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{euLi} A sangue frio – Truman Capote #SETEMBROPOLICIAL

a_sangue_frio_1384353147bSinopse: Um homem religioso, uma mãe depressiva, um adolescente, uma garota dona de casa, um cachorro amedrontado e dois ladrões frustrados. Esses e outros personagens são os ingredientes chave para o romance jornalístico A sangue frio, de Truman Capote. O livro é uma reportagem investigativa sobre o assassinato de quatro membros da família Clutter, o casal e seus dois filhos caçulas, ocorrido em 1959 na cidade de Holcomb, no Kansas, Estados Unidos.

Resenha em vídeo no final do post, confira também nosso canal.

Oi pessoal! Hoje vamos falar sobre um livro incrível, o penúltimo da minha meta de #SETEMBROPOLICIAL. Estamos chegando ao fim de setembro e eu adorei as leituras que fiz, espero que vocês também tenham gostado. Amanhã (29) é o último dia para vocês participarem do nosso super sorteio.

A sangue frio é um livro de não ficção, um dos grandes nomes quando se fala em jornalismo literário. “O jornalismo é fato da realidade. A literatura, da realidade somada à ficção. O jornalismo literário, logo, é uma miscelânea de ambos. Cumpre a missão de informar, preservando a essência jornalística, porém com ganho em vocabulário, estrutura narrativa e aprofundamento de conteúdo. Esse trinômio alicerça e ornamenta o texto que é levado ao leitor” (Observatório da Imprensa). Truman Capote chegou a dizer que estava inaugurando um novo gênero, mas se sabe que o jornalismo literário já existia antes dele, talvez ainda não com tanta profundidade. E não há quem fale de jornalismo literário sem falar desse livro, eu ouvi muito sobre na faculdade e já queria ler há bastante tempo. “Ele não foi pioneiro, mas foi o primeiro na era moderna a jogar luz sobre essas técnicas. Outros escritores acabaram seguindo o exemplo” (Gerald Clarke, biógrafo de Capote).

No livro não percebemos Truman, ele como personagem não aparece, na busca pela objetividade jornalística o autor não declara suas impressões escancaradamente. Mas é claro que a subjetividade está ali na forma de contar e no olhar do autor sobre a história. E que história seria essa? O assassinato da  família Clutter, o casal e seus dois filhos caçulas, Nancy (16) e Kenyon (15), ocorrido em 1959 na cidade de Holcomb, no Kansas, Estados Unidos, que abalou a cidade. A família era considerada queria e perfeita pela maioria, o Sr. Clutter um líder na comunidade, Nancy a menina que ajuda a todos, o único abalo é os problemas psicológicos da inofensiva mãe de família. Quem os mataria? Porque motivo?

Acompanhamos no começo do livro um pouco da história da família, seus amigos próximos e parentes. E ao mesmo tempo a história dos assassinos, o encontro entre eles e o rumo do assassinato. Até os dois pontos convergirem no crime brutal. Mas qual foi a motivação desses dois ladrões? Dinheiro? Capote teve a oportunidade de conversar e ficar amigo de Perry Smith e Dick Hickcock, mais do primeiro, um cara com uma história de vida conturbada, uma infância horrível, alguém com quem o escritor acabou se identificando. No livro a visão sobre os vilões é bem humanizada, o que mexe muito com o leitor, eu não consigo perdoar o que eles fizeram, mas acabei olhando para a história com uma visão bem ampla.

 Os assassinos são condenados a pena de morte, que no Kansas da época significava enforcamento. A parte do tribunal e o fato deles terem ou não problemas psicológicos levanta várias discussões sobre a justiça desse tipo de pena. Na época, no Kansas, havia também prisão perpétua mas com possibilidade de condicional em 15 anos. Seria justo eles serem condenados com possibilidade de serem soltos em 15 anos? Seria justo a pena de morte para alguém como Perry? Muitas questões fazem a cabeça do leitor girar. O próprio Capote ficou muito abalado com a execução dos assassinos e tentou ajudá-los.

