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{Projeto Uns e Outros} Enganos com Guy de Maupassant e Maria Valéria Rezende

178e8db0-e5ea-49e7-b04b-2424a45073d3Oi pessoal! De volta com o Projeto Uns e Outros (saiba mais aqui – últimos dias para participar do sorteio) vou falar hoje sobre os contos: O colar de Guy de Maupassant e Um simples engano de Maria Valéria Rezende. A proposta desses contos que estão no livro Uns e Outros da Tag Experiências Literárias é que o autor contemporâneo faça um conto espelhado, uma espécie de releitura livre de um conto já conhecido. Gostei muito de como Maria Valéria Rezende tratou o tema, situando o no nosso cenário de desigualdade social.

Antes falando de O colar: nele conhecemos um jovem que apesar de bela é pobre, então que não adianta ter grandes aspirações e  se contenta em casar com um escriturário. Vive bem infeliz apesar de o marido fazer tudo para que ela seja fique bem. Ela não se contenta com a vida que tem, gostaria de ter muito mais, é uma personagem fútil. E um dia o marido consegue que eles sejam convidados para um grande baile, ela consegue que ele gaste as economias com um vestido e pede uma joia emprestada a uma amiga rica. É o que acontece depois do baile que os faz descer mais de classe social, ensina a esposa que as coisas podem ficar muito piores. Que ela devia ser grata pela vida que tinha antes e tudo o mais. Mas o final também ensina como a desigualdade social é cruel, como bem materiais podem significar sonhos para uns e para outros que já vivem de forma rica não é nada demais.

E gostei muito que Maria Valéria conseguiu manter isso, numa realidade bem mais próxima de nós. No conto dela conhecemos Matilde, que mora no morro e sonha sair dele. Escolhe o marido que tem mais chance de sair dessa vida também, alguém que mora quase no asfalto e é branco como ela. Isso é bem enfatizado. Ele trabalha como telemarketing e ela como manicure, os dois aos pouquinhos vão crescendo, ele na faculdade e ela fazendo a unha de forma exclusiva para pessoas ricas. Mas ela também nunca está feliz.

Quando ele se forma e vai subindo de cargo na empresa também surge uma festa. E o cenário se repete, dessa vez o que é tomado emprestado é um carro. E mais uma vez temos um engano anunciado. Gostei que aqui não é só a mulher que é deslumbrada pelo luxo, o marido também tem sua parcela de culpa na história. E de novo a desigualdade social, o sonho ligado ao consumo e a diferença dos valores é esfregada na nossa cara.

Ainda não conhece o projeto? Estou lendo em conjunto com os blogs Ponto para Ler,  Leitora Sempre e Jeniffer Geraldine os contos do livro Uns e Outros publicado pela Tag Experiências Literárias (um clube de livros por assinatura, saiba mais clicando aqui). Os contros trazem contos clássicos já publicados com releituras de autores de língua portuguesa, nós sorteamos a ordem e montamos um calendário para cada blog (entenda melhor sobre o projeto). E tá rolando sorteio do livro, participe até amanhã, dia 11/02 (clique aqui para o formulário).

No próximo sábado falaremos sobre Eveline (James Joyce) e A morte da mãe (Beatriz Bracher).

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{Projeto Uns e Outros} Negrinha! – Monteiro Lobato + Ana Maria Gonçalvez

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Ah essa dupla de contos foi a que mais gostei até agora no Uns e Outros – Contos Espelhados! Ana Maria Gonçalvez pegou um conto que retrata a situação das pessoas negras na época em que a escravidão acabou escrito por Monteiro Lobato e trouxe para o nosso contexto atual. Nos dois contos obviamente temos situações de preconceito, infelizmente bem reais.

Primeiro vemos uma órfã no conto Negrinha de Monteiro Lobato que fica esquecida na casa de uma antiga dona de escravos, considerada pilar da sociedade, que por mais que a escravidão tenha acabado mantém o “vício” de agredir a criança negra presente na casa.  A menina passa por castigos horrorosos e é saco de pancadas. E quando tem um vislumbre de ser criança e de ter uma identidade isso muda completamente o rumo das coisas.

