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Para educar crianças feministas – Chimamanda Ngozi Adichie

14324_ggNo dia da mulher o presente necessário é igualdade e respeito, e um excelente passo para chegarmos a isso é ensinar o feminismo para as crianças. Feminismo? Isso mesmo, FEMINISMO é importante, não é nenhum palavrão, feminismo é uma luta para que as mulheres sejam iguais aos homens: tenham os mesmos direitos.

Ser feminista para mim é entender que cada mulher é de um jeito e tem o direito de fazer suas próprias escolhas. E que elas não dizem respeito a ninguém,  a mulher tem que ser respeitada independente de suas ideias sobre família, como ela se veste ou no que trabalha (Chimamanda – Sejamos todos feministas).

Não é nem um bicho de sete cabeças não é mesmo? Ninguém precisa torcer o nariz para a palavra, ou dizer disparates como “as mulheres querem ser melhores do que os homens”, “feministas não gostam de homens”. Nunca foi esse o ponto, e negar a necessidade do feminismo é negar um problema de gênero, fingir que as mulheres não foram excluídas ao longo dos séculos. Se você tem alguma dúvida sobre o assunto, leia o post sobre outro livrinho importante da Chimmanda “Sejamos todos feministas” que traz para o papel um dos seus impactantes discursos.

E que bem melhor para as mulheres e para o mundo do que educar crianças feministas? Dar umas dicas de como isso é possível é a ideia do novo livro da Chimamanda Ngozi Adichie: Para educar crianças feministas: O Manifesto. Não é um livro para crianças lerem, são conselhos para os pais e qualquer pessoa que conviva com criança. Não é exagero falar disso com crianças, tentar explicar pra elas que a forma como a sociedade vê o mundo pode estar errada, e que ela vai ver muitas situações machistas e que pode sim não se acostumar com isso. Criança aprende rápido, e qualquer passo para criar seres humanos melhores é excelente.

A autora começa esclarecendo que o livro na verdade é a versão de uma carta que ela fez para uma amiga que a perguntou como criar sua filha como feminista, há alguns anos, e que hoje ela também é mãe e quer tentar essas mesmas “dicas”. Como a amiga no caso é mãe de uma menina, a maioria dos conselhos vão ser mais voltados para tal, mas você que é pai ou mãe de um garoto e quer entender, vai saber pescar lições preciosas também. Dá vontade de fazer todo mundo ler de qualquer forma, ler esse livro é só sair ganhando. A amiga e a autora são nigerianas e você percebe ao longo do textos alguns pequenos detalhes relacionados a cultura que diferem um pouco de nós, houve alguns momentos “ainda bem que aqui não é tão assim”, mas na maior parte do tempo o texto é universal.

Chimamanda começa explicando duas ferramentas básicas que ela usa. “A primeira é a nossa premissa, a convicção firme e inabalável da qual partimos. Que premissa é essa? Nossa premissa feminista é: eu tenho valor. Eu tenho igualmente valor. Não “se”. Não”enquanto”.  E ponto final. Eu tenho igualmente valor.” A segunda  ferramenta é colocar a pergunta “a gente pode inverter X e ter os mesmos resultados?” Nisso ela explica com vários exemplos se a condição analisada, seria da mesma forma para homens e mulheres.

Para a autora é importante estabelecer a igualdade de gêneros em casa, pais e mães dividindo a responsabilidade sobre a casa, o casamento e a criança. Não é papel da mulher, educar mais, cuidar mais, criar mais, cozinhar mais, passar e lavar mais. Não se deve fazer isso por imposição social e sim acordar o que é melhor para cada família.

Nossa cultura enaltece a ideia das mulheres capazes de dar conta de tudo, mas não questiona a premissa desse enaltecimento. Não tenho o menor interesse no debate sobre as mulheres “dão conta de tudo”, porque o pressuposto desse debate é que o trabalho de cudiar da casa e dos filhos é uma seara particularmente feminina, ideia que repudio vivamente. O trabalho de cuidar da casa e dos filhos não deveria ser de gênero, e o que devemos perguntar não é se uma mulher consegue dar conta de tudo e sim qual é a melhor maneira de apoiar o casal em suas duplas obrigações no emprego e no lar.

