um período muito grande da história (temos muitos outros personagens importantes também) e podemos observar várias mudanças na sociedade ocidental (de costumes, direitos dos negros e das mulheres por exemplo) e também na oriental que contribuiu para o fim da Cortina de Ferro. É uma história para quem gosta da história, de política e de entender o que aconteceu com o mundo e como isso reflete em quem somos hoje. Confesso que em alguns momentos dá um certo desânimo ao ver que muitas situações bárbaras acontecem até hoje: ninguém aprendeu nada ainda? Vivo numa certa descrença com a humanidade. Mas há também um pouco de esperança na voz de personagens que lutam contra as injustiças e nas mudanças que aconteceram para o bem que acabam te fazendo querer lutar também.

Dicas de filmes relacionados ao período:

Selma – Uma luta pela igualdade (2015)
Cinebiografia do pastor protestante e ativista social Martin Luther King, Jr (David Oyelowo), que acompanha as históricas marchas realizadas por ele e manifestantes pacifistas em 1965, entre a cidade de Selma, no interior do Alabama, até a capital do estado, Montgomery, em busca de direitos eleitorais iguais para a comunidade afro-americana.

E vem aí: Jacky (2017)

Jacqueline Kennedy (Natalie Portman), inesperadamente viúva, lida com o trauma nos quatro dias posteriores ao assassinato de seu marido, o então presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy.

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Eternidade por Um Fio – Terceiro Livro da Trilogia O Século

{news} Eu li notícias literárias da semana

Os clássicos da literatura universal que foram adaptados por Clarice Lispector
Obras, como o recém-lançado ‘Tom Jones’ de Henry Fielding, são voltadas para jovens. Fonte: O Globo. Continue lendo

Começou o projeto #ConhecendoClarice

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Gisele Mirabai é a vencedora da primeira edição de Prêmio literário da Amazon
‘Machamba’, romance vencedor do Prêmio Kindle de Literatura, foi recusado por grandes editoras e agora será lançado pela Nova Fronteira. Fonte: Estadão. Continue lendo
Conheça polêmica por trás do prêmio

Jovem monta biblioteca pública em praia de Vila Velha, ES
Suzana Braga vai à orla da Praia da Costa nas manhãs de terças e quintas. Ela disse que queria oferecer alternativas gratuitas de leitura às pessoas. Fonte: G1. Continue lendo

Morre o editor de quadrinhos Toninho Mendes, criador da revista ‘Chiclete com Banana’
Com a editora Circo Editorial, Toninho Mendes ajudou a impulsionar a carreira de nomes dos quadrinhos como Glauco, Angeli e Laerte. Fonte: Estadão. Continue lendo

Morre William Peter Blatty, autor de ‘O exorcista’, aos 89 anos
Notícia foi divulgada pelo diretor da famosa adaptação para o cinema. Fonte: O Globo. Continue lendo

Novos clubes surgem com promessa de livros de qualidade para crianças
Serviços de assinatura oferecem programas específicos para cada faixa etária. Fonte: O Globo. Continue lendo

Livro badalado da camaronesa Imbolo Mbue observa famílias durante crise financeira
Romance explora a vida de duas famílias, uma camaronesa e outra americana, durante a crise financeira de 2008. Fonte: Estadão. Continue lendo

Venda do livro ‘Dois irmãos’ dispara após anúncio da minissérie na TV
Obra que antes vendia 60 unidades por semana agora vende mais de mil. Fonte: O Globo. Continue lendo

Série de TV baseada em O Nevoeiro terá final diferente do livro e do filme
Segundo o TV GUde, a série terá um final inédito, similar ao criado por Frank Darabont no fime. Fonte: Cine Pop. Continue lendo

 

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{ConhecendoClarice} Clarice, – Benjamin Moser (Parte I)

Oi pessoal! Como anunciei aqui na semana passada hoje começa o projeto Conhecendo Clarice, nesse projeto vamos descobrir aos poucos vida e obra da autora. Com base na biografia Clarice, de Benjamin Moser às sextas, a cada duas semanas, falarei um pouco sobre sua vida. E nesse meio tempo vamos conversando sobre algumas obras.

Hoje falei no canal sobre o capítulo 1 ao 10 da biografia, confira:

Não estou no projeto sozinha, a Isa do Dicas da Isa também publicou no seu blog sua opinião sobre esses capítulos. E você está convidado a ler com a gente. Também estão nesse projeto a Jennifer Geraldine e a Val do Uma pedra no caminho que está lendo os contos dela. Vamos falar muito de Clarice!

Uma das melhores definições que achei até agora sobre Clarice, ela meio que tinha a necessidade de omitir certos fatos da sua vida, e inventar certas historias, como por exemplo, que idade veio para o Brasil, que idade tinha quem eram seus pais. Sim o autor começa a historia meio que de traz para frente, subverte o tempo, mescla elementos, faz ligações entrecortadas que eu carinhosamente chamei de ordem clariceana.

Pois depois de nos apresentar essas partes da Clarice ele nos remete a relatos da irmã mais velha Elisa que escreveu um livro sobre a família Lispector. E é ai que somos levados para a Ucrânia, levados para Guerra Mundial, Guerra Civil Russa, para a extrema miséria, para o sofrimento de muitas pessoas, especialmente os judeus.

Confira a resenha completa no Dicas da Isa.

A próxima parte da biografia (cap. 11 ao 23) fica para o dia 3 de fevereiro!

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Espero que gostem e participem do projeto! Beijos