Já no conto de Ana Maria, Negrinha! Negrinha! Negrinha! o contexto de conflito é a escola, no começo não sabemos muito bem o que aconteceu, só que a filha adotiva de um casal branco sofreu alguma forma de preconceito pelas “amigas” dentro do colégio caro.  Mas vamos descobrindo os detalhes aos poucos. Ela só conseguiu contar para a madrinha que também é negra e isso gera uma série de questionamentos dos pais, é claro que a reação da escola é de que tudo foi uma travessura de criança. Os próprios pais não sabem bem como lidar, se aceitam uma medida branda ou se cobram algo mais rígido. E de porque a filha cuidada com tanto carinho aceitou isso mesmo eles tentando esclarecê-la e dar exemplos. E principalmente porque ela não contou para eles. Vemos como ainda é difícil lutar contra o preconceito mesmo que você ache ele errado e/ou queira proteger alguém que você ama.

A discriminação racial é crime, mas o que fazer quando são crianças que cometem atos preconceituosos? Porque na verdade elas são um sintoma da sociedade, se elas se sentem superiores a outras pessoas pela cor ou pelo que for isso não foi gerado nelas sozinho. E isso infelizmente acontece nas escolas sem uma grande medida ser tomada por parte dos educadores, é claro que acredito que tenham escolas mais avançadas nisso, mas não que seja a maioria. E o próprio número de crianças negras nas escolas particulares caras é exemplo da desigualdade racial que acontece em nosso pais. É um conto que consegue ser uma amostra do que acontece e do preconceito racial, e que por ele podemos discutir vários aspectos disso. Foi o melhor conto dos espelhados para mim até agora.

Ainda não conhece o projeto? Estou lendo em conjunto com os blogs Ponto para Ler,  Leitora Sempre e Jeniffer Geraldine os contos do livro Uns e Outros publicado pela Tag Experiências Literárias (um clube de livros por assinatura, saiba mais clicando aqui). Os contros trazem contos clássicos já publicados com releituras de autores de língua portuguesa, nós sorteamos a ordem e montamos um calendário para cada blog (entenda melhor sobre o projeto). E tá rolando sorteio do livro, participe até o dia 11/02 (clique aqui para o formulário).

No próximo sábado falaremos sobre O colar de Guy de Maupassant e Um simples engano de Maria Valéria Rezende.

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Contos de Guimarães Rosa no vestibular da UERJ

imagesOi pessoal, desculpe o sumiço, estou num momento complicado, mas pretendo ir voltando aos poucos! O post de hoje é sobre os contos A Terceira Margem do Rio e O Espelho de Guimarães Rosa, presentes no livro Primeiras Estórias, que serão cobrados na primeira fase do 1º Exame de Qualificação do Vestibular da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), no domingo. Apesar da prática ser comum nos vestibulares paulistas, há muito tempo isso não acontecia em uma prova para uma universidade no Rio. A lista traz ainda outros livros que serão cobrados em outras etapas, de autores como Clarice e Saramago. Então fica aqui uma ajudinha 😉

O conto A Terceira Margem do Rio (leia completo aqui) conta a história de uma família separada por um rio. O narrador é um dos filhos, não são apresentados os nomes dos personagens, e ele conta como um dia, misteriosamente, seu pai encomendou uma canoa e partiu nela sem explicar nada a ninguém. Na verdade, o pai passa a habitar o rio, que corre próximo a casa, subindo e descendo sem jamais colocar o pé em terra novamente. O filho ainda conta como se portaram os outros membros da família, a dúvida sobre a loucura ou lucidez, como ele furtava para alimentar o pai e porque acabou ficando para trás para cuidar dele a distância. E até a dúvida de qual seu papel nisso e se deveria assumir seu lugar.

Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais.

Já O Espelho (conto completo aqui) é um conto bem mais complexo, o seu começo causa até um estranhamento no leitor. O narrador, sobre o qual sabemos muito pouco (também sobre o lugar que ele vive não se sabe nada), convida o leitor a “seguir-lo” e saber sobre uma “experiência” que ele passou. Dessa forma, se comunica diretamente com o leitor. E começa a indagar se o que vimos no espelho pode ser real, ou ao menos próximo do real, já que nem mesmo nossos olhos são confiáveis. O autor mistura termos técnicos com explicações simples.