Além das entrevistas com os assassinos, o autor entrevistou incessantemente e sem gravador ou anotações a maior parte dos moradores e dos investigadores envolvidos. Vemos a angústia da população, o medo de que algo aconteça novamente, a desconfiança de que alguém da própria comunidade esteja envolvido antes da verdade ser descoberta. A desconfiança com um motivo tão banal levaria uma família tão querida. A garra e o trabalho duro dos policiais tentando descobrir e pegar os criminosos. A mudança na sociedade local depois do crime é bem escrita e muito interessante. Capote era amigo de infância da autora de O sol é para todos, Haper Lee, e ela não só viajou com ele para o Kansas como ajudou a convencer as pessoas a falarem com ele. Truman era uma figura bem diferente dos moradores do interior e ela facilitou o contato.

Foi tudo verdade? Capote com certeza teve a licença poética de mudar falas e até algumas cenas, no fim do livro há um posfácil de Matinas Suzuki Jr. que discute isso. O livro recebeu várias críticas de que nem tudo aconteceu daquela forma, alguns moradores não gostaram de como foram retratados. Já outros acharam que ele alcançou mais do que eles disseram mas o que queriam realmente dizer. Não dá para levar o livro totalmente ao pé da letra, mas o que aconteceu acredito que esteja muito bem representado. Para mim o autor montou um livro que também interessasse o público como um romance e não necessariamente como uma reportagem, então teve a liberdade de adaptar situações.

Um autor Philip K. Tompkins, dedicou-se a pesquisar discrepâncias entre passagens do livro e o que ele diz ter apurado como fatos reais. No seu artigo “In cold fact” (“A fato frio”), ele conclui que Capote pôs suas próprias observações na boca e na cabeça dos personagens, e, para piorar, criou um retrato irreal e românico do assassino Perry Smith _ o qual o crítico Harold Bloom, que alega ficar deprimidos com a “imaginativa sublimação da identificação de Capote com os assassinos”, afirma ser o “demônio ou outro eu de Capote. (Posfácio)

É um livro que cada leitor deve tirar suas próprias conclusões a respeito disso. Capote esperou os quase seis anos entre a condenação e a execução dos assassinos, porque precisava de um desfecho para o seu livro. Primeiro a história saiu serializada na revista The New Yorker, em 1965, e só depois em livro.

p90443_p_v8_aaO filme Capote (2005) retrata os bastidores da apuração e escrita do livro: como a história mexeu com o autor, a ajuda da Haper Lee, todo o processo. É um filme excelente para conhecer mais sobre a personalidade e vida de Capote, tem um clima bem sombrio e sério, apesar de mostrar também que ele era famoso e frequentava várias festas. Quem interpretou o escritor, de forma brilhante, foi o ator Philip Hoffman (que faleceu aos 46 anos durante as gravações da parte 2 de Jogos Vorazes A Esperança). O filme foi baseado na biografia escrita por Gerald Clarke que conviveu com Capote, em entrevista ao Correio Braziliense ele fala da fidelidade do filme ao livro:

O filme foi fiel ao livro? Chegou a trabalhar diretamente com Philip Seymour Hoffman?
O filme foi, na maior parte, leal ao livro, mas houve algumas licenças poéticas. No longa, por exemplo, Perry Smith encara uma greve de fome e Truman o alimenta com papinhas de bebês para mantê-lo vivo. Perry, realmente, passou por uma greve de fome, mas Truman estava na Suíça na época. Eventualmente, eu conversava com Philip. Dei-lhe minhas fitas com as gravações das entrevistas com Truman, para que ele pudesse encontrar o tom ideal para fazer a voz. Philip fez um trabalho memorável. Na vida real, nem se parecia com Truman, mas quando o vi nas telas… Parecia que eu estava assistindo ao próprio Truman. (Correio Braziliense)

downloadCapote, cujo verdadeiro nome era Truman Streckfus Persons (ele adotou o nome do padrasto), começou a sua carreira em 1940 como colunista social numa revista nova-iorquina. Seu primeiro livro foi Breakfast at Tiffany’s (Bonequinha de Luxo no Brasil) publicado em 1958, que foi levado às telas em 1961, com Audrey Hepburn. Se fosse vivo, Truman Capote faria aniversário esse mês. Nasceu em Nova Orleães, nos Estados Unidos, a 30 de setembro de 1924. E morreu aos 60 em 1984 devido a problemas agravados pelo alcoolismo. Eu ainda não li a biografia do autor, no filme ele fala que a mãe se suicidou e que ele teve uma criação bem conturbada. Talvez por isso a grande identificação com Perry.

