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{eu li} Marina – Zafón

MARINA_1317135768BSinopse: Na Barcelona dos anos 1980, o menino Óscar Drai, um solitário aluno de internato, conhece Marina, uma jovem misteriosa que vive num casarão com o pai idoso. Em passeios pela cidade, os dois presenciam uma cena estranha num cemitério e se envolvem na resolução de um mistério que remonta aos anos 1940. Numa tentativa inútil de escapar da própria memória, Oscar abandona sua cidade. Acreditava que, colocando-se a uma distância segura, as vozes do passado se calariam. Quinze anos mais tarde, ele regressa à cidade para exorcizar seus fantasmas e enfrentar suas lembranças – a macabra aventura que marcou sua juventude, o terror e a loucura que cercaram a história de amor.

Esse é o único livro do Zafón que me faltava ler, o último publicado pelo autor foi em 2008. Zafón, cadê você hômi? Fiz resenhas dos livros aqui no blog, vou deixar os links no final. Marina foi escrito em 1999, e é um dos favoritos do autor (segundo a capa). Os livros do autor tem muito em comum e se passam a maioria em Barcelona e escondem sempre um mistério, desvendado por jovens e adolescentes, mas com uma história profunda. Esse mistério sempre toca nas mazelas humanas, na dificuldade dos sentimentos.

Os suspenses e histórias nunca são de graça e sempre mostram um pouco da nossa humanidade, no sentido de defeitos e até onde uma pessoa pode chegar por medo, amor, ambição… E esse livro não é diferente, o mistério que Oscar e Marina vão investigar é bem complexo e rico. Não tem como não se interessar na história de um homem (com muitas faces) e um talento para construir e elaborar próteses, mas com uma história de ruína.

E ao mesmo tempo não se interessar pela vida de Marina e seu pai, que vivem em uma Barcelona já esquecida e abandonada. Mas eu confesso que esperava mais dos motivos para o parzinho se envolver nesse mistério, fiquei esperando uma ligação mais forte entre eles e o passado investigado. A relação é mais a base da reflexão e do sentimento de perda, que não é mole de lidar, acho que no fim é um livro sobre perda e isso é muito bem trabalhado com o exemplo da história. Mas fiquei querendo um link mais tcham. Outra coisa que nesse livro não curti também são as cenas de ação, resolvidas sempre no corre corre dos personagens. Mas vale a pena ler para conhecer o mistério e a história do passado que Marina e Oscar encontram, que é como nos outros livros do autor criativa e tocante. Se você ler todos os livros do autor, você consegue perceber a evolução da sua forma de narrar, há uma mudança significativa da Trilogia da Névoa para Marina e de Marina para A sombra do vento. Deixei os links das resenhas no final.

 

Trilogia da Névoa (qualquer ordem)
As luzes de setembro – https://euliouvouler.wordpress.com/20…
O palácio da meia noite –
https://euliouvouler.wordpress.com/20…
O príncipe da névoa – https://euliouvouler.wordpress.com/20…

Trilogia A sombra do vento (melhor nessa ordem)
A sombra do vento – https://euliouvouler.wordpress.com/20…
O jogo do anjo – https://euliouvouler.wordpress.com/20…
O prisioneiro do céu – https://euliouvouler.wordpress.com/20…

Já leu algum livro do autor? Gostou? Quer ler? Não deixe de comentar! Suas críticas e sugestões são importantes.

beijos

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{eu li} O Palácio da Meia Noite – Carlos Ruiz Zafón

O_PALACIO_DA_MEIANOITE_1367963947BSinopse: O Palácio da Meia-noite – Ben e Sheere são irmãos gêmeos cujos caminhos se separaram logo após o nascimento: ele passou a infância num orfanato, enquanto ela seguiu uma vida errante junto à avó, Aryami Bosé. Os dois se reencontram quando estão prestes a completar 16 anos. Junto com o grupo Chowbar Society, formado por Ben e outros seis órfãos e que se reúnem no Palácio da Meia-Noite, Ben e Sheere embarcam numa arriscada investigação para solucionar o mistério de sua trágica história. Uma idosa lhes fala do passado: um terrível acidente numa estação ferroviária, um pássaro de fogo e a maldição que ameaça destruí-los. Os meninos acabam chegando até as ruínas da velha estação ferroviária de Jheeters Gate, onde enfrentam o temível pássaro. Cada um deles será marcado pela maior aventura de sua vida.

