Publicado em Eu li, Projetos de Leitura

{ConhecendoClarice} A Bela e a Fera #Maratona Clarice

a-bela-e-a-feraSinopse: Este livro póstumo de contos, A bela e a fera, apresenta ao leitor duas Clarices: a primeira, uma jovem aflita, com imaginação de extrema vitalidade, que, aos 14 anos, começa a inventar histórias e a escrever contos insólitos que têm como marca a expressão de intensos impulsos emocionais. Clarice Lispector perdera pouco antes sua mãe, que já conhecera paralítica. A menina de 1940 carregava uma dor dupla: a perda da mãe, com quem mal pudera se relacionar, e o martírio de não tê-la salvo da enfermidade ao nascer, conforme a previsão dos médicos. Foi neste contexto que, a partir de 1940, surgiram os contos da primeira parte do livro: “História interrompida”, “Gertrudes pede um conselho”, “Obsessão”, “O delírio”, “A fuga” e “Mais dois bêbados”. A amiga, colaboradora e companheira dos últimos anos de vida, Olga Borelli, explica que estes contos da adolescência não foram publicados antes porque, na verdade, Clarice não sabia o que era exatamente um conto, mas tinha intuição do que era um anticonto: “Talvez ela entendesse mais de anticonto, porque se considerava antiescritora”, diz Olga na apresentação do livro. A esta característica, Clarice atribuía a não publicação de seus trabalhos de pré-adolescente, enviados para a seção de contos infantis de O Diário de Pernambuco. O jornal só publicava histórias que, segundo Clarice, começavam com “Era uma vez, e isso, e mais isso, e depois aquilo…” Olga Borelli lembra que Clarice costumava dizer que só escrevia quando “a coisa vem” . E foi assim que vieram os dois contos escritos em seus últimos meses de vida, em 1977 : “Um dia a menos” e “A bela e a fera”. * Essa sinopse tinha alguns spoilers e era muito longa então cortei.

Coloquei esse livro na lista porque como explica a sinopse tinha alguns dos primeiros contos da Clarice, e eles são comentados na biografia do Benjamin Moser. Ele fala muito de Obsessão por ter o tema bem próximo de Perto do coração selvagem e O lustre, primeiro e segundo romance respectivamente (tem até um personagem com o mesmo nome). Também chega a comentar A fuga, esses contos de donas de casa que querem fugir e ser quem realmente são, ou são tocadas por algo ou alguém que a tiram da monotonia tem tudo a ver com a própria Clarice.

Há doze anos era casada e três horas de liberdade restituíam-na quase inteira a si mesma: – primeira coisa a fazer era ver se as coisas ainda existiam.

Não que ela não amasse o marido e os filhos, mas ser esposa de diplomata em outro país a deixava deprimida e ela sempre foi cética com o casamento ser sinônimo de felicidade.

Às vezes, melancolia sem causa escurecia-me o rosto, uma saudade morna e incompreensível de épocas nunca vividas me habitava. Nada romântica, afastava-as logo como a um sentimento inútil que não se liga às coisas realmente importantes. Quais? Não as definiria bem e englobava-as na expressão “coisas da vida”. Jaime. Eu. Casa. Mamãe. (Obsessão)

Estou entalada com o conto A bela e a fera ou A ferida grande demais, com certeza o meu conto favorito dela até agora. Ele traz o encontro entre uma dondoca e um mendigo com uma ferida enorme que a faz questionar todo o seu modo de vida num misto de emoções: revejo meus conceitos mas ao mesmo tempo queria sumir com os mendigos para nunca mais me sentir assim. Ela passa por um turbilhão de emoções que nós mesmo passamos quando nos confrontamos com realidades diferentes. Não precisa ser rico para rever seus conceitos quando vemos uma realidade mais triste e pobre que a nossa. Também sempre me faz pensar que se as pessoas ricas se coçassem poderiam fazer grandes bens para a humanidade. Sem falar na baita injustiça social em que vivemos. Não temo como não refletir muito com esse conto. Em Um dia a menos também há uma crítica a quem tem a vida confortável mas vazia de fazer algo importante.