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{euLi} Casos de Dupin – Edgar Allan Poe #SETEMBROPOLICIAL

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Primeiras histórias do #SETEMBROPOLICIAL o/. Se você não sabe do que estou falando assista esse vídeo aqui. Decidi ler o conto que é considerado a base do romance policial, Assassinatos na Rua Morgue de Edgar Allan Poe. Nesse conto Poe cria o primeiro detetive do gênero Chevalier C. Auguste Dupin que também aparece em outros dois contos: O mistério de Marie Rogêt e A carta roubada. Falaremos dessa “trilogia” hoje, como podem ver eu tenho os contos em dois livros da L&PM e um da Companhia de Bolso. O que tem o terceiro é o Histórias Extraordinárias, eu já tinha até lido mas não me lembrava.

Criando Dupin (em 1841), que não trabalha como detetive, mas tem uma capacidade de dedução elevada, Poe também cria o amigo (menos inteligente) e narrador (e que escreve o conto) companheiro de aventuras. Conan Doyle, Agatha Christie e vários outros beberam dessa fonte no futuro.

Assassinatos na Rua Morgue

O conto começa com o narrador falando bastante sobre a capacidade analítica e fazendo uma grande introdução sobre o assunto. Ele vai comparar vários jogos que precisam de uma ente organizada, como xadrez e dama e defendendo que a dama precisa de mais capacidade do que o xadrez. E também vai falar do Whist. Achei um pouco longa essa parte. Depois ele apresenta como surgiu a amizade com o nobre mas pobre Dupin em uma biblioteca e como foram morar juntos.

A vida deles nesse começo é noturna e de isolamento, ficam conversando e saindo de madrugada para observar. É aí que acontece uma das cenas famosas em que Dupin “lê” os pensamentos do amigo. (Isso chega a ser citado por Sherlock Holmes). E é lendo um jornal que os amigos topam com o assassinato de mãe e filha moradoras da Rua Morgue. As duas foram brutalmente assassinadas, os vizinhos ouviram os gritos, mas chegaram tarde. Fica a grande dúvida de como o assassino saiu, aparentemente não tinha como e porque teria enfiado uma delas na chaminé e jogado a outra pela janela e um pátio, sem roubar nada. O mistério também gira em torno dos depoimentos, todos ouviram duas vozes, mas cada um acha que falava em uma língua e num tom diferente. Dupin vai até lá por conta própria investigar e mata o caso com uma resolução inesperada. Achei um começo bem ousado de Poe.

O mistério de Marie Rogêt

Esse conto, segundo a L&PM, foi baseado em um caso real que aconteceu nos Estados Unidos em 1841 com Mary Rogers que foi encontrada no rio Hudson. Poe levou a história para Paris, a edição é cheia de notinhas sobre o caso real. Esse mistério é do tipo cheio de reviravoltas e com muita influência dos jornais que tecem várias teorias. E é com base nessas teorias que Dupin vai refutar ou levantar cada detalhe. A explicação é bem técnica e bem mais longa que o anterior, achei que ficou um pouquinho cansativo.

Contudo a experiência mostra, como o pensamento racional sempre mostrará, que grande parte da verdade, senão a maior parte dela, surge daquilo que aparentemente é irrelevante.

A carta roubada

Na terceira aparição de Dupin e seu amigo (não, ele não tem nome), eles estão meditando na biblioteca e chega o comissário da polícia, que eles chamam só de G. com um caso esquisito. Documentos roubados dos apartamentos reais por um ministro, sabem que é o ladrão mas o medo de que os documentos incriminadores sejam revelados fica de mãos atadas. a carta provavelmente está no palacete do ministro, mas após uma busca minuciosa G. nada encontrou. Depois de procurar de novo, consulta novamente Dupin que após receber um grande incentivo financeiro surpreende o amigo e o policial.

