Publicado em Contos, Dicas

Contos de Guimarães Rosa no vestibular da UERJ

imagesOi pessoal, desculpe o sumiço, estou num momento complicado, mas pretendo ir voltando aos poucos! O post de hoje é sobre os contos A Terceira Margem do Rio e O Espelho de Guimarães Rosa, presentes no livro Primeiras Estórias, que serão cobrados na primeira fase do 1º Exame de Qualificação do Vestibular da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), no domingo. Apesar da prática ser comum nos vestibulares paulistas, há muito tempo isso não acontecia em uma prova para uma universidade no Rio. A lista traz ainda outros livros que serão cobrados em outras etapas, de autores como Clarice e Saramago. Então fica aqui uma ajudinha 😉

O conto A Terceira Margem do Rio (leia completo aqui) conta a história de uma família separada por um rio. O narrador é um dos filhos, não são apresentados os nomes dos personagens, e ele conta como um dia, misteriosamente, seu pai encomendou uma canoa e partiu nela sem explicar nada a ninguém. Na verdade, o pai passa a habitar o rio, que corre próximo a casa, subindo e descendo sem jamais colocar o pé em terra novamente. O filho ainda conta como se portaram os outros membros da família, a dúvida sobre a loucura ou lucidez, como ele furtava para alimentar o pai e porque acabou ficando para trás para cuidar dele a distância. E até a dúvida de qual seu papel nisso e se deveria assumir seu lugar.

Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais.

Já O Espelho (conto completo aqui) é um conto bem mais complexo, o seu começo causa até um estranhamento no leitor. O narrador, sobre o qual sabemos muito pouco (também sobre o lugar que ele vive não se sabe nada), convida o leitor a “seguir-lo” e saber sobre uma “experiência” que ele passou. Dessa forma, se comunica diretamente com o leitor. E começa a indagar se o que vimos no espelho pode ser real, ou ao menos próximo do real, já que nem mesmo nossos olhos são confiáveis. O autor mistura termos técnicos com explicações simples.

Se quer seguir-me, narro-lhe; não uma aventura, mas experiência, a que me induziram, alternadamente, séries de raciocínios e intuições. Tomou-me tempo, desânimos, esforços. Dela me prezo, sem vangloriar-me. Surpreendo-me, porém, um tanto à-parte de todos, penetrando conhecimento que os outros ainda ignoram. O senhor, por exemplo, que sabe e estuda, suponho nem tenha ideia do que seja na verdade — um espelho? Demais, decerto, das noções de física, com que se familiarizou, as leis da óptica. Reporto-me ao transcendente. Tudo, aliás, é a ponta de um mistério. Inclusive, os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.

O narrador não acredita em superstições, mas um dia viu no espelho uma figura que o assustou e aterrorizou, e para sua surpresa era ele mesmo. Assim, ele passou a buscar essa imagem nos diversos espelhos e nas diversas posições, chegando até a perder o próprio reflexo. Uma grande analogia sobre o que pensamos sobre nós mesmos e como chegar a um conhecimento profundo da própria alma, a cada passo de sua busca as máscaras vão caindo até sobrar

Próximas provas da UERJ em 2017:

– 2º Exame de Qualificação: A hora da estrela, de Clarice Lispector;

– Exame Discursivo (Prova de Língua Portuguesa Instrumental): Dom Casmurro, de Machado de Assis;

– Exame Discursivo (Prova específica de Língua Portuguesa e Literaturas): Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto, e Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago;

Questões de vestibular (respostas no final do post)

(UFRN-RN) O fragmento textual que segue, retirado da narrativa A terceira margem do rio, de João Guimarães Rosa, servirá de base para esta questão..

Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio — o rio — pondo perpétuo [grifo nosso]. Eu sofria já o começo da velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar o vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando idéia.
ROSA, João Guimarães. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1976.

No quadro do Modernismo literário no Brasil, a obra de Guimarães Rosa destaca-se pela inventividade da criação estética.
Considerando-se o fragmento em análise, essa inventividade da narrativa roseana pode ser constatada através do(a):

  • (A) recriação do mundo sertanejo pela linguagem, a partir da apropriação de recursos da oralidade.
  • (B) aproveitamento de elementos pitorescos da cultura regional que tematizam a visão de mundo simplista do homem sertanejo.
  • (C) resgate de histórias que procedem do universo popular, contadas de modo original, opondo realidade e fantasia.
  • (D) sondagem da natureza universal da existência humana, através de referência a aspectos da religiosidade popular.
  • E) Todas as afirmativas são corretas.

o-espelho

Com relação a leitura do texto acima e do resumo do conto O espelho, de Guimarães Rosa, assinale a alternativa incorreta

a) a partir da posição do narrador, no texto, infere-se que a superstição pode ser um ponto de partida para estudos.
b) Em “A alma do espelho – anote-a – esplêndida metáfora.” (linha 4), se os travessões forem substituídos por vírgulas, o sentido original da oração não sofre alteração e ela ainda continua dentro do padrão formal de escrita.
c) O autor procura atribuir ao espelho características enigmáticas, valendo-se da escolha semântica de vocábulos e de expressões.
d) Do período “serviam-se deles, como da bola de cristal, vislumbrando em seu campo esboços de futuros fatos, não será porque, através dos espelhos, parece que o tempo muda de direção e de velocidade?” (linhas 8, 9 e 10) pode-se inferir uma ligação à magia, aos mistérios representados pelo espelho.
e) Na oração “O espelho inspirava receio supersticioso aos primitivos” (linhas 1 e 2), a expressão destacada, sintaticamente, classifica-se como complemento nominal.

prova questão

Considere as seguintes afirmações sobre “O Espelho”, conto de Guimarães Rosa.

I – Ele aborda o tema do duplo ao colocar como protagonista um personagem cindido entre a aparência externa e a natureza íntima.
II – Ele sublinha a rejeição da máscara, simbolizada pela “feiúra” projetada no espelho, e a necessidade de busca do autêntico Eu.
III – Nele, o renascer do protagonista decorre de sua escolha pela solidão e de sua aceitação do sofrimento.

Quais estão corretas?
a) Apenas I.
b) Apenas II.
c) Apenas I e III.
d) Apenas II e III.
e) I, II e III.

Gabarito: A, E, B, E

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Autor:

Estudante de Jornalismo na UFF, leitora voraz, que gosta muito de dividir com os amigos o que lê, o que gosta de ler e o que amou ler.

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