Se quer seguir-me, narro-lhe; não uma aventura, mas experiência, a que me induziram, alternadamente, séries de raciocínios e intuições. Tomou-me tempo, desânimos, esforços. Dela me prezo, sem vangloriar-me. Surpreendo-me, porém, um tanto à-parte de todos, penetrando conhecimento que os outros ainda ignoram. O senhor, por exemplo, que sabe e estuda, suponho nem tenha ideia do que seja na verdade — um espelho? Demais, decerto, das noções de física, com que se familiarizou, as leis da óptica. Reporto-me ao transcendente. Tudo, aliás, é a ponta de um mistério. Inclusive, os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.

O narrador não acredita em superstições, mas um dia viu no espelho uma figura que o assustou e aterrorizou, e para sua surpresa era ele mesmo. Assim, ele passou a buscar essa imagem nos diversos espelhos e nas diversas posições, chegando até a perder o próprio reflexo. Uma grande analogia sobre o que pensamos sobre nós mesmos e como chegar a um conhecimento profundo da própria alma, a cada passo de sua busca as máscaras vão caindo até sobrar

Próximas provas da UERJ em 2017:

– 2º Exame de Qualificação: A hora da estrela, de Clarice Lispector;

– Exame Discursivo (Prova de Língua Portuguesa Instrumental): Dom Casmurro, de Machado de Assis;

– Exame Discursivo (Prova específica de Língua Portuguesa e Literaturas): Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto, e Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago;

Questões de vestibular (respostas no final do post)

(UFRN-RN) O fragmento textual que segue, retirado da narrativa A terceira margem do rio, de João Guimarães Rosa, servirá de base para esta questão..

Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio — o rio — pondo perpétuo [grifo nosso]. Eu sofria já o começo da velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar o vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando idéia.
ROSA, João Guimarães. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1976.

No quadro do Modernismo literário no Brasil, a obra de Guimarães Rosa destaca-se pela inventividade da criação estética.
Considerando-se o fragmento em análise, essa inventividade da narrativa roseana pode ser constatada através do(a):

  • (A) recriação do mundo sertanejo pela linguagem, a partir da apropriação de recursos da oralidade.
  • (B) aproveitamento de elementos pitorescos da cultura regional que tematizam a visão de mundo simplista do homem sertanejo.
  • (C) resgate de histórias que procedem do universo popular, contadas de modo original, opondo realidade e fantasia.
  • (D) sondagem da natureza universal da existência humana, através de referência a aspectos da religiosidade popular.
  • E) Todas as afirmativas são corretas.

o-espelho

Com relação a leitura do texto acima e do resumo do conto O espelho, de Guimarães Rosa, assinale a alternativa incorreta

a) a partir da posição do narrador, no texto, infere-se que a superstição pode ser um ponto de partida para estudos.
b) Em “A alma do espelho – anote-a – esplêndida metáfora.” (linha 4), se os travessões forem substituídos por vírgulas, o sentido original da oração não sofre alteração e ela ainda continua dentro do padrão formal de escrita.
c) O autor procura atribuir ao espelho características enigmáticas, valendo-se da escolha semântica de vocábulos e de expressões.
d) Do período “serviam-se deles, como da bola de cristal, vislumbrando em seu campo esboços de futuros fatos, não será porque, através dos espelhos, parece que o tempo muda de direção e de velocidade?” (linhas 8, 9 e 10) pode-se inferir uma ligação à magia, aos mistérios representados pelo espelho.
e) Na oração “O espelho inspirava receio supersticioso aos primitivos” (linhas 1 e 2), a expressão destacada, sintaticamente, classifica-se como complemento nominal.

prova questão

Considere as seguintes afirmações sobre “O Espelho”, conto de Guimarães Rosa.

I – Ele aborda o tema do duplo ao colocar como protagonista um personagem cindido entre a aparência externa e a natureza íntima.
II – Ele sublinha a rejeição da máscara, simbolizada pela “feiúra” projetada no espelho, e a necessidade de busca do autêntico Eu.
III – Nele, o renascer do protagonista decorre de sua escolha pela solidão e de sua aceitação do sofrimento.