E a identificação – disse eu – do intelecto do raciocinador com o do seu oponente depende, se o entendi corretamente, d exatidão com que o intelecto do oponente é avaliado.

Durante a explicação de como resolveu tudo ao amigo, Dupin explica que G. pensa somente nas habilidade que ele mesmo teria para esconder a carta. E quando o malfeitor é diferente da deles, tanto para mais quanto para menos, eles não entendem. É essa a vantagem de Dupin, que além de tudo já conhecia o ministro.

As explicações são bem elaboradas, ricas em exemplos e as vezes difíceis de compreender de primeira. Lembrando que é um conto de 1844, é claro que a leitura de Sherlock que é de mais de 40 anos depois seria mais fácil. Mas Poe é muito rico nos detalhes e vale apena conhecer esse pai do romance policial, muito culto, cujas explicações giram em torno de várias áreas da ciência.

E então? Curtiu o primeiro post do mês policial? Confira também nos outros blogs que estão participando. E participe do sorteio do Kit Agatha Christie (saiba mais)!

Participantes do #SETEMBROPOLICIAL:
Dicas da Isa
Amante dos livros
Gaveta Alternativa
Ponto para ler
Literatura Policial
Jennifer Geraldine
Plataforma 9 3/4
Preguiça Literária
Tito Prates

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{eu li} Precisamos falar sobre o Kevin – Lionel Shriver

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Como diz o apropriado nome, precisamos falar sobre esse livro! Essa história me despertou tantas emoções conflitantes que quero dizer mais do que sei explicar na verdade. E ao mesmo tempo não quero contar algumas surpresas…Então essa resenha dá algum trabalho rsrs Vou por a sinopse primeiro pra quem não conhece a história já saber o que lhe aguarda.

Para assistir o vídeo sobre o livro clique aqui.

Sinopse: Lionel Shriver realiza uma espécie de genealogia do assassínio ao criar na ficção uma chacina similar a tantas provocadas por jovens em escolas americanas. Aos 15 anos, o personagem Kevin mata 11 pessoas, entre colegas no colégio e familiares. Enquanto ele cumpre pena, a mãe Eva amarga a monstruosidade do filho. Entre culpa e solidão, ela apenas sobrevive. A vida normal se esvai no escândalo, no pagamento dos advogados, nos olhares sociais tortos. Transposto o primeiro estágio da perplexidade, um ano e oito meses depois, ela dá início a uma correspondência com o marido, único interlocutor capaz de entender a tragédia, apesar de ausente. Cada carta é uma ode e uma desconstrução do amor. Não sobra uma só emoção inaudita no relato da mulher de ascendência armênia, até então uma bem-sucedida autora de guias de viagem. Cada interstício do histórico familiar é flagrado: o casal se apaixona; ele quer filhos, ela não. Kevin é um menino entediado e cruel empenhado em aterrorizar babás e vizinhos. Eva tenta cumprir mecanicamente os ritos maternos, até que nasce uma filha realmente querida. A essa altura, as relações familiares já estão viciadas. Contudo, é à mãe que resta a tarefa de visitar o “sociopata inatingível” que ela gerou, numa casa de correção para menores. Orgulhoso da fama de bandido notório, ele não a recebe bem de início, mas ela insiste nos encontros quinzenais. Por meio de Eva, Lionel Shriver quebra o silêncio que costuma se impor após esse tipo de drama e expõe o indizível sobre as frágeis nuances das relações entre pais e filhos num romance irretocável.

O que você faria? Essa é uma das grandes perguntas que ficou na minha cabeça sem resposta lendo esse livro, me coloquei no lugar de Eva e não sei, essa é, definitivamente, uma situação que só sabe quem está vivendo e que ninguém pode desejar. A história é toda contada através de cartas de Eva para o marido, não poderia haver um jeito mais íntimo, chega a ser um pouco incômodo, como se você não devesse estar lendo aquilo ali, pois Eva explica todas as suas emoções, desde o casamento ao dia fatídico. Tudo que passou: como engravidou um tanto na dúvida do que estava fazendo, a falta de sentimento (que esperava como um milagre maternal e não veio), a depressão pós parto, a rixa com o filho impossível de lidar, o amor pela segunda filha, a perda, e o julgamento criminal e social que passou. Intercalando com os relato das tentativas de dialogar com Kevin durante as visitas. A história soa tão real que assusta.

