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{eu li} Queda de Gigantes – Ken Follet

quedadegigantesSinopse: O primeiro volume da trilogia “O Século”, do consagrado Ken Follett, começa no despertar do século XX, quando ventos de mudança ameaçam o frágil equilíbrio de forças existente – as potências da Europa estão prestes a entrar em guerra, os trabalhadores não aguentam mais ser explorados pela aristocracia e as mulheres clamam por seus direitos. Follett constrói sua trama entrelaçando as vidas de personagens fictícios e reais, como o rei Jorge V, o Kaiser Guilherme, o presidente Woodrow Wilson, o parlamentar Winston Churchill e os revolucionários Lênin e Trótski. O resultado é uma envolvente lição de história, contada da perspectiva das pessoas comuns, que lutaram nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, ajudaram a fazer a Revolução Russa e tornaram real o sonho do sufrágio feminino. Ao descrever a saga de famílias de diferentes origens, o autor apresenta os fatos sob os mais diversos pontos de vista.

 De volta com as resenhas, uma das razões da demora é o tamanho desse gigante, do Ken Follet. Nunca tinha lido nada do autor, gostei muito do livro, ele é um prato cheio para quem gosta de romances históricos. O livro traz personagens muito interessantes e de vários lados da Primeira Guerra, temos personagens da Tríplice Aliança e Entente. Alguns deles eram amigos ou mais que amigos antes da guerra e foram forçados a romper, outros em idade de entrar para o exército foram arrastados para o front.

Em Gales do Sul conhecemos os Williams uma família fantástica, o chefe de família é um dos líderes dos sindicatos dos mineradores, e que luta para que esses trabalhem com o mínimo de condições. Follet faz um retrato da situação de miséria e de exploração a que os mineradores passavam. As famílias se viam forçadas a mandar para o trabalho meninos de 12 anos. É o que acontece com Billy, que sobrevive a esse horror para ter um importante papel nessa história. Assim como sua irmã, Ethel, que é governanta na casa dos nobres locais e donos das terras onde sua família mora e trabalha, os aristocráticos Fitzherberts. Esses também vão ver o mundo a sua volta mudar bastante e influenciar muito na vida da família Williams.

Enquanto isso na Rússia, dois irmãos órfãos, Grigori e Lev Peshkov, possuem caráter bem diferentes. Eles são fruto de uma família que sofreu muito devido ao regime czarista,  a história dos dois ajuda a contar vários momentos da história que culminam na Revolução Russa. Também temos na história um romance interrompido pela guerra entre um alemão, Walter, diplomata, e a inglesa Lady Maud. E a história do americano Gus Dewar, o assessor do presidente Wilson. No livro vemos o governo dos Estados Unidos como aquele que trabalhou pela paz mas não conseguiu escapar da guerra.

Enquanto a ação se desloca entre Londres, São Petersburgo, Washington, Paris e Berlim, Queda de gigantes retrata um mundo em rápida transformação, que nunca mais será o mesmo. O século XX está apenas começando.

O livro ajuda a entender como a guerra não foi culpa exclusiva da Alemanha, como os países tentaram declarar quando ela acabou. Uma série de interesses políticos, rivalidades e a vontade dos ingleses de serem maiores de que todas as outras nações, são alguns dos motivos desencadeados pelo assassinato do Arqueduqui  Francisco Ferdinando, príncipe herdeiro do Império Austro-Húngaro, e de sua mulher, Sofia.

O crime aconteceu em 28 de junho de 1914. O autor dos disparos foi Gavrilo Princip, estudante sérvio-bósnio ligado a uma organização nacionalista. Um mês depois, em 28 de julho, o Império Austro-Húngaro declarou guerra à Sérvia, dando início ao confronto. Diante da declaração de guerra dos austríacos, os russos se mobilizam para ajudar os sérvios, seus “irmãos” eslavos dos Bálcãs. No dia 3 de agosto de 1914, a Alemanha, aliada dos austríacos, declara guerra à França. O exército alemão avança rumo à França. Por causa da política de alianças, em pouco tempo praticamente toda a Europa está envolvida no conflito. De um lado estavam os países da Tríplice Aliança (Alemanha, Itália e Império Austro-Húngaro) e, do outro, a Tríplice Entente (Reino Unido, França e Rússia). (entenda a primeira guerra mundial)

Apesar desse efeito cascata, Ken tenta mostrar no livro os bastidores da política, mostrando que os países tinham outras opções, mas a vontade exacerbada de ter mais poder político ou imagem de potência militar fez com que eles optassem pela guerra. E a guerra sempre será uma estupidez pois muito é gasto e o desperdício de vidas inocentes é enorme. Muitos pagaram nas trincheiras por escolhas de políticos e nobres. Em vários momentos temos o sentimento de revolta de soldados e esposas que não queriam a guerra. O autor também mostra a importância da opinião pública, conduzida para querer a guerra e depois para ter raiva dos alemães.

