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{Projeto Uns e Outros} Eveline – James Joyce) e A morte da mãe – Beatriz Bracher

178e8db0-e5ea-49e7-b04b-2424a45073d3Esses dois contos da vez do livro Uns e Outros (coletânea da Tag Experiências Literárias) não me tocaram tanto, e a releitura achei um pouco confusa apesar da proposta “diferentona” da autora. O post de hoje faz parte do Projeto Uns e outros (saiba mais).

No conto de James Joyce temos a jovem Eveline que concordou em fugir para se casar. Ela vive com o pai opressor, órfã de mãe, e trabalha duro para ajudar a manter a casa e cuidar dos irmãos. Eveline prometeu a mãe que cuidaria de tudo e isso é o que mais afeta suas atitudes e decisões. Ela também tem dois irmãos mais velhos, um falecido e Harry que trabalha viajando e decorando igrejas. A questão que não cala no conto é se ela vai partir ou ficar, a batalha entre permanecer entre as raízes ou procurar algo melhor.

A releitura de Beatriz Bracher traz a mesma história, mas toda fragmentada, pensamentos de um personagem aqui, conversas de outros ali. Bom para imaginar o que os outros personagens pensavam do caso, já que no de Joyce só temos os pensamentos de Eveline E ela além de ter escrito algumas partes, copiou outras de textos do próprio Joyce que são apontados no final do conto. Eu acabei achando um pouco desconexo e complicado de entender, apesar de ela ter achado algumas passagens que realmente pareciam falar dos personagens do conto. Talvez alguém que goste muito dos livros do Joyce, eu ainda não li nenhum, goste muito da experiência (ou não rs).

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James Joyce (1882-1941) – Irlandês, revolucionou a estrutura narrativa da ficção ao publicar, 1922, o romance Ulisses, no qual utiliza, com radicalidade, o fluxo de consciência. Seus contos estão reunidos em Dublinenses.

 

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Beatriz Bracher – Nasceu em 1961, publicou os romances Azul e dura (2002), Não falei (2004), Antonio (2007), Anatomia do paraíso (2015) e outros livros de contos, todos pela Editora 34.  Também escreveu contribuiu para roteiros cinematográficos.

Ainda não conhece o projeto? Estou lendo em conjunto com os blogs Ponto para Ler,  Leitora Sempre e Jeniffer Geraldine os contos do livro Uns e Outros publicado pela Tag Experiências Literárias (um clube de livros por assinatura, saiba mais clicando aqui). Os encontros trazem contos clássicos já publicados com releituras de autores de língua portuguesa, nós sorteamos a ordem e montamos um calendário para cada blog (entenda melhor sobre o projeto). Sorteamos um exemplar do livro e a gamhadora foi Rudynalva Correia Soares.

No próximo sábado falaremos sobre os contos Os desastres de Sofia (Clarice Lispector) e Simplício (Eliane Brum).

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{Projeto Uns e Outros} Enganos com Guy de Maupassant e Maria Valéria Rezende

178e8db0-e5ea-49e7-b04b-2424a45073d3Oi pessoal! De volta com o Projeto Uns e Outros (saiba mais aqui – últimos dias para participar do sorteio) vou falar hoje sobre os contos: O colar de Guy de Maupassant e Um simples engano de Maria Valéria Rezende. A proposta desses contos que estão no livro Uns e Outros da Tag Experiências Literárias é que o autor contemporâneo faça um conto espelhado, uma espécie de releitura livre de um conto já conhecido. Gostei muito de como Maria Valéria Rezende tratou o tema, situando o no nosso cenário de desigualdade social.

Antes falando de O colar: nele conhecemos um jovem que apesar de bela é pobre, então que não adianta ter grandes aspirações e  se contenta em casar com um escriturário. Vive bem infeliz apesar de o marido fazer tudo para que ela seja fique bem. Ela não se contenta com a vida que tem, gostaria de ter muito mais, é uma personagem fútil. E um dia o marido consegue que eles sejam convidados para um grande baile, ela consegue que ele gaste as economias com um vestido e pede uma joia emprestada a uma amiga rica. É o que acontece depois do baile que os faz descer mais de classe social, ensina a esposa que as coisas podem ficar muito piores. Que ela devia ser grata pela vida que tinha antes e tudo o mais. Mas o final também ensina como a desigualdade social é cruel, como bem materiais podem significar sonhos para uns e para outros que já vivem de forma rica não é nada demais.