Esse foi o segundo livro publicado pelo Zafón (1994) da Trilogia da Névoa (as histórias não dependem uma da outra, veja a resenha do primeiro livro aqui). O mote dessa história é um grupo de amigos levado a enfrentar muito cedo as dificuldades da vida e um tenebroso mistério, como geralmente são os do autor. Gostei bem mais desse livro do que do Príncipe da Névoa, dessa vez temos um mistério familiar por trás da história. Temos também alguns questionamentos sobre a sanidade e a loucura.

O livro todo é bem aventureiro: temos órfãos prestes a conhecer o mundo e deixar de lado as brincadeiras da infância e o conforto dos melhores amigos. Nos livros de Zafón a verdade sempre vem a tona, e quando parece que a narrativa vai caminhar para um final previsível temos uma virada nos fatos, coisas que estavam ali e que o leitor deixou passar. Temos um narrador personagem dessa vez, um dos membros da Chowbar Society, que teve um futuro considerado próspero resolve contar de um jeito bem saudoso a história dos amigos. Os integrantes do grupo são todos inteligentes, cada um a sua maneira e se preocupam e cuidam mesmo um dos outros. O mais legal no livro, além do mistério que envolve o passado de Ben e Sheere e que é bem interessante, é a amizade do grupo, a força dos sacrifícios (muito presente nos livros do autor) e uma história em que tudo é possível. Em que espíritos permanecem nas ruas de Calcutá (em 1916), e vários mistérios se escondem em uma cidade considerada maldita por muitos.

Ouvimos o relato de Aryami em silêncio e nenhum de nós ousou formular uma única pergunta, embora centenas delas borbulhassem em nossas mentes. Sabíamos que, afinal, todas as linhas de nosso destino confluíam para um único lugar, um encontro que esperava por nós inevitavelmente ao cair da noite nas trevas de Jheeter’s Gate.

Também está presente uma forma muita característica de narrar do autor usando muitas metáforas e jogos de palavra. E situações que beiram o irrealismo e que não precisam ser totalmente explicadas, você crê nelas conforme os personagens vão vivenciando, depende do quanto você se envolve na história. Alguns personagens com o passar do tempo podem até duvidar de que o que aconteceu com eles foi real. Há uma grande evolução do primeiro para o segundo livro da Trilogia da Névoa. Nesse livro ele desenvolveu surpreendentemente mais um número maior de personagens mesmo em poucas páginas. Fica a dúvida se os personagens secundários ão mesmo secundários. Até o final a participação de todos é relevante e ficamos mesmo preocupados com cada um.

Apoiou a testa no vidro da janela e através de seu próprio hálito adivinhou a silhueta de uma figura esbelta e imóvel que olhava diretamente para ele. Assustado, deu um passo atrás e, diante de seus olhos, o vidro da janela se estilhaçou lentamente a partir de uma rachadura que nasceu no centro da lâmina transparente e se estendeu como uma hera, uma teia de aranha de fissuras tecida por centenas de garras invisíveis. Sentiu os cabelos da nuca arrepiarem e sua respiração acelerou.

Veja as resenhas da trilogia do Cemitério dos Livros Esquecidos, publicada posteriormente, de grande sucesso. Se você gostou dessa vai amar a outra que é muito ais bem elaborada.

História

calcutá
Calcutá, 1945

As marcas históricas são sutis nesse livro e nos outros da névoa, mas situar um livro no começo do século XX, sempre trás questões como a guerra, e, nesse caso, as consequências do domínio imperialista britânico sobre a Índia. Só em 1947, depois das ações de Gandhi, que os britânicos “devolveram” a administração das regiões da Índia que governava, e reconheceu tanto a Índia como o Paquistão.