Quais estão corretas?
a) Apenas I.
b) Apenas II.
c) Apenas I e III.
d) Apenas II e III.
e) I, II e III.

Gabarito: A, E, B, E

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[BEDA] Indicando contos

Oi pessoal! Resolvi fazer um post indicando contos de acordo com cada temática 🙂
Eu acredito que eu deveria ler mais contos, e vocês leem muitos? Não deixe de comentar!

Horror
HISTORIAS_EXTRAORDINARIAS_1411867809BA máscara da morte rubra
é um conto bem apavorante do mestre Edgar Alan Poe, se você gosta de ler contos macabros e nunca leu nada dele está na hora. O conto trata da morte por uma doença letal e sinistra chamada Morte Rubra, e como o descaso de um príncipe que não se preocupava com seus súditos o faz pagar um grande preço. E você encontra no livro Histórias Extraordinárias.

Suspense
ANTES_DO_BAILE_VERDE_1386584826BTem um conto da Lygia Fagundes Telles do livro Antes do Baile Verde que li na escola e até hoje acho sensacional. Para quem não sabe nossa grande autora também escreveu bastante coisa ligada ao suspense e é o caso do Venha ver o pôr do sol. O título parece bem inocente, mas o final é surpreendente.

Amor
ponto_para_ler__contos_1476906837620994sk1476906837bLeio poucos contos de amor, o meu amigo Paulo em seu livro Ponto para ler – Contos, escreveu um intitulado Um conto de amor e guerra que traz uma história de amor medieval e deuses. Alguns trechos são bem bonitos. Vale a pena conhecer, você encontra na Amazon.

DIA_DE_FOLGA__1387836167BHistórico

Dia de folga do John Boyne é um conto que se passa na segunda guerra e mostra o comportamento de alguns soldados, seus sofrimentos e angústias.

Neste conto breve e melancólico, John Boyne (autor do best-seller O menino do pijama listrado) acompanha o dia de folga de um jovem soldado inglês e seus companheiros, que passam a véspera de Natal em uma das trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Enquanto relembra os natais da infância e o conforto do seu lar, ele vê e ouve as bombas alemãs caindo a sua volta. Em meio a um dos piores conflitos do século XX, o jovem irá vivenciar um espírito natalino muito diferente do que estava acostumado.

Crítica Social
a-bela-e-a-feraEu fiquei apaixonada pelo conto da Clarice A bela e a fera, ele bota o dedo na ferida em um assunto que me toca demais. Qual a nossa relação com as pessoas que moram na rua? Quando fazer algo e quando não? Essas indagações estão no conto que traz uma crítica social bem ácida.

Espantada pelos enormes gritos do homem, começou a suar frio. Tomava plena consciência de que até agora fingira que não havia os que passavam fome, não falam nenhuma língua e que havia multidões anônimas mendigando para sobreviver. Ela soubera sim, mas desviara a cabeça e tampara os olhos. Todos, mas todos – sabem e fingem que não sabem. E mesmo que não fingissem iam ter um mal-estar. Como não teriam? Não nem isso teriam. (A bela e a fera ou A ferida grande demais)

Espero que tenham gostado da seleção. O que mais gostaria de ver no BEDA?

Boa leitura! bjos

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{ConhecendoClarice} Laços de família #MaratonaClarice

lacos-de-familiaSinopse: Uma escritora decidida a desvendar as profundezas da alma. Essa é Clarice Lispector, que escolheu a literatura como bússola em sua busca pela essência humana. Sua tentativa de transcender o cotidiano revela-se em personagens na iminência de um milagre, uma explosão ou uma singela descoberta. Todos suscetíveis aos acontecimentos do dia a dia. Vidas que se perdem e se encontram em labirintos formados por uma linguagem única, meticulosamente estruturada. E é por essa linguagem que Clarice Lispector constrói uma obra de caráter tão profundo quanto universal.

Esse livro de contos é incrível, contos que te arrebatam, que te fazem refletir e se questionar, que entristecem um pouco quem lê com os problemas humanos universais que acabamos tomando para nós mesmos e também nos fazem por uma lupa sobre os sentimentos de cada um.