Posso não saber como chamar aquilo, aquela quinta-feira: atrocidade parece coisa tirada d jornal, incidente é minimizar de forma escandalosa, quase obscena, o que houve, e o dia em que nosso filho cometeu assassinato em massa é comprido demais para cada menção que eu fizer, certo? E eu vou fazer. Acordo com isso na cabeça todas as manhãs e durmo com isso todas as manhãs e durmo comisso todas as noites.

Por quê? É claro que Eva gostaria de saber o porquê, e ela vai tentando explica da melhor maneira que pode como as coisas foram acontecendo. Ela e Kevin nunca se entenderam, na verdade é como se só ela visse Kevin como ele é, um menino que nunca teve curiosidade com o mundo, inteligente, que não consegue ver razão na nossa existência e nem gostar e ter afeto por ninguém. Aos poucos vemos como Franklin, o pai, nunca o viu dessa maneira, e viveu uma espécie de teatro com o filho. Em muitos momentos fiquei com raiva dos dois, Franklin me irritou pela cegueira e Eva pelo arrependimento de ser mãe logo após o parto. Eu sei que a depressão é algo bem sério, mas Eva aceitou que Kevin fazia tudo para lhe tirar do sério desde muito novinho, e também que ele lia em sua cara que ela não o amava e a rejeitava de volta. Muito complicado, pensar isso sobre um bebê. Imagine!? Mas ela está longe de ser um monstro, ela é super sincera e sofreu muito. Não pode contar com ninguém, sua presença se tornou um incomodo para a própria família e fora lidar com a imprensa e os tribunais.

Você via a criança como uma criatura parcial, uma forma mais simples de vida, que evoluía até a complexidade da idade adulta diante dos olhos de todos. Mas, desde o momento em que foi posto em meu peito, enxerguei Kevin Khatchadourian como preexistente, alguém com uma vasta vida interior flutuante, cuja sutileza e intensidade diminuiriam com a idade.

Tenho uma teoria segundo a qual é possível situar a maioria das pessoas num espectro rudimentar de preferência e talvez seja com a posição ocupada nessa escala que todos os seus atributos se relacionem: exatamente o quanto elas gostam de estar aqui, de estar vivas, apenas. Acho que Kevin odiava. Acho que ele estava fora dessa escala, ele odiava completamente estar aqui. Talvez tenha até guardado vestígios de uma memória espiritual, de tempos pré-concepção; Kevin sentia muito mais falta do nada glorioso do que do meu útero. Parecia se sentir furioso por ninguém tê-lo consultado ara ver se queria mesmo acabar num berço, com o tempo escoando sem parar quando nada, absolutamente nadada, o interessava ali naquele berço.

Eva sabe ser bem dura mesmo, franca demais? Lembre de que ela se dirige ao marido, não ao leitor, e de tudo o que ela passou…Essa é sua única terapia. São tantas citações que marquei no kobo e quero por aqui! Mas vou tentar me conter um pouco. Conforme vamos lendo o livro vai crescendo quase uma curiosidade mórbida por detalhes, saber quantos ele matou, como matou, como escolheu, e os planos e mortes apesar de permearem todo o livro, foram discutidos mas para o final do livro. O que foi curioso, porque parecia que todo mundo sabia (os personagens do universo) menos eu. E os detalhes e entender o porque me manteram presos a história até o final. Tanta crueldade e maldade tem explicação? Kevin tem problemas? Tem seus motivos? Até onde vai a culpa da criação? Ele já era um ser preexistente como achava a mãe? Não conseguiu ficar satisfeito com nada. Suspiros para as questões que não consegui fechar com uma resposta concreta, acho que isso é o mais perturbador nesse livro. Sem falar é claro do fato em si, que se revela pior do que o esperado.

