Publicado em Eu li, Outros

{euLi} A máquina de fazer espanhóis – Valter Hugo Mãe

download-1Sinopse: É uma obra de maturidade a que agora chegará às mãos dos leitores, conseguida pela grande capacidade de criar personagens que este autor sempre revelou, aqui enredadas nas questões da velhice, da sua ternura e tragédia, resultando num trabalho feito da difícil condição humana mesclada com o humor que, ainda assim, nos assiste. A máquina de fazer espanhóis é uma imagem livre do que somos hoje, consequência de tanto passado e dúvidas em relação ao futuro. É um livro de reflexão sobre a fidelidade na amizade ou no amor. No país dos silvas poucos serão os que escapam a pensamentos paradoxais de profundo amor pela nação misturados com uma ancestral dúvida sobre se não estaríamos melhor como cidadãos do país vizinho.
Entre o dramático da vida, com a idade a descontar o tempo, e o hilariante da casmurrice e senilidade, este romance é um retrato dos homens que perduram depois da violência mais fracturante. É um retrato delicado e sensível da terceira idade, com o que acarreta de ideias confusas sobre o passado e sobre o presente.

Resenha em vídeo do canal Eu li ou vou ler no final da página ou clicando aqui.

Gente, quarto livro que leio do Valter Hugo Mãe <3, sigo encantada com o autor. Foi minha última leitura do ano, e a fiz com o grupo de leitura #Nome Provisório (esse mês leremos Admirável Mundo Novo, se quiser participar clica aqui).

Esse livro é capaz de levar uma pessoa das lágrimas às risada, tem um ritmo bem diferente de leitura e é de uma profundidade tamanha. O autor olha para os dramas humanos e os assume de uma forma brilhante, ser humano é isso aí, envelhecer é isso aí. Nosso personagem principal tem 85 anos, e logo no começo da história perde sua esposa (logo no começo do livro). O que dizer para um apaixonado ainda nessa idade para fazer com que ele continue achando sentido na vida depois disso?

(…) tudo que respeita a quem morreu deveria ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano, esse é o limite, a desumanidade de se perder que não pode se perder, foi como se me dissessem, senhor silva, vamos levar-lhe os braços, e as pernas, vamos levar-lhe os olhos e perderá a voz, talvez lhe deixemos os pulmões, mas teremos de levar o coração, e lamentamos muito, mas não lhe será permitida qualquer felicidade de agora em diante (…)

Além da questão toda da perda, Silva é levado para um asilo e é no “Feliz Idade” que a história se desenrolada. Ele fica bem revoltado com a família que o colocou lá, bem depressa, também fiquei, a ponto de ficar dias sem falar nada com ninguém e se recusar a receber sua filha e seus netos. Nisso só temos o ponto de vista dele e não dá filha, então não sabemos se ela tinha algum outro motivo, mas ele se sente injustiçado já que não tinha nenhum problema que justificasse a atitude dela.

Com algum tempo Silva acaba rompendo o silêncio, o pessoal no asilo é bacana, e fazendo amizade com outros senhores. Aqui há partes muito interessantes: como os idosos se sentem, o que pensam da vida, várias reflexões sobre as famílias e a perda das capacidades. E também partes muito engraçadas que ri de rolar, com Silva e seus amigos aprontando todas e tentando se divertir com pequenas coisas. E os temores e viagens de que já nem sempre enxerga as coisas com clareza e até embarca em ideias fantasiosas em seus mundos imaginários. (Não que isso só aconteça nessa idade).

(…) gosto desta maldade, não podemos ficar velhos e vulneráveis a todas as coisas, temos de nos rebelar aqui e acolá, caramba, temos de estar a postos para alguma retaliação, algum combate, não vá o mundo pensar que não precisa tomar cuidado com as nossas dores (…)

