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{eu li} O leitor do trem das 6h27 – Jean-Paul Didierlaurent

Uma leitura bem agradável e prazerosa, com um humor leve e sútil o livro diverte do início ao fim, mesclando aqui e ali uma crítica social. O leitor do trem das 6h27 é uma trama que envolve leitores, esse tipo de livro sempre me deixa curiosa e com vontade de ler: seja de personagens que gostem muito, tenham uma livraria, roubem livros e etc. Adoro! Gosto do tipo de reconhecimento que se tem quando lê um livro assim. E com esse não foi diferente. Esse livro não chegou a virar um dos meus favoritos, mas gostei muito e recomendo.
logo youtbeResenha em vídeo

leitortremSinopse: Operário discreto de uma usina que destrói encalhe de livros, Guylain Vignolles é um solteiro na casa dos trinta anos que leva uma vida monótona e solitária. Todos os dias, esse amante das palavras salva algumas páginas dos dentes de metal da ameaçadora máquina que opera. A cada trajeto até o trabalho, ele lê no trem das 6h27 os trechos que escaparam do triturador na véspera. Um dia, Guylain encontra textos de um misterioso desconhecido que vão fazê-lo buscar cores diferentes para seu mundo e escrever uma nova história para sua vida.

Imagina que tormento! Gostar de livros e trabalhar num lugar em que uma máquina enorme devora livros e mais livros todos os dias, deve ser um sacrifício tremendo. Mesmo que seja para a reciclagem e que vão se tornar outros livros, acho que qualquer amante dos livros ficaria perturbado. Confesso que durante o livro fiquei me perguntando porque o personagem apesar de odiar o trabalho, não procurava outro emprego. a redenção do personagem é ler trechos salvos por ele no trem e com isso querendo ou não melhorar a vida daquelas pessoas que escutam.

Em trinta e seis anos de existência, acabara aprendendo a se fazer esquecível, a se tornar invisível para não provocar mais gargalhadas e zombarias do que as que sempre se manifestavam tão logo era notado. Não é nem bonito nem feio, nem gordo nem magro. Só o vislumbre de uma vaga silhueta nas margens do campo de visão.

Eu se estivesse num trem e ouvisse Guylain acho que não me aguentaria de curiosidade, e ia ficar perguntando de que livro que era e querendo mais informações. Alguns trechos são bem curiosos e instigantes, outros são receitas e manuais.

Para todos os passageiros presentes na composição, ele era o leitor, um sujeito estranho que, todos os dias da semana lia em voz alta e inteligível as poucas páginas retiradas de sua bolsa.

Assim, esse livro é cheio de pequenas histórias. Guylain mesmo sendo um solitário tímido, tem esses momentos em que dá vida a esses trechos salvos. E isso querendo ou não vai atrair pessoas para sua vida, me recuso a contar o que acontece estragar a surpresa. Também temos a história de dois amigos seus, um trabalhava com ele e outro ainda trabalha. Personagens riquíssimos e como retratados em poucas páginas, não vou contar muito sobre eles, só que um mostra uma bela relação de amizade e o outro só fala declamando *versos alexandrinos (muito curioso).

Nunca se esqueça disso, menino, somos para o processo editorial o que o buraco do cu é ara a digestão, apenas isso!

_Um verso alexandrino é direto como uma espada _ explicara um dia Yvon _, nasceu para acertar o alvo, com a condição de honrá-lo. Não deve ser declarado como prosa vulgar. Recita-se de pé.