No livro são contadas várias maldades de Kevin, e vamos aos poucos construindo e desconstruindo seu caráter. Não se pode confiar em nada do que ele diz, fora alguns poucos momentos algo parecia verdadeiro. Mesmo com tudo isso, quando foi correndo para a escola, Eva foi com medo de que algo tivesse acontecido com ele e não que ele tivesse feito algo. Passado o choque, nos tribunais Eva quase joga contra si mesmo, não consegue ficar calada, quer ser condenada, e que alguém lhe arranque daquilo. Tudo é revirado pela mídia, garoto “mimado”, é enfatizado como eles tinham dinheiro, várias teorias, que quase lhe fazem rir. Ficar sozinha e as visitas ao filho, que incluem ao mesmo tempo a falta do que dizer com tentativas de fazer ele falar alguma coisa, funcionam mais como punição do que perder o dinheiro. Eu recomendo o livro, mesmo sabendo que quem lê vai ter dificuldade de digeri-lo, como eu. O final é emocionante e conflitante ao mesmo tempo, não só a descrição do assassinato, tem algo mais ali. Leia!

Por que, depois de tudo que tive de suportar, eles ainda acham que posso pôr ordem no caos? Já não basta eu ter passado o que passei, será que preciso arcar com a responsabilidade de saber seu significado, também?

kevinfilmeO filme

Dizer se gostei ou não do filme é complicado, se você leu o livro e teve todas as tentativas da Eva de compreender, e tudo o que leu acima, a tendência é sentir muita falta disso no filme. Porque não há uma narração em off dizendo o que ela está pensando. A atriz que faz a Eva, Tilda Swinton, é incrível e consegue passar muito com o olhar, e tem cenas fortes e emblemáticas, mas senti falta de algumas explicações do livro. É aquele filme que você quer ver explicando para pessoa que está do seu lado como realmente foi aquilo ali. Mas uma das coisas que gostei muito do filme, é a estética: em várias cenas os personagens tem algo vermelho nas mãos que lembra sangue. Ou sempre tem algo vermelho escorrendo, ou sendo lambuzado, como a geleia no pão tão focada que incomoda. A cronologia no filme ainda é mais bagunçada que o livro, vemos tudo como Eva vai pensando, cenas se fundem, vão e voltam. Disso eu gostei, não fiquei confortável assistindo, como não fiquei confortável lendo.

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{Eu li} Novembro de 63 – Stephen King

novembrode63Sinopse: A vida pode mudar num instante, e dar uma guinada extraordinária. É o que acontece com Jake Epping, um professor de inglês de uma cidade do Maine. Enquanto corrigia as redações dos seus alunos do supletivo, Jake se depara com um texto brutal e fascinante, escrito pelo faxineiro Harry Dunning. Cinquenta anos atrás, Harry sobreviveu à noite em que seu pai massacrou toda a família com uma marreta. Jake fica em choque… mas um segredo ainda mais bizarro surge quando Al, dono da lanchonete da cidade, recruta Jake para assumir a missão que se tornou sua obsessão: deter o assassinato de John Kennedy. Al mostra a Jake como isso pode ser possível: entrando por um portal na despensa da lanchonete, assim chegando ao ano de 1958, o tempo de Eisenhower e Elvis, carrões vermelhos, meias soquete e fumaça de cigarro. Após interferir no massacre da família Dunning, Jake inicia uma nova vida na calorosa cidadezinha de Jodie, no Texas. Mas todas as curvas dessa estrada levam ao solitário e problemático Lee Harvey Oswald. O curso da história está prestes a ser desviado… com consequências imprevisíveis.

Precisei de duas semana para ler esse livro, por isso não tivemos resenha na semana passada. É uma sensação muito prazerosa a de acabar um livro muito bom, e foi assim que fiquei ao terminar de ler esse. Nunca tinha lido nada do Stephen King, uma amiga já tinha me alertado para o quanto ele escreve bem e como a leitura simplesmente flui. E acho que Novembro de 63 se tornou uma excelente forma de começar a conhecer a obra do autor. Eu tenho um grande fraco por viagens no tempo, é um tema que consegue realmente me prender. O livro traz uma abordagem clássica do personagem que vai ao passado com o intuito de mudá-lo, mesmo sabendo que as consequências podem não ser boas. Como somos advertidos a todo momento no livro “o passado não que se mudado”. A vida é cheia de possibilidades, podemos tomar muitas medidas e fazer escolhas diferentes, e ainda assim tudo é muito complicado. Como ficaria a nossa cabeça se além das decisões para o futuro, tivéssemos o poder de alterar o que já aconteceu? E assim mudar o curso da história mundial?