E gostei muito que Maria Valéria conseguiu manter isso, numa realidade bem mais próxima de nós. No conto dela conhecemos Matilde, que mora no morro e sonha sair dele. Escolhe o marido que tem mais chance de sair dessa vida também, alguém que mora quase no asfalto e é branco como ela. Isso é bem enfatizado. Ele trabalha como telemarketing e ela como manicure, os dois aos pouquinhos vão crescendo, ele na faculdade e ela fazendo a unha de forma exclusiva para pessoas ricas. Mas ela também nunca está feliz.

Quando ele se forma e vai subindo de cargo na empresa também surge uma festa. E o cenário se repete, dessa vez o que é tomado emprestado é um carro. E mais uma vez temos um engano anunciado. Gostei que aqui não é só a mulher que é deslumbrada pelo luxo, o marido também tem sua parcela de culpa na história. E de novo a desigualdade social, o sonho ligado ao consumo e a diferença dos valores é esfregada na nossa cara.

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Henry René Albert Guy de Maupassant foi escritor, poeta e um dos maiores contistas de todos os tempos. Sua obra é conhecida por retratar situações psicológicas e fazer crítica social com técnica naturalista. Entre 1875 e 1885, produziu a maior parte de seus romances e contos. Escreveu pelo menos 300 histórias curtas, muitas das quais algumas se tornaram mundialmente conhecidas, como Bola de Sebo, O Colar, Uma Aventura Parisiense, Mademoiselle Fifi, Miss Harriett e O Horla.  Rico e famoso, ele teve muitos casos amorosos, mas a sífilis o atormentou por mais de uma década, ocasionando-lhe pesadelos, angústia e de alucinações. Em 1892, Guy de Maupassant tentou o suicídio. Morreu, porém, no ano seguinte, em um manicômio, aos 43 anos de idade, em consequência de complicações da sífilis. (saiba mais)

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Maria Valéria Rezende –  Nasceu em 1942, em Santos (SP). Dedica-se desde 1960 à educação popular. Vive na Paraíba desde 1976. Seu primeiro livro de ficção, Vasto Mundo, é de 2001, seguidos dos romances O coo do guará vermelha (traduzido em vários países). Quarenta dias (Prêmio Jabuti de 2015, romance e melhor livro de ficção), Outros cantos ( Prêmio Cada se las Américas 2017). Também recebeu o Prêmio Jabuti em 2009 (infantil: No risco do caracol ) em 2013 (juvenil: Outro dentro da cabeça).

Não conhece o projeto? Estou lendo em conjunto com os blogs Ponto para Ler,  Leitora Sempre e Jeniffer Geraldine os contos do livro Uns e Outros publicado pela Tag Experiências Literárias (um clube de livros por assinatura, saiba mais clicando aqui). Os contros trazem contos clássicos já publicados com releituras de autores de língua portuguesa, nós sorteamos a ordem e montamos um calendário para cada blog (entenda melhor sobre o projeto). E tá rolando sorteio do livro, participe até amanhã, dia 11/02 (clique aqui para o formulário).

No próximo sábado falaremos sobre Eveline (James Joyce) e A morte da mãe (Beatriz Bracher).

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{Projeto Uns e Outros} Negrinha! – Monteiro Lobato + Ana Maria Gonçalvez

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Ah essa dupla de contos foi a que mais gostei até agora no Uns e Outros – Contos Espelhados! Ana Maria Gonçalvez pegou um conto que retrata a situação das pessoas negras na época em que a escravidão acabou escrito por Monteiro Lobato e trouxe para o nosso contexto atual. Nos dois contos obviamente temos situações de preconceito, infelizmente bem reais.

