Publicado em Eu li, Projetos de Leitura

{ConhecendoClarice} O Lustre #maratonaclarice

lustreSinopse: Em O lustre, trafega-se, a maior parte do tempo, pelo mundo interior da protagonista, Virgínia, desde sua infância em um remoto vilarejo do interior até a vida adulta numa cidade grande e solitária. Clarice não permite ao leitor ter completo acesso ao que se passa do lado de fora — a não ser na crua e, talvez, surpreendente cena final. No universo subjetivo da escritora, a única clareza está nos sentimentos. Virgínia ama seu irmão, Daniel, sua alma gêmea, seu senhor. Virgínia ama seu amante, Vicente, a quem conhece tão pouco… A história é contada como num jogo de luzes e sombras, cada parágrafo permitindo apenas antever, de relance, a força sufocante de tanto amor.

Essa maratona começou complicada, pelo que li na biografia já imaginava que esse seria um livro difícil e não necessariamente uma leitura agradável. Mas não fazia ideia de que a leitura seria tão arrastada, para mim a leitura não fluiu, desculpa Clarice. É claro que há algumas passagens interessantes e momentos que me despertaram, mas no geral não consegui me fixar na trajetória de Virgínia e a maior parte do tempo à achei muito chata. Foi um livro que segundo a biografia Clarice, a autora teve muita dificuldade de escrever, terminar e publicar. Ele é cheio de monólogos interiores da Virgínea consigo mesma, então como não consegui me identificar só terminei mesmo por terminar, tenho grande dificuldade de abandonar um livro (ainda mais curto).

Nesse livro algumas questões de Perto do coração selvagem (confira o post) são retomadas, mas dessa vez em vez de uma personagem que vive assumindo seu lado selvagem e agindo temos uma personagem que não faz muita coisa além de ficar pensando nos seus medos e tentando se entender.

Na história acompanhamos a protagonista da infância na fazenda a vida adulta, temos um salto de uma coisa para a outra. Quando ela era criança sua companhia era seu irmão Daniel, na casa também vive a irmã Esmeralda e os pais que vivem em seus mundos fazendo parte do das crianças na hora das refeições. Virgínia via Daniel como um Senhor e o obedecia nas traquinagens e malvadezas, eles chegam a criar uma Sociedade das Sombras. Ela se recorda como os momentos mais felizes da vida, as pequenas tarefas a davam uma sensação de arrependimento e libertação.

Não a amava sequer mas ela era doce e tola, fácil de se conduzir a qualquer ideia. E mesmo nas épocas em que ele se fechava severo bruto lhe dando ordens, ela obedecia porque sentia-o perto de si, ocupando-se dela – ele era  a criatura mais perfeita que ela conhecia.

Achei que isso ia seguir pela vida adulta, mas quando os dois vão para a cidade Daniel acaba se casando e voltando para o campo enquanto ela fica na cidade completamente perdida. Achei que faltou uma ocupação para ela, a impressão que tive e de que da ociosidade dela via uma total falta de sentido no mundo.

Até mesmo no amor, Virginia é comedida e não sabe expressar o que sente para os outros ou faz o contrário do que queria. Somente no momento que resolve deixar para trás que toma decisões com certeza, mas é claro para se arrepender depois.

(…) eu o amo como amo ao que faz bem, ao que dá bem-estar mas não ao que está fora do corpo e que jamais o apaziguará e que se quer alcançar mesmo com a desilusão; meu coração não se inflama nesse amor, minha ternura mais íntima não se usa; seu amor era quase uma dedicação conjugal.

No livro temos Vicente, que também não é nenhum super apaixonado ou não quer ser. Ele também tem suas dúvidas quanto a Virginia já que em muitos momentos tem vergonha dela, já que se relaciona com pessoas de “classe” e ela nunca fica a vontade com muitas pessoas ao redor.

O lustre se presta menos ainda que a maioria dos livros de Clarice a uma descrição de seu enredo ou de seus personagens. Os nomes são genéricos e vagos: a protagonista, Virgínia, cresce num lugar rural chamado Granja Quieta, perto da cidadezinha de Brejo alto, de onde ela por fim se muda para “a cidade”. Os personagens quase não se apresentam características exteriores. Ninguém tem sobrenome e só uns poucos tem profissão, família ou lar. O drama da vida de Virgínia, que é a história do livro, é quase inteiramente interior, embora volta e meia seja abalado pelo exterior; esses abalos são os fragmentos de diálogos, as pessoas e eventos externos que perturbam sua existência espectral. Como em tantos livros de Clarice, a verdadeira tensão vem da tentativa do indivíduo de salvaguardar seu mundo interior dos ataques de fora. (Benjamin Moser em Clarice, pg 262 no pocket)

Se você está como eu lendo a biografia primeiro e a obra depois, cuidado que há um big spoiler de O lustre na mesma página que tirei a citação a cima. Para mim não fez tanta diferença, mas para alguns pode fazer.

A forma de escrever de Clarice é muito interessante, gostei de como ela consegue descrever como as crianças veem e sentem o mundo. Em um momento, por exemplo, Virginia diz que a colcha tem cheiro de cinza. Ela escrevia muito bem, e os incômodos da alma são relevantes, mas o enredo é chato e mesmo não sendo o mais importante atrapalhou minha leitura.

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Autor:

Estudante de Jornalismo na UFF, leitora voraz, que gosta muito de dividir com os amigos o que lê, o que gosta de ler e o que amou ler.

8 comentários em “{ConhecendoClarice} O Lustre #maratonaclarice

  1. Oiii Thamiris, tudo bem?
    Fiquei apaixonada pela sua resenha, ainda mais sendo livro da Clarice, com toda certeza pretendo ler um dia desses, estou adorando esse projeto de conhecer a clarice.
    Beijinhos da Morgs!

  2. Oie!
    Acho lindas essas capas da Rocco dos livros da Clarice, mas confesso que nunca tive interesse em lê-los.
    Adorei sua resenha. Amo opiniões verdadeiras sobre livros, especialmente quando as pessoas endeusam demais a obra sem falar a real sensação que tiveram na leitura.
    Com certeza sentiria a mesma coisa que vc, embora a sinopse e as quotes que vc escolheu para o post tenham me deixado curiosa, rs.
    Quem sabe em um período mais tranquilo eu leia pra tirar minhas próprias conclusões…?
    Bjocas,

    http://www.umdiamelivro.com.br
    http://www.youtube.com/literamigas4

    1. Pois é, pode até ser que eu ainda seja rasa para julgar Clarice haha E que uma leitura mais para frente mude, mas preciso falar da minha opinião momentânea, não tem jeito. Estou amando outras leituras dela, o talento é indiscutível, mas hoje essa não rolou. Quem sabe alguém também me faça ver o que não vi. Depois dá uma lida nas outras resenhas, que tem coisa que gostei tbm. Obrigada, beijos

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