Outra questão percebida no mundo desses velhinhos é um pouco da história de Portugal, onde a trama se passa, com tempo de sobra eles vão discutir várias questões políticas de seu tempo. Um dos personagens, também Silva, está sempre questionando a posição política dos outros e falando com ardor do que acha. Na década de 30, quando esses personagens eram jovens, Portugal viveu a ditadura de Salazar, um regime fascista, que como todo perseguia politicamente quem era contra. Vigorou em Portugal durante 41 anos sem interrupção, desde a aprovação da Constituição de 1933 até ao seu derrube pela Revolução de 25 de Abril de 1974. O governo de Salazar durou até o ano de 1968. Com problemas de saúde, passou o poder para outro ditador, Marcelo Caetano, que deu continuidade a ditadura salazarista. Então há reflexões sobre essa época e sobre qual era o posicionamento político dessas pessoas. O Silva principal vai aos poucos trazendo atona memórias do que ele fez e do que passou, e de como muitas pessoas não fez nada contra o regime por achar melhor viver e proteger a família, e deixar a busca pela liberdade para outros corajosos.

(…)porque o que o estado novo menos queria de nós era resistência, a manifestação de uma ideia diferente como sinal de esforço para saírmos do meio da carneirada. e eu começara há um bom tempo a comentar com a laura que nos punham a boca fechada porque o ditador achava que sabia tudo por nós (…).

Vale ressaltar também a forma diferente de narrativa trazida por Valter, nós temos um narrador que é o personagem principal, mas seu discurso se mistura a tudo o que ele ouve. Quase não há pontos finais e tudo é escrito com letra minúscula o que causa um estranhamento na primeira página. Tudo é separado por vírgulas apenas e muitas vezes sem identificar muito enunciador, então no começo o livro requer mais atenção para que se entenda quem está falando o que. Nada impossível, mas requer atenção, depois você já até se acostuma com o jeito de falar de cada personagem. Isso deixa a narrativa bem interessante e cheia de possibilidades que o autor sabe explorar perfeitamente. Além da escrita poética que encontramos nos outros livros do Valter.

O poema Tabacaria de Fernando Pessoa(com o Heterónimo Álvares de Campos) serviu de base para que Valter recriasse o personagem Esteves em seu livro. Ele é apresentado a Silva como o Esteves, já com cem anos, que conheceu pessoalmente Fernando Pessoa e inspirou o poema. Isso causa vários debates entre os velhinhos se é verdade ou mentira. O poema é bem longo, deixo aqui o trecho em que Esteves aparece.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu.

pp

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Autor:

Estudante de Jornalismo na UFF, leitora voraz, que gosta muito de dividir com os amigos o que lê, o que gosta de ler e o que amou ler.

12 comentários em “{euLi} A máquina de fazer espanhóis – Valter Hugo Mãe

  1. Olá.
    Eu adorei a resenha. Eu realmente nunca tinha ouvido falar de um livro com toda essa temátia e com certeza esse livro agora entrou para minha lista de desejados. Eu gostei muito de como o livro traz o ponto de vista de uma pessoa de 85 anos em um asilo, um coisa que não vejo desde ‘Água para Elefantes’. Espero gostar do livro assim como você.
    Bjsssssss

  2. Oi Thami,
    obrigada pela indicação desse livro no grupo de leitura, foi realmente uma dica incrível! O início requer um pouco mais de atenção, mais depois que acostumamos, tudo flui naturalmente. Amei tua resenha!
    bjs

  3. Oie, Thamiris!
    Como comentei no seu vídeo, estou encantada com as opiniões sobre as obras desse autor, que parecem sempre ser muito positivas! Quero muito conhecer ele agora e anotei as dicas dos livros que vc já leu dele pra procurar por aqui.
    Confesso que essa narrativa com certeza vai me incomodar, hahaha. Sou desses que gosta de tudo certinho, sabe? Espero não desistir por causa disso! :X
    Sua resenha escrita ficou show, assim como o vídeo.
    Bjocas,

    http://www.umdiamelivro.com.br
    http://www.youtube.com/literamigas4

  4. Olá Thami!
    Não tenho nem o que dizer sobre esse livro, foi tão bom poder lê-lo. É claro que super estranhei a forma como o Valter Hugo contou essa história e já no início eu me sentia muito confusa, pois não entendia nada, nada. Mas depois a coisa fluiu e me encantei com essa história e com esses velhinhos. Um livro muito poético e enriquecedor, gostei demais.
    Sua resenha está incrível, como sempre.

    Cris
    Plataforma 9 3/4

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