Primeiro vemos uma órfã no conto Negrinha de Monteiro Lobato que fica esquecida na casa de uma antiga dona de escravos, considerada pilar da sociedade, que por mais que a escravidão tenha acabado mantém o “vício” de agredir a criança negra presente na casa.  A menina passa por castigos horrorosos e é saco de pancadas. E quando tem um vislumbre de ser criança e de ter uma identidade isso muda completamente o rumo das coisas.

Já no conto de Ana Maria, Negrinha! Negrinha! Negrinha! o contexto de conflito é a escola, no começo não sabemos muito bem o que aconteceu, só que a filha adotiva de um casal branco sofreu alguma forma de preconceito pelas “amigas” dentro do colégio caro.  Mas vamos descobrindo os detalhes aos poucos. Ela só conseguiu contar para a madrinha que também é negra e isso gera uma série de questionamentos dos pais, é claro que a reação da escola é de que tudo foi uma travessura de criança. Os próprios pais não sabem bem como lidar, se aceitam uma medida branda ou se cobram algo mais rígido. E de porque a filha cuidada com tanto carinho aceitou isso mesmo eles tentando esclarecê-la e dar exemplos. E principalmente porque ela não contou para eles. Vemos como ainda é difícil lutar contra o preconceito mesmo que você ache ele errado e/ou queira proteger alguém que você ama.

A discriminação racial é crime, mas o que fazer quando são crianças que cometem atos preconceituosos? Porque na verdade elas são um sintoma da sociedade, se elas se sentem superiores a outras pessoas pela cor ou pelo que for isso não foi gerado nelas sozinho. E isso infelizmente acontece nas escolas sem uma grande medida ser tomada por parte dos educadores, é claro que acredito que tenham escolas mais avançadas nisso, mas não que seja a maioria. E o próprio número de crianças negras nas escolas particulares caras é exemplo da desigualdade racial que acontece em nosso pais. É um conto que consegue ser uma amostra do que acontece e do preconceito racial, e que por ele podemos discutir vários aspectos disso. Foi o melhor conto dos espelhados para mim até agora.

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Ana Maria Gonçalves – Nasceu em Ibiá (MG), em 1970. Trabalhou com publicidade até 2001, quando se mudou para a Ilha de Itaparica e escreveu Ao lado e à margem do que sentes por mim e Um defeito de cor (Editora Record), ganhador do prêmio Casa de las Americas (Cuba, 2007). Já publicou em Portugal, na Itália e nos Estados Unidos,onde ministrou cursos e palestras sobre relações raciais e fez residência em universidades como Tulane, Standford e Middlebury. Mora em São Paulo, onde escreve também para teatro, cinema e televisão.

Ainda não conhece o projeto? Estou lendo em conjunto com os blogs Ponto para Ler,  Leitora Sempre e Jeniffer Geraldine os contos do livro Uns e Outros publicado pela Tag Experiências Literárias (um clube de livros por assinatura, saiba mais clicando aqui). Os contros trazem contos clássicos já publicados com releituras de autores de língua portuguesa, nós sorteamos a ordem e montamos um calendário para cada blog (entenda melhor sobre o projeto). E tá rolando sorteio do livro, participe até o dia 11/02 (clique aqui para o formulário).

No próximo sábado falaremos sobre O colar de Guy de Maupassant e Um simples engano de Maria Valéria Rezende.

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{Projeto Uns e Outros} Um homem célebre – Machado de Assis + José Luís Peixoto

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Estamos de volta com o Projeto Uns e Outros (saiba mais e não perca o sorteio!) para falar de dois contos com o mesmo nome Um homem célebre, o primeiro escrito por Machado de Assis de 1883 e o conto espelhado feito por José Luís Peixoto.