Espantada pelos enormes gritos do homem, começou a suar frio. Tomava plena consciência de que até agora fingira que não havia os que passavam fome, não falam nenhuma língua e que havia multidões anônimas mendigando para sobreviver. Ela soubera sim, mas desviara a cabeça e tampara os olhos. Todos, mas todos – sabem e fingem que não sabem. E mesmo que não fingissem iam ter um mal-estar. Como não teriam? Não nem isso teriam. (A bela e a fera ou A ferida grande demais)

Gostei muito também de História interrompida,  além de ser um conto engraçado que mostra o furor de uma apaixonada imaginando o que vai dizer para o amado, como conquista-lo, mostra como a vida e os planos podem ser breves e rompidos bruscamente. Tema que também aparece em Mais dois bêbados, só que de forma diferente, nesse temos um discurso contra a brevidade da vida se comparada à lua, por exemplo.

Dói-me aqui, no centro do coração, ter que morrer um dia e, milhares de séculos depois, indiferenciado húmus, sem olhos para o resto da eternidade, eu, EU, sem olhos para o resto da eternidade…e a lua indiferente e triunfante, mãos pálidas estendidas sobre novos homens, novas coisas, outros seres.

Clarice teve grande dificuldade de enfrentar a perda dos pais, aquilo de não poder evitar o inevitável e até se culpar um pouco onde não cabe culpa. Já eu não sei se gostaria de viver para a eternidade do jeito que o mundo anda.

Outro conto muito bom desse livro e um pouco confuso à primeira vista se chama Delírio, nele nos sentimos realmente no meio de um. Na cabeça de um autor que se perde entre o real e o imaginário, e trazendo a reflexão se ser autor também não é um pouco isso. A Val do Uma pedra no caminho está resenhando todos os contos e falou desse, recomendo que leiam a resenha (aqui).

Maratona Clarice: Hoje seria o último dia da maratona que criei, mas percebi que disponibilizei um tempo muito curto, para mim mesma, para ler alguns romances tão complexos. Para realmente compreender O lustre levei mais tempo do que esperava e o mesmo está acontecendo com A cidade sitiada. Às vezes é preciso reler algumas páginas e até mesmo voltar atrás antes de prosseguir. Então vou estender a maratona até acabar os dois que me faltam: A cidade sitiada (que está na metade) e A maçã no escuro.

Conhecendo Clarice: Essa maratona faz parte de um projeto maior para conhecer a vida e obra da autora Clarice Lispector. Estou lendo as obras e a biografia Clarice, de Benjamin Moser (amando).

Posts relacionados: Perto do Coração Selvagem, O lustre, Clarice, Maratona Clarice, Laços de família.

Comprando os livros da Clarice clicando nos link abaixo você ajuda o blog:

Todos os contos
A Bela e a Fera
O lustre
A Cidade Sitiada
Laços de família
A Maçã no Escuro
Outros livros: Clarice Lispector

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Autor:

Estudante de Jornalismo na UFF, leitora voraz, que gosta muito de dividir com os amigos o que lê, o que gosta de ler e o que amou ler.

11 comentários em “{ConhecendoClarice} A Bela e a Fera #Maratona Clarice

  1. Oi, Thamiris! Você conseguiu sintetizar super bem o livro, adorei! Obrigada por ter citado meu post também 😉 Tenho a impressão que quanto mais conhecemos Clarice, maior é o encantamento. Bjs!

  2. Oi Thamiris
    Quando eu vi que a resenha era sobre a Clarice já fiquei empolgada!!!
    Não li tantos contos dela, mas todos que li foram especiais, inclusive já encenei “A Bela e a Fera” em um sarau do qual meu grupo de teatro participou.
    Adorei seus comentários, que só me instigaram a ler Clarice cada vez mais…
    Bjokas

  3. Olá.
    Eu adoro a Clarice, quando era pequena eu lia muitos contos dela e hoje já não leio tanto, mas gostaria de reler e ver as coisas que não percebi quando era pequena.
    Eu adorei a sua resenha.
    Bjssss

  4. Este livro é maravilhoso, mas não tão conhecido como outros da obra da autora. Ao menos tenho essa impressão. Utilizei ele em um trabalho acadêmico, mas especificamente o conto ‘História Interrompida’ onde fui marcado pelo excerto “Cada pessoa é um mundo[…]”. Parabéns pelo projeto sobre essa maravilhosa autora. Abraços

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