Um dia Guylain encontra um pendrive no trem e nele vários arquivos de textos de uma mulher, a Julie, e ela ali narra como em um diário seu dia a dia de uma forma bem engraçada (sem querer). Confesso que fiquei meio ressentida de que no meio de tantos livros, um pendrive que mudou tudo, mas foi bom que a história não ficou óbvia. Ela trabalha em um banheiro, limpando e cuidando da ordem. Rola uma crítica a como essas pessoas que tem esse trabalho muitas vezes são invisíveis para as outras, gostei muito disso. E olha que lá na França as pessoas as vezes recebem gorjetas, nunca vi isso acontecer aqui. É claro que ele vai ler esses textos e se encantar com as histórias dela. Assim como quem lê vai ficando curioso em saber quem ela é. Esses trechos contados do diário da Julie me arrancaram algumas risadas.

Nunca se espera que pessoas responsáveis por banheiros públicos, quaisquer que sejam, mantenham um diário digitando no teclado de seu laptop. Devemos servir só para limpar de manhã até a noite, polir peças cromadas, esfregar, enxaguar, reabastecer os suportes de papel higiênico e mais nada. Espera-se que uma zeladora de banheiro limpe, não que escreva. As pessoas podem conceber que eu faça palavras cruzadas, caça-palavras, palavras trancadas em todo tipo de tabela quadriculada. Essas mesmas pessoas também podem aceitar que eu leia fotonovelas, revistas femininas e de televisão nas horas vagas, mas se sentem insultadas quando sabem que eu digito com meus dedos feridos pela água sanitária no teclado de um laptop a fim de registrar meus pensamentos.

Não vou contar mais porque esse livro é curtinho. Acredito que como o auto escrevia contos, o tamanho vem daí, e também a sensação de que há no livro várias histórias dentro de uma.

*Versos alexandrinos são aqueles que possuem 12 sílabas poéticas ou métricas.

jeanpaulgrandeO autor
Jean-Paul Didierlaurent mora em Vosges, na França. Seus contos ganharam duas vezes o Prêmio Hemingway. O leitor do trem das 6h27 é seu primeiro romance, cujo direito de publicação foi adquirido em 25 países (fonte: Intrínseca)

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{eu li} Toda luz que não podemos ver – Anthony Doerr

Toda luz que nao podemos verSinopse: Marie-Laure vive em Paris, perto do Museu de História Natural, onde seu pai é o chaveiro responsável por cuidar de milhares de fechaduras. Quando a menina fica cega, aos seis anos, o pai constrói uma maquete em miniatura do bairro onde moram para que ela seja capaz de memorizar os caminhos. Na ocupação nazista em Paris, pai e filha fogem para a cidade de Saint-Malo e levam consigo o que talvez seja o mais valioso tesouro do museu. Em uma região de minas na Alemanha, o órfão Werner cresce com a irmã mais nova, encantado pelo rádio que certo dia encontram em uma pilha de lixo. Com a prática, acaba se tornando especialista no aparelho, talento que lhe vale uma vaga em uma escola nazista e, logo depois, uma missão especial: descobrir a fonte das transmissões de rádio responsáveis pela chegada dos Aliados na Normandia. Cada vez mais consciente dos custos humanos de seu trabalho, o rapaz é enviado então para Saint-Malo, onde seu caminho cruza o de Marie-Laure, enquanto ambos tentam sobreviver à Segunda Guerra Mundial.

Comecei esse livro com grandes expectativas que foram correspondidas conforme li o livro. No começo estava lendo poucas páginas, interrompendo a leitura toda hora e o livro parecia que não ia fluir. Mas o problema era comigo, eu que tinha que dedicar mais o meu tempo a uma narrativa muito especial que não é linear e que envolve muitos detalhes e muitos personagens importantes. O livro se passa durante a segunda guerra, acompanhamos a história de Marie e Werner, suas mudanças e ao mesmo tempo flashes do ano de 1944 onde o caminho dos dois se cruza definitivamente (e você logo percebe que não vai ser nada fácil). Isso porque suas histórias já tinham elos desde o começo do livro que o leitor aos poucos vai percebendo. Além disso, ano é importante porque um ataque aéreo organizado pelos aliados destrói a cidade francesa de Saint-Malo e expulsa os alemães. O ataque liberta, mas em guerra todos pagam, principalmente os inocentes.