É nesse novelo de linhas e possibilidades que entra Jake, com uma nova identidade: George Amberson, ele não sabia mas nessa busca por alterar o passado ele conseguiria mudanças definitivas no seu ser. Eu fiquei bem impressionada como o autor consegue  conduzir a história por cinco anos sem que o leitor perca o interesse. Jake chega ao passado em 1958 com a missão de fazer uma grande alteração em 1963, um grande tempo para planejamentos e pesquisas além da eliminação de incertezas. Afinal, quem é Lee Oswald? Jake tem o direito de interferir na sua vida? no final King conta como fez a pesquisa, os lugares que visitou para contar a sua história 50 anos depois. Explica também que esse é um projeto bem antigo, mas que só pode se concretizar no ano passado.Toda a busca pela verdade sobre o assassinato de Kenedy antes que ele aconteça é muito interessante.

Eis outra coisa que sei. O passado é obstinado pela mesma razão que o casco de tartaruga é obstinado: porque a carne viva dentro dele é tenra e indefesa.

Mas o que mais me prendeu é como nosso herói se envolve e cria laços com o passado, que o fazem duvidar da importância de sua missão, por conta do lugar que outras pessoas passam a ocupar em seu coração. Como todo bom herói ele terá aquela divisão entre o dever e seus desejos pessoais.

Tudo que vai, volta, dizem, e embora eu nunca fosse capaz de imaginar quem seriam os misteriosos sábios que tudo diziam, sem dúvida estavam certos no caso das viagens no tempo.

O livro nos faz viajar no tempo, não tem como não se sentir na década de 60 ao ler o livro. Roupas, carros, dança, a moda do tabagismo (que ninguém sonhava que faria tão mal, e era sim um sinal de status). A ambientação é muito bem feita, King também tenta mostrar um pouco do clima político que estudamos nos livros de história mas de uma forma superficial como uma simples decoreba de datas. No clima da guerra fria, com uma guerra atômica podendo ocorrer, como você se sentiria? Crise dos mísseis, e outras grandes tensões histórias eclodem na história em que qualquer alteração pode transformas o mundo que conhecemos. O final é extremamente coerente e vale a pena ler as 700 páginas que compõe o livro. Os personagens são extremamente cativantes, ele com certeza entrou pro hall dos meus livros favoritos.

Mike e Bobbi Jill danaram no seu tempo, e o seu tempo era 1963, aquela época de cabelo reco, televisores com gabinete e rock de garagem feito em casa. Dançaram num dia em que o presidente Kennedy prometeu assinar um tratado de proibição de testes nucleares e disse aos repórteres que não tinha “intenção de permitir que as nossas foras militares se atolem na política oculta e nos rancores antigos do sudeste da Ásia.

stephen-kingO autor: Stephen Edwin King (Portland, 21 de setembro de 1947) é um escritor norte-americano, reconhecido como um dos mais notáveis escritores de contos de horror fantástico e ficção de sua geração. Os seus livros venderam mais de 350 milhões de cópias e foram publicados em mais de 40 países e muitas das suas obras foram adaptadas para o cinema. Embora seu talento se destaque na literatura de terror/horror, escreveu algumas obras de qualidade reconhecida fora desse gênero e cuja popularidade aumentou ao serem levadas ao cinema, como nos filmes Conta Comigo, Um Sonho de Liberdade (contos retirados do livro As Quatro Estações),Christine, Eclipse Total, Lembranças de um Verão e À Espera de um Milagre. O  livro The Dead Zone, originou a série da FOX com o mesmo nome.  E um dos recentes sucessos Under the dome (Sob a redoma) ganhou uma adaptação para a TV (CBS) com o mesmo nome  e está na segunda temporada.

Pergunta retirada da entrevista do blog Companhia das Letras, leia ela completa.