Ken Follet soube mesclar com maestria personagens reais com ficcionais, no final do livro ele explica que tentou ser fiel ao máximo aos fatos. Usando frases que realmente foram ditas pelas “reais”, mesmo que para outras pessoas ou em discurso e que não mudou a posição geográfica deles, respeitando viagens e compromissos políticos.

A parte que mais gostei foi a sobre a Revolução Russa, como o livro mostra que ela foi necessária e como alguns personagens fictícios foram envolvidos de forma muito coerente. E de, infelizmente, como o que começa com um propósito idônico, visando o melhor para a população pode degringolar, veremos mais disso na continuação do livro, Inverno do Mundo.

Outro ponto forte do livro é a busca por direitos das mulheres na Inglaterra, o afastamento dos homens para o fronte deu mais liberdade para as mulheres andarem sozinhas e forçou as famílias a aceitarem que as mulheres trabalhassem em jornadas iguais ao dos homens. A falta de homens nas fábricas forçou os empregadores a aceitarem mais mulheres. Elas por sua vez era forçadas a aceitar salários mais baixos para sustentar seus filhos, isso gerou um grande sentimento de revolta, aliado ao surgimento de líderes femininas, que exigiram o voto e melhores condições para as mulheres. A construção desse cenário é brilhante no livro.

A narrativa é bem intensa, em terceira pessoa, mesmo tratando de vários anos no livro é uma narrativa dinâmica, que fica variando o ponto de vista, mudando o cenário em que a história se passa. Em alguns momentos de batalha achei a história um pouco cansativa, mas importante para a geografia da guerra e sempre despertado em seguida por um acontecimento marcante.

As continuações são Inverno do Mundo, com pano de fundo a Guerra Civil Espanhola e a Segunda Guerra Mundial, e Eternidade da alma, com os fatos marcantes dos anos 60 a 80. E traz de volta as novas gerações das famílias conhecidas em Queda de Gigantes. Muito interessante, né?

O autor

Ken_FollettKen Follett irrompeu no cenário da literatura aos 27 anos com O buraco da agulha, thriller premiado que chegou ao topo das listas de mais vendidos em vários países. Depois de outros sucessos do gênero, surpreendeu a todos com Os pilares da terra, um romance sobre a construção de uma catedral na Idade Média que até hoje, mais de 20 anos após seu lançamento, continua encantando o público mundo afora.  O autor vive na Inglaterra com a mulher, Barbara.

 Seu mais novo livro é o  As espiãs do dia D, que se passa na Segunda Guerra.

Infográfico sobre a Primeira Guerra Mundial

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{eu li} Ordem da escuridão: O substituto (Vol. 1) – Philippa Gregory

ordem da escuridãoSinopse: Dotado de beleza e inteligência fora do comum, Luca Vero foi visto com desconfiança durante toda a vida… até que o jovem é acusado de heresia e expulso de seu monastério. Para escapar da fogueira, aceita se tornar membro de uma Ordem misteriosa cujo objetivo é investigar estranhos relatos que assombram o mundo cristão: feras, possessões. Dono de mente analítica e surpreendentemente cético para um religioso, o rapaz está prestes, no entanto, a se tornar vítima do próprio coração. Isolde, de 17 anos, fora aprisionada como abadessa de um convento cujas freiras sofrem constantes ataques de histeria e estranhas visões. Todas as pistas apontam para bruxaria e colocam a abadessa como bode expiatório. Mas como Luca pode mandar para a fogueira a jovem que faz arder seu coração? Aliados improváveis, Isolde e Luca precisam aprender a confiar um no outro e em seus próprios instintos para vencer os inimigos e combater a crescente atração que sentem um pelo outro. Ou podem acabar num inferno jamais imaginado.

