Publicado em Dicas, Eu li

[BEDA] Quem era Noll?

“— Quando você aprender a ler vai possuir de alguma forma todas as coisas, inclusive você mesmo.”

38785223_2209.2004DivulgacaoE-mailPV-EXCLUSIVOJoao-Gilberto-Noll-escritorOi pessoal! Semana passada faleceu o autor João Gilberto Noll e eu fiquei triste porque nem o conhecia, nunca tinha sabido nada de sua obra, mesmo ele sendo um autor premiado. Quando compartilhei a notícia a Camila do A Bookaholic Girl comentou que tinha se apaixonado pela escrita dele e me recomendou o conto Alguma coisa urgentemente (você pode ler no site releituras, clique aqui) e eu gostei.

O conto traz uma relação pai  filho bem conturbada na década de 60, há muita união entre eles no começo da infância do narrador, apesar dele dizer que o pai é inconstante.

Os primeiros anos de vida suscitaram em mim o gosto da aventura. O meu pai dizia não saber bem o porquê da existência e vivia mudando de trabalho, de mulher e de cidade. A característica mais marcante do meu pai era a sua rotatividade. Dizia-se filósofo sem livros, com uma única fortuna: o pensamento. Eu, no começo, achava meu pai tão-só um homem amargurado por ter sido abandonado por minha mãe quando eu era de colo. Morávamos então no alto da Rua Ramiro Barcelos, em Porto Alegre, meu pai me levava a passear todas manhãs na Praça Júlio de Castilhos e me ensinava os nomes das árvores, eu não gostava de ficar só nos nomes, gostava de saber as características de cada vegetal, a região de origem. Ele me dizia que o mundo não era só aquelas plantas, era também as pessoas que passavam e as que ficavam e que cada um tem o seu drama. Eu lhe pedia colo. Ele me dava e assobiava uma canção medieval que afirmava ser a sua preferida. No colo dele eu balbuciava uns pensamentos perigosos:

— Quando é que você vai morrer?

— Não vou te deixar sozinho, filho!

Até que há uma notícia brusca em que o narrador nos informa que o pai foi preso em 1969, pelas insinuações no texto e o estado do pai quando volta el foi preso e torturado por algum crime político na ditadura militar. Depois disso as relações mudam e tudo perde o rumo. Uma pequena família abalada para sempre por esse fato.

Gostei muito da narrativa, a escrita é de imensa qualidade e fiquei com vontade de ler outras coisas dele. Ele tem aquela forma de narrar que não omite nada e traz a verdade nua e crua.  O conto publicado no livro Romances e Contos Reunidos em 1997, e foi selecionado por Italo Moriconi para figurar no livro Os cem melhores contos brasileiros do século.  E foi adaptado para o cinema com o filme Nunca fomos tão felizes (Murilo Salles/1983).

Lendo sobre ele vi que trabalhou no jornal Última Hora na década de 70 e era um jornal que criticou a ditadura, teve um papel importante na história, me fez ficar ainda mais interessada. 🙂

Sobre o autor (fonte: Releituras):

João Gilberto Noll nasceu em 1946 na cidade de Porto Alegre (RS). Em 1969, após ter abandonado o Curso de Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, muda-se para o Rio de Janeiro, onde começa a trabalhar como jornalista nos jornais “Última Hora” e “Folha de São Paulo. Em 1970, publica seu primeiro conto na antologia “Roda de Fogo”, organizada por Carlos Jorge Appel, de Porto Alegre. Transfere-se para São Paulo, indo trabalhar como revisor da Cia. Editora Nacional. Retorna ao Rio e à “Ultima Hora”, em 1971, onde escreve sobre teatro, literatura e música. No ano de 1974 volta aos estudos de Letras e, no ano seguinte, leciona no Curso de Comunicação na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Em 1980, um ano após concluir o Curso de Letras, publica seu primeiro livro, “O cego e a dançarina”. Recebe os Prêmios “Revelação do Ano”, da Associação Paulista de Críticos de Arte, “Ficção do Ano”, do Instituto Nacional do Livro e o “Prêmio Jabuti”, da Câmara Brasileira do Livro. Recebeu cinco prêmios Jabuti e vários prêmios internacionais, teve livros lançados da Inglaterra, foi bolsista e professor convidado na Universidade de Berkeley – E.U.A.

Livros do autor:
1981 – “A fúria do corpo”
1985 – “Bandoleiros”
1986 – “Rastros de verão”
1989 – “Hotel Atlântico”
1991 – “O quieto animal da esquina”
1993 – “Harmada” (Prêmio Jaboti)
1996 – “A céu aberto”  (Prêmio Jaboti)
1997 – “Contos e romances reunidos”
1999 – “Canoas e marolas”
2002 – “Berkeley em Bellagio”
2003 – “Mínimos múltiplos comuns”

 

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Autor:

Estudante de Jornalismo na UFF, leitora voraz, que gosta muito de dividir com os amigos o que lê, o que gosta de ler e o que amou ler.

2 comentários em “[BEDA] Quem era Noll?

  1. Oies! Fiquei muito feliz que você tenha gostado do conto! É tão emocionante não é? Eu adoro textos e histórias que abordam o contexto da ditadura militar, e nesse caso, é uma história que é contada pelo ponto de vista de uma criança que foi crescendo desamparada seja pela ausência do pai em vários momentos, ou pelo Estado, a ponto dele precisar se prostituir. =/ Eu tbm quero muito conhecer outros livros do autor, e o livro que meu professor indicou muito no ano passado foi “Acenos e afagos” (2008). Adorei o post! ❤ ❤ Bjos

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