Laços de família é um nome perfeito para esse livro que traz várias famílias de diferentes tamanhos e formatos, o nome também veio do conto Os laços de família publicado nele. Eu já tinha lido alguns contos desse livro, mas nunca ele inteiro como agora e foi uma experiência muito interessante. É impossível não reconhecer um parente ou uma situação que você já viu ou ouviu de alguém. Clarice escreveu esses contos depois de ser mãe e viver num dilema de manter a família unida no exterior ou fazer sua vontade que era largar tudo e voltar para o Brasil. Abraçar uma loucura ou se manter no rumo considerado mais correto? Esse dilema está presente em vários contos. Contos como Amor e Mistério em São Cristóvão já tinham aparecido em outro livro que não teve sucesso: Alguns Contos.

Cada conto é uma experiência, o primeiro Devaneio e embriaguez duma rapariga não poderia ter título/explicação mais claro (só vale mencionar que a rapariga em questão é casada e tem filhos, mas acaba tirando um momento para seus devaneios). Vale destacar que na história o vendedor de jornal anuncia o A Noite, jornal que a própria Clarice trabalhou. Já Amor é um conto sublime, que nos faz pensar no porque do título e como para mim tem a ver com o final não vou explicar. Mas é a história de uma mulher que depois de ver um cego mascando chiclete fica completamente perdida.

O terceiro conto, Uma galinha, é um dos mais famosos acredito, lembro que li na escola. Segundo Benjamin (o que fez a biografia Clarice, – estou resenhando por partes) é a primeira vez que Clarice dá jeito humano para um animal em suas histórias, e é essa a sensação que temos ao conhecer a história da galinha que não vai para a panela porque no derradeiro momento da morte põe um ovo. Mas depois seu trágico fim não tem muito jeito, e acaba nos fazendo comparar com o papel da mulher na sociedade, valorizada por poder ser mãe mas desvalorizada em outras funções.

O desequilíbrio da personagem de A imitação da rosa é bem interessante, como lidar com alguém com certos transtornos e como essa pessoa pensa, e Clarice já discutia isso há uns cinquenta anos coisa que vemos em filmes de hoje.  Já Feliz Aniversário é o retrato da família que possui um idoso com problema ou só rabugento e mostra: a falta de tato, a acusação do filho que toma conta para cima dos outros que não ajudam em nada, a reflexão do próprio idoso de que seus pensamentos e vontade já não são mais levados em conta…

Preciosidade traz novamente o papel da mulher, como não dizer que Clarice falava de feminismo também. Temos uma personagem jovem que tem medo dos homens na rua e com razão para tal, quantas vezes não passamos por esse medo? Não desconfiamos do que os machistas de plantão podem fazer?
*Uma curiosidade sobre o conto é que ele é dedicado a Mafalda, mas quem seria? Ninguém menos de que a esposa de Érico Verissimo, o casal ficou muito amigo dela nos Estados Unidos.

Também gostei muito de Laços de família, traz a difícil relação de mãe com a filha já casada e consequentemente com o genro e com o neto. Aquilo da vó meter o bedelho, dar conselho quando ninguém quer ouvir e coisas do gênero, que se a pessoa não leva na graça acaba terminando até em briga. Além de trazer outros laços familiares também.

Completam o livro os contos: A menor mulher do mundo, O jantar, Começos de uma fortuna, Mistério em São Cristóvão, O crime do professor de matemática e o búfalo. Hoje há uma edição da Rocco com todos os contos da Clarice que vale conferir 😉

Estou no meio de uma #maratonaClarice, todo mundo pode participar, só usar a # ou comentar por aqui o que está lendo, vai até domingo (confira no post os outros livros que vou ler).

Posts relacionados: Perto do Coração Selvagem, O lustre, Clarice, Maratona Clarice.

Comprando os livros da Clarice clicando nos link abaixo você ajuda o blog:

Todos os contos
A Bela e a Fera
O lustre
A Cidade Sitiada
Laços de família
A Maçã no Escuro
Outros livros: Clarice Lispector

beijos ;*