Esse livro foi escrito por uma das minhas autoras favoritas, Philippa Gregory, então foi uma aquisição cheia de expectativas. Imaginei que o livro seria em diferente de seus livros anteriores que são atrelados a fatos históricos e com personagens que realmente existiram, e talvez a linguagem fosse mais simples por ser publicado pelo selo juvenil da editora Record. Posso dizer que confirmei minhas expectativas, o livro é muito bom, continua tendo um fundo histórico muito bem embasado como era de se esperar pela qualidade da autora que também é pesquisadora, mas também é uma narrativa mais simples e dinâmica.

Por que este livro é diferente de meus romances históricos? Minhas histórias de ficção baseiam-se principalmente em tudo que sabemos sobre uma pessoa real, sua vida e sua época. Este romance é baseado em quatro jovens puramente fictícios e no mundo em que vivem. Reflete a realidade histórica de seu tempo, mas naturalmente ninguém além de um herói fictício tem uma vida cotidiana tão excitante! E por que o escrevi? Escrevi este livro pelo prazer e torço para que você também goste.

Como diz a sinopse temos dois personagens que entraram para o serviço religioso sem ter um chamado divino, como era muito comum na época, ser padre ou monge era uma boa opção para famílias pobres que queriam que o filho tivesse uma vida de estudos. E no caso feminino, as mulheres tinham opções na vida, geralmente a escolha era entre se casar ou ir para o convento. Como nem sempre o pretendente no caso era favorável, ir para o convento poderia ser uma opção melhor do que ser subordinada a um mal marido. O livro traz a história de Isolde que acaba virando abadessa de um convento sem querer e Luca que apesar de estar acostumado a ser um monge, tem um pensamento livre e questionador demais para a Igreja. Assim como seu amigo, Freize, que tem o papel de fiel escudeiro, sempre ali para qualquer coisa, e que traz o tom engraçado a história com tiradas cômicas/reveladoras. Isolde também tem uma melhor amiga/irmã, Ishraq, uma jovem de origem muçulmana que é sua defensora e desafia a definição de mulher para os outros personagens, por saber se defender, ser forte além de bela e considerada herege.

Orgulhosa demais de sua posição para ser uma amada ou boa esposa de qualquer homem. Tem um pé na cova fria, como uma solteirona, pensou eu. Isso se não queimar como uma bruxa, como já sugeriram.

A inteligência de Luca apesar de não serem ideias para um monge na história servem a outro tipo de trabalho da igreja, no caso a Ordem das Trevas, que busca solucionar alguns casos misteriosos. A história se passa em 1453, uma época em que muitas respostas ainda não tinham sido dadas, quase tudo podia ser respondido com mitos ou como sendo obra do demônio. Ainda mais no mundo depois que a Igreja perde Constantinopla para o Império Otomano, segundo a autora, além do medo, as superstições eram muito fortes. Como saber se o oculto estava realmente envolvido ou se uma grande confusão ou um embuste está por trás das histórias? Philippa conduz os personagens por dois casos bem interessantes e com resoluções bem inteligentes. Por mim a história poderia até acontecer mais devagar, o caso na abadia faz lembrar o O nome da rosa de Umberto Eco, que é bem grande e descritivo. Philippa optou por uma escrita dinâmica em que não demoramos muito para obter as respostas.

O papa Nicolau V ordenou que explorássemos os mistérios, as heresias e os pecados, que os explicássemos, sempre que possível, e os derrotássemos, quando pudermos. (Trecho sobre a Ordem, a autora baseou-se na Ordem do Dragão do séc. XV.)

A sinopse promete uma atração entre Luca e Isolde e de fato ela acontece, mas Philippa escolheu tratar o romance com muita cautela, nesse primeiro livro temos só a faísca, a maior parte da trama é voltada para a resolução dos mistérios. Essa atração com pequenos passos é bem coerente se pensarmos no comportamento da época e no compromisso de Luca com a Igreja. A história é bem cativante e acabei o livro querendo mais, espeo que as continuações não demorem muito. Em inglês a autora já lançou os outros dois livros da saga: Stormbringers e Fools Good.

A autora já foi muito mencionada aqui no blog, escreveu uma série famosa sobre a Dinastia Tudor e Plantageta, confira as resenhas.