Veja também a resenha em vídeo:

A história, narrada em terceira pessoa, se passa na França e na Alemanha. Em Paris, Marie vive com o pai, que é muito mais do que um chaveiro, no começo me interessei mais por ele do que por ela. Ele é um verdadeiro artista, sabe criar cofres, caixas secretas, objetos com seus próprios segredos para guardar preciosidades, alguns nem precisam de chave. Ele é um excelente pai, que ensina a filha (a esposa já faleceu) a se virar e ler em braile depois que ela fica cega. Ele trabalha em um museu, então os arredores da filha são sempre bem interessantes e ela vive feliz mesmo sem poder enxergar.

No entanto, também há lugar para o orgulho _ orgulho de fazer tudo sozinho. De ver a filha tão curiosa, tão resiliente, Há a humildade de ser o pai de alguém tão forte, como se ele fosse meramente um canal para algo maior. Esse é o sentimento de agora, pensa ele, ajoelhado ao lado da menina, lavando o cebelo dela: como se o seu amor pela filha ultrapassasse os limites do seu próprio corpo.

saint maloAté que precisam deixar a cidade e ir buscar abrigo na casa do tio-avô dela, que mora em Saint-Malo (região da Bretanha), um senhor recluso e traumatizado com a primeira guerra. A cidade é um refúgio afastado o princípio, antes da guerra tomar conta de tudo. É bonito ver como uma criança pode iluminar a vida de alguém e como o conhecimento, a curiosidade e o amor podem tirar alguém da toca.

Ele a fez girar; os dedos dela reluzem no ar. à luz da vela, ela aprece ser de outro mundo, o rosto todo cheio de sardas e no centro das sardas aqueles dois olhos imóveis como as bolsas dos ovos das aranhas. Eles não o seguem, mas tampouco o incomodam; parecem olhar para um lugar diferente, mais profundo, um mundo que consiste apensas de música.

Além disso, seu pai leva também um tesouro do museu (tamanha a confiança que o personagem passa) que dizem carregar uma maldição e que desperta a cobiça de um homem poderoso relacionado ao governo alemão, responsável por capturar obras e jóias para os nazistas, avalia-lás quanto a sua autenticidade, principalmente. Naquele sonho louco de Hitler de pegar as maiores oras e criar um museu do mundo. O autor também retrata o esforço de pessoas comuns em se libertar da opressão, correndo riscos de serem apanhadas.

É muito interessante ver como a ocupação alemã assusta os franceses, que primeiro se preocupam com coisas fúteis, como alimentos refinados que somem, e depois veem que podem perder a liberdade ou a vida. A própria Marie reclama muito no começo e vai amadurecendo. O que mais me impressionou na história dela foi como o autor soube transformar a cegueira em sua aliada, com o desenvolvimento dos outros sentidos e uma capacidade de andar sem esbarrar nas coisas por memorização do lugar dos objetos. Isso é vital no momento mais tenso do livro.

No outro lado da história, temos Werner um órfão alemão, que cresce em um orfanato, com sua irmã, cuja única perspectiva é fazer 14 anos e trabalhar forçadamente nas minas de carvão (trabalho totalmente insalubre). Mas sua vida sofre uma mudança drástica quando seu talento para concertar rádios e sua inteligência é reconhecida. Ele vai estudar numa escola alemã e depois trabalhar captando ondas de rádio para o exército. Ele é um garoto muito inteligente, que aprendeu vários conceitos científicos por um misterioso programa de rádio, no começo ele se deslumbra com a possibilidade de ser alguém importante, aprender mais e trabalhar para o país, mas logo vê que o preço é alto.

