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{euLi} As três Marias – Raquel de Queiroz

AS_TRES_MARIAS_151006259712483SK1510062597BSinopse: A história tem início nos pátios e salas de aula de um colégio interno dirigido por freiras: Maria Augusta, Maria da Glória e Maria José são amigas inseparáveis que ganham de seus colegas e professores o apelido de “as três Marias”. À noite, deitadas na grama e olhando para o céu, as meninas se reconhecem na constelação com a qual dividem o nome. Com o passar do tempo, Maria da Glória se transforma em uma dedicada mãe de família e Maria José se entrega por completo à religião. Guta, por outro lado, não se sente capaz de seguir os passos de nenhuma de suas velhas companheiras. Apesar de sua formação conservadora e rígida, ela sempre desejou ir muito além dos portões e muros daquele internato. Seus instintos a instigavam a procurar e explorar novos mundos. Assim, Guta termina a colégio e corre em busca de sua independência. A realidade, no entanto, se mostra muito diferente daquilo que estava descrito nos romances açucarados e livros de poesia que passavam de mão em mão entre as adolescentes sonhadoras. Guta descobre o amor, mas através dele é também apresentada à desilusão e à morte. “As Três Marias”, publicado originalmente em 1939, conquistou o cobiçado prêmio da Sociedade Felipe de Oliveira e, décadas depois, foi adaptado como uma novela para a televisão.

As Três Marias foi o quarto romance da escritora cearense Rachel de Queiroz e meu primeiro contato com sua obra, posso dizer que fui cativada. Uma história que nos fala tanto mesmo sem se fechar completamente. Muitas mulheres, com facetas diferentes e o espírito livre da principal personagem e narradora Guta.

Em um internato em que a divisão das classes sociais também existe como do lado de fora, as meninas lidam com isso de formas diferentes. O “não poder se misturar” com as meninas do orfanato, o ver amigas que vem de lares pouco ortodoxos sofrerem injustiças e muitas outras situações como a tentativa de fuga faz parte dessas lembranças quase autobiográficas da autora que também viveu em um internato.

O futuro incerto e muitas vezes doloroso da personagem Guta mostra uma personagem que não tem medo de se aventurar, ou que até tem mas que busca sua própria história. Ela não aceita bem a vida como dona de casa junto à madrasta e o pai, acaba trabalhando como datilógrafa e conhecendo o amor por conta própria, numa história bem real.

A escrita da autora é fantástica, apesar da linguagem ser simples e direta é de uma leveza impressionante. É impossível não falar dela sem dizer que foi a primeira mulher a ser uma imortal da Academia Brasileira de Letras, feito que só aconteceu na década de 70! Foi ela a primeira a quebrar o tabu de que lá era só para homens, e não foi a primeira a tentar. O preconceito com a literatura feita por mulheres era tão evidente que Graciliano Ramos disse que seu primeiro livro, O Quinze, devia ter sido feito por um homem usando um pseudônimo. Outro livro que já entrou para a minha listinha, e que ela escreveu quando tinha apenas 19 anos.

rachel-de-queiroz-pioneira Quando se trata de pioneirismo, Rachel de Queiroz deve ser lembrada como uma das mais relevantes figuras do universo literário brasileiro. Em uma época de rejeição à produção intelectual e criativa oriunda de uma mulher – no seu caso, para agravar, uma mulher do Nordeste –, ela trouxe novas perspectivas sociais, de gênero e abriu portas para que outras pudessem seguir seus passos. Foi uma das primeiras mulheres cronistas, a única aceita no movimento modernista brasileiro e a primeira a ocupar uma cadeira da Academia Brasileira de Letras. Sua história de vida é tão rica quanto seus romances, notoriamente inspirados nas experiências particulares de uma combativa mulher sertaneja. (Tag Et Cetera) Continue lendo.

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