(…)Dividam igualmente a criação. Igualmente depende, claro, de ambos, e vocês vão dar um jeito nisso, prestando atenção às necessidades de cada um. Não precisa ser uma divisão literalmente meio a meio, ou um dia você, um dia ele, mas você vai saber que estão dividindo igualmente. Vai saber porque não vai se sentir ressentida.

Outro passo importante é ensinar que papeis de gênero são absurdos. “Nunca lhe dica para fazer ou deixar de fazer alguma coisa porque você é menina”. Olhe para seus filhos como indivíduos, com pontos fortes e fracos, ensine o a fazer as coisas porque são certas e não por serem de mulher ou de homem. “Não a meça pelo que uma menina deve ser. Meça-a pela melhor versão de si mesma.” O poder também é para as meninas, tudo é para as meninas. Chimamanda explica no livro porque se importa com divisões como brinquedos para meninas e meninos, cores para meninas e meninos… Pode parecer uma bobagem contando assim solto, mas leia e pense bem.

Sugestões como ensinar o gosto pela leitura, não utilizar rótulos e sim exemplos para que as crianças entendam onde há misoginia, não falar do casamento como uma realização e algo que deve ser aspirado, não ensinar a ser agradável e sim ser quem ela é e uma pessoa boa; entender que feminismo e feminilidade não se excluem, que a beleza pode ser de várias formas.. São tantos pontos relevantes que eu poderia postar o livro inteiro.

Um outro ponto importante é não transformar o sexo em um tabu. Ela também entra na questão da idade dessas conversas e da importância de estabelecer uma linguagem para falar disso.

Diga-lhe que o sexo pode ser uma coisa linda e que, além das evidentes consequências físicas (por ser mulher!), também pode ter consequências emocionais. Diga-lhe que o corpo dela pertence a ela e somente a ela, e que nunca deve sentir a necessidade de dizer “sim” a algo que não quer ou a algo que se sente pressionada a fazer. Ensine-lhe que dizer não quando sentir que é o certo é motivo de orgulho. Diga-lhe que você acredita ser melhor que ela espere até ser adulta para poder fazer sexo. Mas prepare-se pois pode ser que ela não espere até os dezoito anos. E, se não esperar, você precisa ter a segurança de que ela se sinta à vontade para lhe contar isso.

Respeitas as diferenças é um ensinamento vital para qualquer criança, e isso também não escapou a Chimamanda:

Ela precisa saber e entender que as pessoas percorrem caminhos diferentes no mundo e que esses caminhos, desde que não prejudiquem as outras pessoas, são válidos, e ela deve respeitá-los. (…) Ensine-lhe que seus critérios valem apenas para ela e não para as outras pessoas. Esta é a única forma necessária de humildade: a percepção que a diferença é normal.

Fica por fim o meu apelo para que você leia o livro, sei que criar não é tarefa fácil. Não tenho filhos mas convivo com irmãos pequenos e sei que não dá para sair aconselhando e pronto, que não tem receita de bolo. Mas uma ajuda é especial e o tema é importante. O livro em formato físico ele será lançado dia 17 de março (é pequeno e baratinho)  e em e-book você já pode comprar se quiser (clique aqui).

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Autor:

Estudante de Jornalismo na UFF, leitora voraz, que gosta muito de dividir com os amigos o que lê, o que gosta de ler e o que amou ler.

5 comentários em “Para educar crianças feministas – Chimamanda Ngozi Adichie

  1. Oii Thamiris, tudo bem?
    Menina, eu tenho certa curiosidade em ler esse livro diante de tantos comentários positivos que leio a respeito da autora, fiquei encantada com a sua resenha e vou anotar a dica.
    Abraços

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