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{eu li} O Palácio da Meia Noite – Carlos Ruiz Zafón

O_PALACIO_DA_MEIANOITE_1367963947BSinopse: O Palácio da Meia-noite – Ben e Sheere são irmãos gêmeos cujos caminhos se separaram logo após o nascimento: ele passou a infância num orfanato, enquanto ela seguiu uma vida errante junto à avó, Aryami Bosé. Os dois se reencontram quando estão prestes a completar 16 anos. Junto com o grupo Chowbar Society, formado por Ben e outros seis órfãos e que se reúnem no Palácio da Meia-Noite, Ben e Sheere embarcam numa arriscada investigação para solucionar o mistério de sua trágica história. Uma idosa lhes fala do passado: um terrível acidente numa estação ferroviária, um pássaro de fogo e a maldição que ameaça destruí-los. Os meninos acabam chegando até as ruínas da velha estação ferroviária de Jheeters Gate, onde enfrentam o temível pássaro. Cada um deles será marcado pela maior aventura de sua vida.

Esse foi o segundo livro publicado pelo Zafón (1994) da Trilogia da Névoa (as histórias não dependem uma da outra, veja a resenha do primeiro livro aqui). O mote dessa história é um grupo de amigos levado a enfrentar muito cedo as dificuldades da vida e um tenebroso mistério, como geralmente são os do autor. Gostei bem mais desse livro do que do Príncipe da Névoa, dessa vez temos um mistério familiar por trás da história. Temos também alguns questionamentos sobre a sanidade e a loucura.

O livro todo é bem aventureiro: temos órfãos prestes a conhecer o mundo e deixar de lado as brincadeiras da infância e o conforto dos melhores amigos. Nos livros de Zafón a verdade sempre vem a tona, e quando parece que a narrativa vai caminhar para um final previsível temos uma virada nos fatos, coisas que estavam ali e que o leitor deixou passar. Temos um narrador personagem dessa vez, um dos membros da Chowbar Society, que teve um futuro considerado próspero resolve contar de um jeito bem saudoso a história dos amigos. Os integrantes do grupo são todos inteligentes, cada um a sua maneira e se preocupam e cuidam mesmo um dos outros. O mais legal no livro, além do mistério que envolve o passado de Ben e Sheere e que é bem interessante, é a amizade do grupo, a força dos sacrifícios (muito presente nos livros do autor) e uma história em que tudo é possível. Em que espíritos permanecem nas ruas de Calcutá (em 1916), e vários mistérios se escondem em uma cidade considerada maldita por muitos.

Ouvimos o relato de Aryami em silêncio e nenhum de nós ousou formular uma única pergunta, embora centenas delas borbulhassem em nossas mentes. Sabíamos que, afinal, todas as linhas de nosso destino confluíam para um único lugar, um encontro que esperava por nós inevitavelmente ao cair da noite nas trevas de Jheeter’s Gate.

Também está presente uma forma muita característica de narrar do autor usando muitas metáforas e jogos de palavra. E situações que beiram o irrealismo e que não precisam ser totalmente explicadas, você crê nelas conforme os personagens vão vivenciando, depende do quanto você se envolve na história. Alguns personagens com o passar do tempo podem até duvidar de que o que aconteceu com eles foi real. Há uma grande evolução do primeiro para o segundo livro da Trilogia da Névoa. Nesse livro ele desenvolveu surpreendentemente mais um número maior de personagens mesmo em poucas páginas. Fica a dúvida se os personagens secundários ão mesmo secundários. Até o final a participação de todos é relevante e ficamos mesmo preocupados com cada um.

Apoiou a testa no vidro da janela e através de seu próprio hálito adivinhou a silhueta de uma figura esbelta e imóvel que olhava diretamente para ele. Assustado, deu um passo atrás e, diante de seus olhos, o vidro da janela se estilhaçou lentamente a partir de uma rachadura que nasceu no centro da lâmina transparente e se estendeu como uma hera, uma teia de aranha de fissuras tecida por centenas de garras invisíveis. Sentiu os cabelos da nuca arrepiarem e sua respiração acelerou.

Veja as resenhas da trilogia do Cemitério dos Livros Esquecidos, publicada posteriormente, de grande sucesso. Se você gostou dessa vai amar a outra que é muito ais bem elaborada.