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José Luís Peixoto nasceu em Galveias, Portugal, em 1974. A sua obra abrange vários gêneros, da narrativa ao teatro, do romance à poesia, e foi distinguida com diversos prêmios literários, como o Prêmio José Saramago e o Prêmio Oceanos. os seus livros estão traduzidos e publicados em 26 idiomas. (fonte: Uns e Outros)

 

Ambos os contos mostram uma angústia relacionada a fama mas de formas opostas com personagens do mesmo nome: em quanto o músico Pestana do primeiro conto quer criar uma obra prima e se incomoda com a fama vinda de polcas que ele considera banais, apesar do sucesso de suas criações, o segundo é um escritor que quer a fama a qualquer custo.

O Pestana músico apesar de ter esse sonho, seu sonho é de realmente criar e não apenas parecer bom. Já o Pestana escritor irrita o leitor, ele acha que tem um modelo bem estereotipado de como um escritor deve parecer e é extremamente preocupado com isso. É um personagem que acredita que a aparência é tudo, e também tem seu próprio talento em alta conta.

O primeiro conto é mais gostoso de ler e bem escrito, mas não tem grandes surpresas. Imagino que tenha sido um desafio e tanto fazer um conto espelhado de Machado, nome tão importante para a literatura brasileira e mundial, acho que José Luís Peixoto cumpriu bem seu papel. Nunca tinha lido nada do autor e não foi o suficiente para eu ter uma opinião a respeito de sua escrita, mas ele ousou criticar um tipo de personagem que existe em seu próprio meio. E ainda lançou mão no final de um narrador/autor que ao conversar com o personagem cria um segundo que questiona o que de si está representado no conto. Bem interessante!

Machado de Assis é tão importante que há mais 2 contos dele no livro, conversaremos em breve. No Sábado o post trará minhas impressões sobre Negrinha de Monteiro Lobato e o conto espelhado Negrinha! Negrinha! Negrinha! de Ana Maria Gonçalves.

Confira também os blogs que também estão nesse projeto de leitura: Ponto para Ler,  Leitora Sempre e Jeniffer Geraldine.

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Laranja mecânica + Fahrenheit 451

Há algumas distopias clássicas que venho buscando ler, Fahrenheit 451 estava na lista há bastante tempo, pois sempre ouvi comentários maravilhosos e menções a obra. Laranja mecânica também, mas houve um empurrãozinho do grupo de leitura Pacto Literário no mês de Novembro (clique aqui e veja o grupo no facebook). No começo de 2017 eu também li Admirável Mundo Novo do Aldous Huxley, e não poderia deixar de mencionar  aqui O Conto da Aia da Margaret Atwood (assistam a série também). Ainda tá me faltando ler algo do George Orwell, preciso adquirir 1984.

> Também tem vídeo no canal sobre os dois livros, clique aqui para assistir.

Todos esses livros são excelentes e necessários, nos dão aquela sacudida de que precisamos ficar atentos a nossa realidade, ir sempre contra qualquer forma de fanatismo, cerceamento da liberdade, opressão das opiniões individuais. Os discursos de quem quer controlar o mundo ao seu bel prazer é sempre convidativo: “mais segurança e mais ordem, a culpa é dessa bagunça, desse caos, dessa falta de moral…”. Não engulam essa! Leiam esses livros e vejam no que esse papinho pode dar.

Vou começar falando de Laranja Mecânica do Anthony Burgess, que é um leitura desafiadora no começo com sua ultraviolência. Ao conhecermos o personagem Alex topamos com um adolescente que se diverte cometendo crimes e atos extremamente violentos, foi a parte do livro que eu fiquei ansiosa para que acabasse logo, queria já saber no que aquilo ia dar e qual o remédio para isso. As partes chocam, a maldade choca, mesmo tendo um tom de humor com todas as gírias e a ambientação meio futurista, e mesmo que os atos de violência não seja nada que não aconteça na nossa sociedade gera um incômodo. Talvez por estar tudo canalizado em Alex e sua gangue.

E o desfecho não é o que eu imaginava, o autor traz ao debate até onde o controle sobre o homem e a manipulação dele pode ser feita para acabarmos com a violência, sem toparmos com um regime totalitário. Não dá para concordar com o método usado no livro, embora eu não consiga perdoar Alex facilmente, cada pessoa precisa ter suas escolhas de pensamento.  É um livro que te desafia o tempo todo. O filme também é muito bom, com um jeito de caricatura, com cenas bem absurdas baseadas no livro, é bem fiel a ele.