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{eu li} O Príncipe da Névoa – Carlos Ruiz Zafón

O_PRINCIPE_DA_NEVOA_1357683435BSinopse: Em 1943, a família do jovem Max Carver muda-se para um vilarejo no litoral, por decisão do pai, um relojoeiro e inventor. Porém, a nova casa dos Carver está cercada de mistérios. Atrás do imóvel, Max descobre um jardim abandonado, contendo uma estranha estátua e símbolos desconhecidos. Os novos moradores se sentem cada vez mais ansiosos: a irmã de Max, Alicia, tem sonhos perturbadores, enquanto a outra irmã, Irina, ouve vozes que sussurram para ela de um velho armário. Com a ajuda de Roland, um novo amigo, Max também descobre os restos de um barco que afundou há muitos anos, numa terrível tempestade. Todos a bordo morreram na ocasião, menos um homem – um engenheiro que construiu o farol no fim da praia. Enquanto os adolescentes exploram o naufrágio, investigam os mistérios e vivem um primeiro amor, um diabólico personagem surge na trama. Trata-se do Príncipe da Névoa, um ser capaz de conceder desejos a uma pessoa, ainda que, em troca, cobre um preço demasiadamente alto.

Esse livro do Zafón faz parte de um grupo de livros que ele publicou na década de noventa (chamado em alguns sites de Trilogia da Névoa), como ele mesmo definiu são livros juvenis, mas escritos para agradar a todas as idades. E poderiam ter sidos escritos por um de seus personagens presentes na trilogia do Cemitério dos Livros Esquecidos publicada posteriormente.

Os elementos presentes nas histórias de Zafón estão todos presentes: mistério, romance, aventura e um vilão maligno/demoníaco/paranormal. Depois de ler esse livro e As luzes de setembro (que falarei  aqui na semana que vem), pude perceber que ele usa nos livros um tipo de vilão parecido, com diferente história, o vilão que volta para cobrar uma dívida. São vilões que oferecem a realização de desejos e cobram um preço alto demais. Normalmente o pagamento é algo que a pessoa não pode dar ou cumprir. Um pacto perigoso que traz consequências para gerações futuras e pessoas ao redor.

É numa trama dessa que os Carver se envolvem ao buscar um novo lugar para morar. Afastados da cidade grande pela guerra, eles se mudam para uma casa de verão que carrega uma história e um passado obscuro. Obscuro porque muitas histórias são meias verdades e estão ali para enganar e proteger. E também pelo grande vilão que retorna do mar para cobrar sua dívida, um vilão que fica a espreita dos desejos alheios.

A narrativa prende, principalmente quando as verdades começam a ser descobertas. Eu me interesso mais pela história e o mistério do que pela parte de ação do livro, quando o perigo se torna palpável. Acho que essa parte acabou ficando um pouco corrida no livro que não tem 200 páginas.

Eu li esse livro depois do As luzes de setembro, e por isso achei um pouco parecido demais em alguns detalhes as duas histórias, mas por fazer parte de um grupo talvez as semelhanças tenham sido propositais. Agora estou lendo O palácio da meia-noite que é o próximo e já me parece mais elaborado do que esse. Esses livros mostram que o autor estava começando na literatura, principalmente se forem comparados com os livros que ele lançou depois. Em O Cemitério dos Livros Esquecidos ( A Sombra do Vento, O Jogo do Anjo e O Prisioneiro do Céu) o fundo histórico é mais delineado e também a forma de escrever usando de varias metáforas deixou os livros bem melhores.

Escrevi estes livros alguns anos antes da publicação de A sombra do vento. Alguns leitores mais maduros, levados pela popularidade deste último, talvez se sintam tentados a explorar essas histórias de mistério e aventura. Espero também que alguns leitores novos possam, caso apreciem a história, iniciar suas próprias aventuras na leitura pela vida afora avalia Zafón.

zafón O autor: Carlos Ruiz Zafón nasceu em 25 de setembro de 1964, em Barcelona, cenário de seus romances A sombra do vento e O jogo do anjo, mas vive desde 1993 em Los Angeles, onde trabalha como roteirista. Em 1993 ganhou o prêmio Edebé de literatura com seu primeiro romance, O Príncipe da Névoa, que vendeu mais de 150 mil exemplares na Espanha e foi traduzido em vários idiomas. Lançado originalmente em 2001, A sombra do vento vendeu mais de dez milhões de exemplares em todo o mundo. Seus livros mais recentes publicados pela Suma de Letras são Marina (2011) e O prisioneiro do céu (2012).  As suas obras foram traduzidas em mais de quarenta línguas e conquistaram numerosos prêmios e milhões de leitores nos cinco continentes.