Ainda na escola a vida não é fácil nem para os alemães devido a esse ideal nazista de purificação da raça ariana, alguns se veem em risco quando não são táo perfeitos como se espera deles (inteligentes, claros, atletas, ferozes…). Eles são medidos e testados como cobaias. E mesmo os que passam no teste são criados para obedecer a um nacionalismo cruel. Mas apesar dos pesadelos Werner tem uma chance de se redimir e não poderia ter escolhido uma vida diferente nas circunstâncias em que vivia.

Há cadete com pele de leite, íris de safiras e redes ultrafinas de veias azuis nas costas das mãos. Por enquanto toda via, com as rédeas nas mãos da administração, eles são todos iguais, todos *Jungmänner. Eles se amontoam pelos portões juntos, engolem ovos fritos no refeitório juntos, marcham pelo quadrilátero, passam por revista, fazem continência par a abandeira, atiram com rifles, tomam banho e sofrem juntos. Cada um é uma porão de argila, e o ceramista, que é o imponente comandante, está moldando quatrocentos jarros idênticos.  *Homens jovens

Os ideias nazistas são apresentados nesse livro de uma forma diferente, não vemos o lado judeu, mas o lado problemático para os próprios alemães. Como as ideias são incutidas nas pessoas, principalmente nos jovens como adiantei. E no caso de Werner alguém que tem uma mente em conflito por isso, a irmã que ele deixa para trás representa principalmente sua consciência.

A vida é um caos, senhores. E o que representamos é a imposição de uma ordem ao caos. Mesmo no caso dos genes. Estamos impondo ordem na evolução das espécies. Separando os inferiores, os desregrados, separando o joio do trigo.

O rádio é um elemento fundamental nessa história, um fio condutor que aos poucos liga Marie e Werner, o próprio rádio é uma pista. O leitor fica querendo saber de tudo ao mesmo tempo, chaga um momento que não dá mais para largar o livro. É um livro que eu aconselho ler trechos grandes para não se perder e deixar passar detalhes. Nele há muitos parágrafos também sobre ciência, eletrônica, ondas, temas que também são importantes no retrato histórico. Tem todos os elementos para os fãs de romances históricos e para os que não são fãs se tornarem.

anthony doerrO autor:
Anthony Doerr é americano e com esse livro ganhou o Prêmio Pulitzer de ficção de 2015.  é historiador e autor dos livros The Shell Collector Memory Wall (contos), Four Seasons in Rome (memórias) e About Grace (romance), dedicou 10 anos a criar Toda luz que não podemos ver. Pelo que li ele ficou bem surpreso com o prêmio e a repercussão do livro, antes do sucesso recente não se sustentava com a escrita e dava aulas de redação. Confesso que achei graça com a semelhança dele e do John Boyne, dois carecas que escrevem romances históricos. 🙂 Anthony tem tudo para ser um dos meus favoritos como o Boyne.

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{livro infantil} A princesa que não tinha reino – Ursula Jones

Hoje é sábado, dia da minha irmã Ana Clara falar de um livro infantil que leu e o que achou. O livro da vez é o A princesa que não tinha reino. Sinopse: Era uma vez uma princesa que não tinha reino. Tudo o que ela possuía era um pônei, uma carruagem e um guarda-chuva vermelho para protegê-la da chuva. O que ela não tinha em bens materiais, no entanto, possuía em educação, inteligência e beleza – qualidades que a tornavam muito mais atraente do que várias princesas com um belo reino. Vários reis se encantaram por ela e até a pediram em casamento. Mas ela sempre pensava – para que ter um reino?

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{eu li} Memória de Minhas Putas Tristes – Gabriel García Márquez

memoriasdeminhasputastristesSinopse: No ano em que completa os seus noventa anos, o autor-narrador destas memórias decide se presentear com uma noite de amor com uma adolescente virgem. E é assim, sem rodeios, que Gabriel García Márquez apresenta a história do velho jornalista que escolhe a luxúria para provar a si mesmo, e ao mundo, que ainda está vivo. ‘Memória de Minhas Putas Tristes’ desfia as lembranças de vida desse solitário personagem. Apresenta ao leitor as aventuras sexuais deste senhor, que vai viver cerca de cem anos de solidão embotado e embrutecido, escrevendo crônicas e resenhas maçantes para um jornal provinciano, dando aulas de gramática para alunos tão sem horizontes quanto ele, e, acima de tudo, perambulando de bordel em bordel, dormindo com mulheres descartáveis.