Qual o seu processo de trabalho, de criação?
É difícil de explicar, porque não é uma coisa clara e verbal para mim, mas vou tentar. Quando eu começo a visualizar as pessoas, onde elas estão, o que estão fazendo, o que vão fazer, como elas falam, como se sentem, qual seu discurso interior, então elas se tornam reais e não tenho vontade de me levantar da cadeira, o que é ótimo mas também terrível, porque é uma coisa muito exigente e muito difícil e absolutamente retira você do mundo ao seu redor, do mundo das outras pessoas à sua volta… E eu não quero sair do mundo das pessoas sobre as quais estou escrevendo, não consigo usar a palavra “personagens”, eu quero ficar no mundo que está na minha cabeça, porque estou vendo com clareza o mundo na minha cabeça e mais nada tem a mesma importância. Deu pra entender? Isso explica alguma coisa?

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Agatha Christie e os melhores mistérios

untitledÉ muito bom ler um livro de uma autora que você respeita e admira faz tempo, faz você relembrar o porque. Hoje acabei de ler o livro A extravagância do morto da Agatha Christie, o livro traz o melhor dos detetives dela, Hercule Poirot, desvendando um bom mistério, como sempre são os presentes nos livros dela. Esqueça essa ideia de ler e ir desvendando e já saber ou desconfiar quem é o assassino, nesses livros o culpado é sempre que você menos espera, e mesmo quando você fica esperando que seja aquele que você menos espera, você erraaaaaaa! Só o detetive gênio que descobre e deixa todos com cara de bobo! Pelo menos foi assim na maioria dos que li, pistas falsas, quebra-cabeça complicado e uma mente brilhante. Poirot apareceu em 40 de seus livros, o primeiro O misterioso caso de Styles, de 1921, e o último o livro Cai o pano (para evitar que continuassem a explorar seu personagem depois de sua morte, Agatha Christie decidiu matar Poirot em um romance escrito na década de 1940, mas que, segundo ordens expressas suas, só deveria ser publicado após sua morte. Por essa razão, Cai o pano somente foi lançado em 1975).

Fora isso os livros são muito bem escritos, são curtos e rápidos de ler (bom para quando você quer uma diversão mais rápida), a narrativa é muito ágil e você devora rapidinho já querendo saber de outro dela.

Vamos de sinopse porque nesse tipo de livro não da para adiantar muita coisa e estragar o final.

A extravagância do morto marca o inusitado encontro de dois detetives criados por Agatha Christie: Hercule Poirot, o infalível investigador belga, e Ariadne Oliver, a escritora de livros de mistério. Juntos, eles se deparam com um curioso caso: uma festa no campo, na qual se jogará a “caça ao assassino”, com direito a vítima, pistas falsas, suspeitos, arma do crime. Mas Ariadne Oliver sente que há algo incômodo no ar, que as pessoas estão agindo de maneira estranha e que algo sinistro está para acontecer…

Muito muito intrigante! Como podem ver Poirot não está só nesse livro, Ariadne o ajuda e atrapalha ao mesmo tempo. Uma caça ao assassino que claramente dá errado. Não dá pra não ficar curioso com esse livro, todos parecem ser suspeitos. “Recebido pela crítica do Times como um “clássico, o melhor de Agatha Christie”, A extravagância do morto é
considerado exemplar na literatura policial” (skoob).

Aqui vai a lista dos que já li dela e garanto que são bons!

Fica aqui um agradecimento ao meu padrasto que foi quem me emprestou todos esses livros! 😀

Muito bom o gif que a LP&M fez da autora, olha só.

NOVIDADE:

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Os anos 40 e seus mistérios

Os anos 40 foram férteis para a Rainha do Crime. Entre 1940 e 1949, Agatha Christie lançou 15 livros. Quatro deles estão agora reunidos em um único volume chamado Agatha Christie – Mistérios dos Anos 40 que acaba de ser lançado pela L&PM Editores. M ou N?, Hora Zero, Um brinde de cianureto e A casa torta são as histórias que, juntas, formam esse belo volume. Leia +

Obs: Esses livro também são vendidos separadamente.

TV

Existe uma série de TV em que o personagem principal é Hercule Poirot, Agatha Christie’s Poirot (1989), vou assistir e digo o que achei depois.

http://www.youtube.com/watch?v=yf4TglFJp64

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