A linguagem é outra coisa bem peculiar do livro, temos todo um vocabulário, com direito a glossário no fim. Eu comecei consultando e acabei parando, com o tempo você pega o jeito e fica tudo horrorshow! As palavras que mais tive dificuldade de gravar foram as partes do corpo, mas também onde exatamente a pessoa foi atingida nem é nada muito importante. hahahah

Agora mudando para Fahrenheit 451 do Ray Bradbury, esse livro afeta diretamente a nós que amamos ler, porque todos os livros foram queimados e quem ainda tem é denunciado e a fogueira é armada como um circo. O prefácio do livro é bem interessante e relaciona ele com outras distopias que falei no começo do texto, mas ele conta o final! Então se você não gosta de spoiler leia a história primeiro.

A denúncia que esse livro faz é de que a maioria topou essa caça aos livros, a desculpa é que eles incomodavam uns e outros, cada minoria se incomodava com alguma coisa por conta deles. Para mim os melhores livros são os que nos incomodam mesmo, mas no livro isso não é visto dessa forma pela sociedade. Então, fogo neles!

As pessoas passam o dia sobre o poder de narcóticos ou ligadas em televisões que só passam conteúdos que também tem esse efeito. As pessoas não conversam mais, não discutem mais, só vegetam. (Isso também acontece em Admirável Mundo Novo em que há essa presença das drogas e de conteúdos extremamente sensoriais, veja a resenha depois clicando aqui.) E sentem que são felizes assim, a maioria não quer ser incomodada. E enquanto isso a guerra rola, aviões de guerra sobrevoam e ninguém se incomoda. O livro denúncia o poder da leitura, e como não acreditar no comodismo das pessoas, se cerca de 44% da população brasileira não lê e 30% nunca comprou um livro.

Os bombeiros raramente são necessários. O próprio público deixou de ler por decisão própria. Vocês, bombeiros, de vez em quando garantem um circo no qual multidões se juntam para ver a bela chama de prédios incendiados, mas, na verdade é um espetáculo secundário, e dificilmente necessário para manter a ordem. São muito poucos os que ainda querem se rebelar.

Ironicamente os responsáveis pela queima dos livros são os bombeiros, no enredo as casas são feitas de materiais que não pegam fogo então eles assumem essa nova função. O personagem principal, Montag, é um deles até que conhece uma garota diferente, que quer conversar, observar a natureza, e o interpela na rua. Depois disso ele vai perceber como na verdade vive uma vida infeliz, com uma mulher catatônica e o absurdo de queimar livros e pessoas que resistem junto. Então ele resolve mudar e até arranja um aliado, mas não pense que as coisas vão ser fáceis a partir daí e teremos um herói que simplesmente derrubará o sistema, como nos apresentam nas distopias atuais, que criticam mas também amenizam um pouco. A questão é bem complicada e permanece complicada até o final para Montag, apesar de uma solução demorada ser apresentada por outros sobreviventes. Os embates intelectuais entre Monstag, seu chefe e o amigo que também ama livros são as melhores partes.

Essa pra mim foi uma leitura que não flui tão bem, fiz aquela forcinha para terminar logo. Lógico que fiquei admirada com todas as questões levantadas e com os paralelos que podemos tirar disso na situação atual (a história até se passa mais ou menos na nossa época), mas não consegui me conectar tanto quanto gostaria com os personagens.

O que interessa aqui, porém é frisar a singularidade da distopia de Bradbury. Pois enquanto Huxley e Orwell escrevram seus livros sob o impacto dos regimes totalitários (nazismo e stalinismo), Bradbury percebe o nascimento de uma forma mais sutil de totalitarismo: a indústria cultural, a sociedade de consumo e seu corolário ético _ a moral do senso comum. (Manuel da Costa Pinto, prefácio do livro, pg 15.)

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