Esse livro é surpreendente, impressionante o que o autor consegue fazer em tão poucas páginas. Mas se tratando de um autor brilhante como Gabriel García Márquez já era de se esperar. É o terceiro livro que leio do autor, Já li Cem anos de Solidão (resenha) e Crônicas de um morte anunciada. Apesar do tema, o livro não é só sobre sexo, é um livro extremamente poético que fala sobre envelhecimento, solidão, sonhos, ilusões, amor… O personagem que não nos conta seu nome, sempre pagou de uma forma ou de outra pelas mulheres que teve, mas nunca tinha amado e aproveitado de verdade a companhia de uma mulher. Ao resolver pagar por uma menina, suas surpresas se dão mais na alma do que na cama.

É muito bacana, o personagem te uma maneira muito peculiar de apresentar  a si mesmo e o mundo para o leitor. Ele é um nonagenário de mente muito ativa, jornalista e cronista, é o dono da história.

Não preciso dizer, porque dá para reparar, a léguas: sou feio, tímido e anacrônico. Mas a fora de não querer ser assim consegui simular exatamente o contrário. Até o sol de hoje, em que resolvo contar como sou por minha livre e espontânea vontade, nem que seja só para alívio de minha consciência.

O personagem nunca amou e se aventurou de verdade, ficando sozinho depois da morte dos pais, acabou vendendo quase tudo para sobreviver e se desapegando das coisas materiais. Mas a história começa quando ele toma uma decisão que gera uma grande mudança na sua vida, coloca a vida de novo em movimento “numa idade em que a maioria dos mortais está morta”.

Quando deram as sete na catedral, havia uma estrela solitária e límpida no céu cor-de-rosa, um barco lanou um adeus desconsolado, e senti na garganta o nó górdio de todos os amores que puderam ter sido e que não foram.

Nas reflexões encontramos diversas citações que combinam com a erudição do personagem e do autor do livro com uma ironia fina e rara. Não há muito juízo de valor, nada é só bom ou ruim, é simplesmente com a  vida é para ambos.

Desde então comecei a medir a vida não pelos anos, mas pelas décadas. A dos cinquenta havia sido mais decisiva porque tomei consciência de que quase todo mundo era mais moço que eu. A dos sessenta foi mais intensa pela suspeita de que já não me sobrava tempo para me enganar. A dos setenta foi temível por uma certa possibilidade de que fosse a última. Ainda assim, quando despertei vivo na primeira manhã de meus noventa anos na cama feliz de Delgadina, me atravessou a ideia complacente de que a vida não fosse algo que transcorre como o rio revolto de Heráclito, mas uma ocasião única de dar a volta na grelha e continuar assando-se do outro lado por noventa anos a mais.

Além das reflexões, o livro é muito engraçado em várias partes graças a personagem Rosa Cabarcas que é dona do bordel e que ora parece saber tudo, sobre o amor, os homens e a luxúria, com tiradas muito boas, ora se mostra surpresa mas sempre pronta a fazer seu papel. Como disse antes, a graça da história está principalmente no jeito como ela é contada e nas pequenas surpresas do enredo que não vou estragar contando.

Me pergunto como pude sucumbir nesta vertigem perpétua que eu mesmo provocava e temia. Flutuava entre nuvens erráticas e falava sozinho diante do espelho com a vã ilusão de averiguar quem sou. Era tal meu desvario, que em uma manifestação estudantil com pedras e garrafas tive que buscar forças na fraqueza para não me colocar na frente de todos com um letreiro que consagrasse minha verdade: Estava louco de amor.