História

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Calcutá, 1945

As marcas históricas são sutis nesse livro e nos outros da névoa, mas situar um livro no começo do século XX, sempre trás questões como a guerra, e, nesse caso, as consequências do domínio imperialista britânico sobre a Índia. Só em 1947, depois das ações de Gandhi, que os britânicos “devolveram” a administração das regiões da Índia que governava, e reconheceu tanto a Índia como o Paquistão.

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{eu vi} Série The Casual Vacancy (Morte Súbita)

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The Casual Vacancy

Na semana passada terminei de assistir a série The Casual Vacancy (3 episódios), produzida pela BBC, baseada no livro da J.K. Rowling, no Brasil publicado como Morte Súbita. (Veja mais sobre o livro aqui). A história começa com a morte de Barry FairBrother inesperadamente aos quarenta e poucos anos, morte que faz tristeza de uns e alegrias de outros. Barry fazia parte do conselho da paróquia que decide algumas situações importantes do vilarejo de Pagford e era a pedra no sapatos de alguns moradores (o lado rico). O personagem humanista sai de cena deixando uma vaga no conselho e então a briga começa.

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Barry FairBrother (Rory Kinnear)

“A aparência idílica do vilarejo, com uma praça de paralelepípedos e uma antiga abadia, esconde uma guerra. Ricos em guerra com os pobres, adolescentes em guerra com seus pais, esposas em guerra com os maridos, professores em guerra com os alunos… Pagford não é o que parece ser à primeira vista. A vaga deixada por Barry no conselho da paróquia logo se torna o catalisador para a maior guerra já vivida pelo vilarejo”. Além de segredos revelados característicos de cidades pequenas onde todos acham que se conhecem bem, temos uma boa análise social de como as pessoas viram as costas pros mais necessitados e como o sistema não funciona.

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Nesse quesito o livro é um grande soco no estômago, já na série isso ficou bem mais atenuado por uma mudança no final e por serem apenas 3 episódios. No último a história foi um pouco espremida para caber. Assim, não foram explorados alguns dramas, como a violência doméstica que ficou na base da sugestão. Poucos personagens foram deixados de fora, mas alguns não tiveram seu potencial revelado na trama. Mas, a série ficou boa também, só perde em comparação com o livro.

A parte visual da série é incrível, tanto a caracterização dos personagens como a edição e a fotografia. Conseguiram deixar o vilarejo com um retrato bem pacífico em contraste com seus personagens. Muito diferente de Fields, o vilarejo que era o campo, mas que se tornou uma pequena “favela” e onde estão os personagens necessitados, que vão a Pagford par receber tratamentos ou deixar o filho na creche, serviços que funcionam em um lar, que os ricos da cidade personificados no casal Mollison querem transformar em um spa.

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Krystal (Abigail Lawrie)

As atuações são muito boas, grande destaque para Abigail Lawrie, que faz a Krystal, filha de uma dependente química que ao mesmo tempo é carinhosa com o irmão e dura com os outros para se proteger. Berry é interpretado por Rory Kinnear e odioso Howard Mollison pelo incrível Michael Gambon (nosso eterno DUmbledore). Os outros personagens também são bem fiéis aos do livro.

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Howard Mollison (Michael Gambon)

Dessa forma, gostei de quase tudo na série, apesar de achar que pra quem não conhece a história do livro o primeiro episódio talvez não seja tão atrativo. Mas a história é um soco no estômago e faz refletir, vale a pena conhecer e acompanhar, mesmo que nessa versão em que suavizaram muito, principalmente o final que no livro é um atropelamento em quem está lendo. Gostaria de saber porque escolheram a mudança, talvez para não deixar o final muito sombrio. Mas podiam ter apelado para a comoção que isso gera nos personagens no livro e não simplesmente tirar fora. E também terem apostado em mais episódios.

Veja mais sobre os livros que J.K. publicou com o pseudônimo Robert Galbraith: O Chamado do Cuco e O Bicho da Seda.

