Publicado em Eu li, Projetos de Leitura

{ConhecendoClarice} A cidade sitiada

a-cidade-sitiada-2010Sinopse: Lucrécia Neves vive num subúrbio em crescimento, São Geraldo, na década de 1920. O desejo de ser rica e de sair dos limites da cidade a fazem apostar no casamento com Mateus, que a leva para morar na cidade grande. No entanto, a nostalgia do subúrbio a invade de tal forma que ela retorna a São Geraldo, agora tão diferente daquela em que vivera. Viúva, ela se vê diante da possibilidade de iniciar uma relação amorosa mais verdadeira com o doutor Lucas, fato que não se concretiza. A carta da mãe chamando-a para mudar-se para a fazenda dá-lhe uma nova chance de jogar-se numa aventura amorosa e na busca de si mesma.

Confira o segundo vídeo sobre a biografia: Clarice, de Benjamim Moser.

Sabe aqueles livros que você termina sem ter certeza se gostou ou não, ainda estou nessa reflexão com esse. Não achei fácil de ler o começo, várias vezes precisei voltar e reler e toda vez que interrompia a leitura por um tempo precisava voltar algumas páginas para reler. Mas gostei do esforço.

Lucrécia é muito envolvida com o meio em que vive, o meio molda suas ações até que ela resolve mudar e rompe com aquele lugar e estilo de vida. A cada mudança uma nova Lucrécia em comportamento, sua satisfação ou insatisfação com o lugar que está varia muito também.

Se ao menos a moça estivesse fora de seus muros. Que minucioso trabalho de paciência o de cercá-la. De gastar a vida tentando geometricamente assediá-la com cálculos e engenho para um dia, mesmo decrépita, encontrar a brecha. Mas não havia como sitiá-la. Lucrécia Neves estava dentro da cidade.

Algo muito enfatizado é que Lucrécia é o que vê, dá a impressão de que ela não pensa e não interpreta o que vê, como se tomasse tudo literalmente e em alguns momentos isso é uma escolha. Dessa vez não temos fluxo de consciência como nos outros romances, é tudo narrado em terceira pessoa então passa a impressão de que não sabemos realmente o que ela está pensando. Mas a narrativa continua cheia de analogias, metáforas e poesia.

A moça não tinha imaginação mas uma atenta realidade das coisas que a tornava quase sonâmbula; ela precisava de coisas para que estas existissem.

No começo do livro ela quer progredir, sair do subúrbio ou ser alguém nele pelo menos, e acaba se casando por interesse, depois de cortejar algumas opções de relação amorosa. A relação com Mateus vence o deslumbramento e cai na decepção, incluindo a decepção com a cidade para onde ele a leva (grande, barulhenta, estranha e onde ela continua sendo mais uma na multidão). O mais próximo do amor que Lucrécia chega é com o doutor Lucas, mas ele não corresponde sua afeição e os dois tem uma estranha relação (onde você fica na dúvida em que parte ela está sonhando e o que está realmente acontecendo).

Mas não era nenhuma ingênua sacrificada. Lucrécia Neves desejava ser rica, possuir coisas e subir de ambiente.]

Com Lucas li um perdão bem bonito:

Não sei qual é a minha culpa mas peço perdão. _ A luz do farol revelou-os tão rapidamente que não se puderam ver. _Peço perdão por não ser uma “estrela” ou “o mar” – disse irônico – ou por não ser alguma coisa que se dá, disse corando. Peço perdão por não saber me dar nem a mim mesmo – até agora só me pediram bondade – mas nunca que eu… – para me dar desse modo eu perderia minha vida se fosse preciso – mas peço de novo perdão Lucrécia: não sei perder minha vida.

Como diz a sinopse que conta a história toda, brincadeira, não conta porque nos livros da Clarice o que menos importa são esses fatos (pelo menos nos romances que li até agora). Minha experiência de leitura fica esperando durante o livro que algo grande aconteça, e  no livro isso é muito diluído, talvez por isso não sei dizer se gostei ou não. Depois das desilusões e de perder de vez o marido, para alegria e tristeza, ela é convidada a morar na fazenda da sua irmã pela mãe que já morava lá. Fiquei curiosa de como seria de novo Lucrécia morando com a mãe, no livro não passa a relação delas como sendo sadia, o tempo toda uma disputa por espaço e fuga de Lucrécia para não ser sufocada pela mãe quando moravam juntas.

Para mim o livro faz críticas aos casamentos levianos ou por interesse, Clarice não está totalmente descrente ao amor nesse livro mas aos sonhos embutidos pela sociedade. Ela cria um personagem totalmente diferente de si, uma mulher que não pensa, Benjamim Moser vai dizer que Lucrécia é um alter ego dela.

O nome Lucrécia esconde o nome da própria Clarice, e diferentemente de tantas personagens de Clarice, que são extensões ou enunciações dela mesma, Lucrécia é um verdadeiro alter ego, uma pessoa que pensa o mínimo possível e analisa menos ainda. Ao contrário da essencial e dolorosamente viva Clarice, Lucrécia atinge o ápice em matéria de mudez e ausência de reflexão. (Clarice, – Benjamim Moser – pg 304)

E relacionando com a vida da própria Clarice, como ele vai fazendo ao longo da biografia, mostrando como a dificuldade entre por na balança seu próprio casamento e a vontade de ser livre para voltar ao Brasil, ele diz que ela gostaria de ser como Lucrécia.

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Clarice, – Benjamin Moser (pocket)

Posts relacionados: Perto do Coração Selvagem, O lustre, Clarice, Maratona Clarice, Laços de família.

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Todos os contos
A Bela e a Fera
O lustre
A Cidade Sitiada
Laços de família
A Maçã no Escuro
Outros livros: Clarice Lispector

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Autor:

Estudante de Jornalismo na UFF, leitora voraz, que gosta muito de dividir com os amigos o que lê, o que gosta de ler e o que amou ler.

5 comentários em “{ConhecendoClarice} A cidade sitiada

  1. Oie!
    Pelo visto vc está tendo uma relação mediana com a Clarice, não é mesmo?
    Confesso que, até agora, nenhuma sinopse ou resenha dos livros dela me chamaram a atenção, embora eu morre de vontade de conhecer, hahaha.
    Mas eles parecem meio monótonos… Não sei…
    Acho que ficaria no meio termo entre gostar e não gostar, como vc.
    Bjocas!

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