Vale muito a pena ler, da para ler as 127 páginas em um dia. Já leu? Gostou? Não esqueça de comentar. Para você qual o melhor livro de Gabriel García Márquez? Confesso que apesar de admirar muito Cem anos de solidão, estou adquirindo muita afeição pelos livros curtos.

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{eu li} Nós – David Nicholls

nosSinopse: Certa noite, Douglas Petersen, um bioquímico de 54 anos apaixonado pela profissão, por organização e limpeza, é acordado por Connie, sua esposa há 25 anos, e ela lhe diz que quer o divórcio. O momento não poderia ser pior. Com o objetivo de estimular os talentos artísticos do filho, Albie, que acabou de entrar para a faculdade de fotografia, Connie planejou uma viagem de um mês pela Europa, uma chance de conhecerem em família as grandes obras de arte do continente. Ela imagina se não seria o caso de desistirem da viagem. Douglas, porém, está secretamente convencido de que as férias vão reacender o romance no casamento e, quem sabe, também fortalecer os laços entre ele e o filho. Com uma narrativa que intercala a odisseia da família pela Europa – das ruas de Amsterdã aos famosos museus de Paris, dos cafés de Veneza às praias da Barcelona – com flashbacks que revelam como Douglas e Connie se conheceram, se apaixonaram, superaram as dificuldades e, enfim, iniciaram a queda rumo ao fim do casamento.

Confesso que comecei a ler esse livro por causa da Turnê Intrínseca e de como foi elogiado pela representante, sei que queria vender, mas me convenceu a ler, falou com bastante carinho do livro. Acho que se não eu não leria, já que ao contrário de muita gente não gostei tanto do livro Um dia. Achei que a história de Um Dia se perde, e não gostei do final, não só pelo que acontece mas porque achei incoerente com o que a história vai prometendo ao leitor. Não vou falar muito do livro, porque tem bastante tempo que li. Recomendo a resenha do canal da Tati Feltrin.

Agora falando de Nós, o autor David Nichols ainda não conquistou o meu coração, mas gostei bem mais desse livro, achei a história redondinha, coerente o final, me manteve presa a narrativa, dei umas risadas. Não sei exatamente o que ficou faltando. Como vocês viram na sinopse a história é sobre uma crise no casamento, uma grande viagem pela Europa, e a dificuldade que é criar um filho.

A narrativa é contada pelo ponto de vista do Douglas, então durante boa parte da história fui inclinada a ficar do lado dele. Temos um casal bem diferente, com gostos e carreiras diferentes, o que no começo torna a relação um misto de curiosidade e aventura para ambos. Connie que não vinha de relacionamentos muito saudáveis vê em Douglas, um nerd, com muitas boas intenções e uma grande devoção, e que a resgata de um estilo de vida um pouco destrutivo, apesar de muito artístico. Douglas sai da solidão por ela.

Aquilo era uma nova voz para mim. Algo mudara e, quando finalmente saí daquela casa na noite de domingo, dolorido e comicamente desgrenhado, voltando para Balham em trens vazios, eu não tinha dúvida de que estava apaixonado por Connie Moore. Isso de modo algum foi motivo de comemoração. Sempre me intrigou saber por que se apaixonar devia ser considerado um acontecimento extraordinário, acompanhado por um naipe de cordas em crescendo, quando aquilo tantas vezes acabava em humilhação, desespero ou atos de terrível crueldade. Dada a minha experiência anterior, o tema de Tubarão teria sido mais adequado, ou os violinos de Psicose.

Mas não é só de estilo que os dois são diferentes, com o tempo a visão que os dois tem de como a vida deve ser, gera embates na criação do filho, que como tem gostos muito similares com a mãe, e prefere o lado artístico ao científico. Connie às vezes é muito condescendente com Albie.  E assim Douglas se vê como um ser deixado de lado e sente que suas opiniões são rejeitadas.