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{eu li} O Príncipe da Névoa – Carlos Ruiz Zafón

O_PRINCIPE_DA_NEVOA_1357683435BSinopse: Em 1943, a família do jovem Max Carver muda-se para um vilarejo no litoral, por decisão do pai, um relojoeiro e inventor. Porém, a nova casa dos Carver está cercada de mistérios. Atrás do imóvel, Max descobre um jardim abandonado, contendo uma estranha estátua e símbolos desconhecidos. Os novos moradores se sentem cada vez mais ansiosos: a irmã de Max, Alicia, tem sonhos perturbadores, enquanto a outra irmã, Irina, ouve vozes que sussurram para ela de um velho armário. Com a ajuda de Roland, um novo amigo, Max também descobre os restos de um barco que afundou há muitos anos, numa terrível tempestade. Todos a bordo morreram na ocasião, menos um homem – um engenheiro que construiu o farol no fim da praia. Enquanto os adolescentes exploram o naufrágio, investigam os mistérios e vivem um primeiro amor, um diabólico personagem surge na trama. Trata-se do Príncipe da Névoa, um ser capaz de conceder desejos a uma pessoa, ainda que, em troca, cobre um preço demasiadamente alto.

Esse livro do Zafón faz parte de um grupo de livros que ele publicou na década de noventa (chamado em alguns sites de Trilogia da Névoa), como ele mesmo definiu são livros juvenis, mas escritos para agradar a todas as idades. E poderiam ter sidos escritos por um de seus personagens presentes na trilogia do Cemitério dos Livros Esquecidos publicada posteriormente.

Os elementos presentes nas histórias de Zafón estão todos presentes: mistério, romance, aventura e um vilão maligno/demoníaco/paranormal. Depois de ler esse livro e As luzes de setembro (que falarei  aqui na semana que vem), pude perceber que ele usa nos livros um tipo de vilão parecido, com diferente história, o vilão que volta para cobrar uma dívida. São vilões que oferecem a realização de desejos e cobram um preço alto demais. Normalmente o pagamento é algo que a pessoa não pode dar ou cumprir. Um pacto perigoso que traz consequências para gerações futuras e pessoas ao redor.

É numa trama dessa que os Carver se envolvem ao buscar um novo lugar para morar. Afastados da cidade grande pela guerra, eles se mudam para uma casa de verão que carrega uma história e um passado obscuro. Obscuro porque muitas histórias são meias verdades e estão ali para enganar e proteger. E também pelo grande vilão que retorna do mar para cobrar sua dívida, um vilão que fica a espreita dos desejos alheios.

A narrativa prende, principalmente quando as verdades começam a ser descobertas. Eu me interesso mais pela história e o mistério do que pela parte de ação do livro, quando o perigo se torna palpável. Acho que essa parte acabou ficando um pouco corrida no livro que não tem 200 páginas.

Eu li esse livro depois do As luzes de setembro, e por isso achei um pouco parecido demais em alguns detalhes as duas histórias, mas por fazer parte de um grupo talvez as semelhanças tenham sido propositais. Agora estou lendo O palácio da meia-noite que é o próximo e já me parece mais elaborado do que esse. Esses livros mostram que o autor estava começando na literatura, principalmente se forem comparados com os livros que ele lançou depois. Em O Cemitério dos Livros Esquecidos ( A Sombra do Vento, O Jogo do Anjo e O Prisioneiro do Céu) o fundo histórico é mais delineado e também a forma de escrever usando de varias metáforas deixou os livros bem melhores.

Escrevi estes livros alguns anos antes da publicação de A sombra do vento. Alguns leitores mais maduros, levados pela popularidade deste último, talvez se sintam tentados a explorar essas histórias de mistério e aventura. Espero também que alguns leitores novos possam, caso apreciem a história, iniciar suas próprias aventuras na leitura pela vida afora avalia Zafón.

zafón O autor: Carlos Ruiz Zafón nasceu em 25 de setembro de 1964, em Barcelona, cenário de seus romances A sombra do vento e O jogo do anjo, mas vive desde 1993 em Los Angeles, onde trabalha como roteirista. Em 1993 ganhou o prêmio Edebé de literatura com seu primeiro romance, O Príncipe da Névoa, que vendeu mais de 150 mil exemplares na Espanha e foi traduzido em vários idiomas. Lançado originalmente em 2001, A sombra do vento vendeu mais de dez milhões de exemplares em todo o mundo. Seus livros mais recentes publicados pela Suma de Letras são Marina (2011) e O prisioneiro do céu (2012).  As suas obras foram traduzidas em mais de quarenta línguas e conquistaram numerosos prêmios e milhões de leitores nos cinco continentes.