A narrativa do livro não é linear, é cheia de memórias de Douglas, sobre o namoro, casamento, crescimento do filho. E são essas memórias que aos poucos vai nos revelando, pelos diálogos, que Douglas também não tem muito tato para apresentar seus pontos de vistas. E que sua esposa e filho, não estão completamente errados ao achá-lo “cricri” demais. Embora eu tenha ficado muito incomodada com o tratamento do filho com o pai, nós vemos que não é só um lado que está errado.

Durante a viagem as coisas não vão bem, as esperanças de Douglas de uma diversão em família com trajetórias marcadas vão sendo frustradas por outros interesses vindos de Albie e Connie que querem curtir o lugar sem tantas amarras. A objetividade de Douglas em conhecer todos os lugares e seguir um programa vai entrando em choque e gerando um estresse coletivo que acaba em confusão por bobagem. Assim na história temos um primeiro rompimento, que gera uma busca de Douglas pra tentar concertar sua família, ou pelo menos, seu relacionamento com o filho.

Eu gostei da narrativa, porque me fez ir mudando de opinião ao longo da história. Me pareceu aquela impotência de quando você conhece uma família em que um filho é rebelde ou alguém não se dá bem com outra pessoa, e você fica na dúvida se aconselha, se dá razão a uma pessoa ou outra. E conforme vai sabendo das histórias, elas vão mudando o que você pensa. E depois você percebe que eles precisam é conversar e serem francos um com o outro, levado em conta antes de tudo o amor. Assim que me senti, como se tivesse me metendo na história de uma família real. As vezes precisamos deixar claro que amamos as pessoas, mesmo que para nós seja óbvio.

Apesar de eu me irritar com o Douglas em vários momentos, esse cara reclama muito, sua rabugice ligada a um estranhamento de estar envelhecendo me fez rir em vários momentos.

Sempre fui levado a crer que o envelhecimento era um processo lento e gradual, o deslizar de uma geleira. Agora percebo que acontece rapidamente, como neve caindo de um telhado.

Os detalhes da viagem também são bem legais, eu não conheço a Europa então fiquei com invejinha em vários momentos, no livro tem muitas referências a pinturas famosas, o passeio mesmo que organizado por Douglas que não é o artista da família, tinha a preocupação de que o roteiro fosse feito por muitos museus, e até quando os passeios não deram certo foram inseridas outras curiosidades engraçadas sobre o lugar.

Veja, começaremos em Paris, fazendo as paradas óbvias: o Louvre, o Musée d’Orsay, os Monets e os Rodins. Vamos de trem a Amsterdã para ver Rembrandt no Rijksmuseum, os Van Goghs e, em seguida, atravessaremos os Alpes, sem aviões, sem carros, até Veneza, porque é Veneza. Voltaremos por Pádua para visitar a Capela Scrovegni; Vicenza para visitar as villas de Palladio; Verona, Verona é adorável, e veremos A Última Ceia em Milão; Florença, para ver Botticelli na Uffizi e, bem, para ver Florença. Então, Roma! Roma é linda. Paramos em Herculano e Pompeia, e terminaremos em Nápoles. Claro que, em um mundo ideal, teríamos de recuar e visitar o Kunsthistorisches em Viena, depois, Berlim, mas teremos que avaliar como seu pai estará se saindo à essa altura.

Acho que senti falta de mais amor por parte de Connie, apesar de ela nunca ter se arrependido de ter casado com Douglas, achei que para ela ele simplesmente cumpriu seu papel, não vejo a mesma paixão que ele sentia por ela sendo retribuída. É claro que a história seria outra se fosse contada por ela, mas em nenhum momento fiquei com vontade que o casal reatasse, mesmo com os relances do passado, não tive tanta empatia por eles como casal. Acho que talvez tenha sido isso que faltou no livro para mim.