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{eu li} O Prisioneiro do Céu – Carlos Ruiz Zafón

O_PRISIONEIRO_DO_CEU_1368629307BSinopse: Barcelona, 1957. Daniel Sempere e seu amigo Fermín, os heróis de A sombra do vento, estão de volta à aventura para enfrentar o maior desafio de suas vidas. Já se passa um ano do casamento de Daniel e Bea. Eles agora têm um filho, Julián, e vivem com o pai de Daniel em um apartamento em cima da livraria Sempere e Filhos. Fermín ainda trabalha com eles e está ocupado com os preparativos para seu casamento com Bernarda no ano-novo. Quando tudo começava a dar certo para eles, um personagem inquietante visita a livraria de Sempere em uma manhã em que Daniel está sozinho na loja. O homem misterioso entra e mostra interesse por um dos itens mais valiosos dos Sempere, uma edição ilustrada de O conde de Montecristo que é mantida trancada sob uma cúpula de vidro. O livro é caríssimo, e o homem parece não ter grande interesse por literatura; mesmo assim, demonstra querer comprá-lo a qualquer custo. O mistério se torna ainda maior depois que o homem sai da loja, deixando no livro a seguinte dedicatória: “Para Fermín Romero de Torres, que retornou de entre os mortos e tem a chave do futuro”. Esta visita é apenas o ponto de partida de uma história de aprisionamento, traição e do retorno de um adversário mortal. Ao descobrir a verdade, Daniel compreenderá que o destino o arrasta na direção de um confronto inevitável com a maior das sombras: aquela que cresce dentro dele.

O livro O Prisoneiro do Céu amarra as histórias de A Sombra do Vento e O Jogo do Anjo, do mesmo autor, liga os personagens de uma maneira surpreendente e intrigante. Quando comecei a ler o livro o mistério não me pegou logo, confesso que não fiquei tao curiosa pelo velho. Mas bastou insistir um pouco para eu perceber que isso nem era o principal, e que o mais importante era me aprofundar nas histórias dos personagens. Lembrei o quanto Fermín é um personagem extremamente interessante e marcados pelo horror da ditadura franquista na Espanha. Que  vale a pena explicar aqui o que foi.

Franquismo

O Franquismo foi um regime político ditatorial que vigorou na Espanha entre os anos de 1939 e 1976. Na década de 1930, a Espanha passou por uma guerra civil muito intensa. Estima-se que aproximadamente um milhão de pessoas tenha morrido durante os conflitos da ocasião. Os combates no território espanhol chegaram ao fim no ano de 1939, marcando a vitória de um grupo nacionalista que colocou no poder o general Francisco Franco. Assim que se encerrou a guerra civil em território espanhol, teve início o maior conflito internacional do século XX, a Segunda Guerra Mundial. Francisco Franco, que recebeu apoio de Itália e da Alemanha durante a Guerra Civil Espanhola, tratou de retribuir a ajuda apoiando esses regimes fascistas que integravam um dos grupos durante a guerra. O Franquismo se manteve vivo e forte na Espanha mesmo com a derrota de outros países fascistas na Segunda Guerra Mundial, caso de Itália e Alemanha. O Franquismo chegou a ser condenado nos tribunais que julgaram as ditaduras após o término do conflito internacional, mas manteve-se de pé através do poderio de Francisco Franco. A partir daí, foram décadas de dominação do regime Franquista na Espanha. Mais informações. Fonte: Infoescola

Fermín sofreu muito com o começo desse período e esteve preso, refém de vários tipos de tortura. Nesse livro o autor recupera a história dele e é a parte mais interessante do livro para mim. O Castelo de Montijuic citado no livro é real e um dos pontos turísticos da Espanha.

montjuicO Castelo de Montjuic é uma antiga fortaleza militar que teve um importante papel na história da cidade de Barcelona. Fica no morro de Montjuic (em catalão, Montjuïc). A fortaleza data, em grande parte do século XVII, mas tem adições do século XVIII. Em 1842, a guarnição (leais ao governo Madrid) bombardeou partes da cidade. O castelo serviu como prisão, muitas vezes de presos políticos, até o governo do General Franco. O castelo também foi o local de numerosas execuções. Em 1897, um incidente conhecido popularmente como “Os Processos de Montjuïc” determinando a execução de anarquistas, que, em seguida, levou a uma severa repressão da luta dos trabalhadores por seus direitos. Em diferentes ocasiões, durante a Guerra Civil Espanhola, tanto nacionalistas e republicanos foram lá executados. Fonte: Nativo

É claro que os mistérios da vida de Daniel também são e a amizade dele com Fermín é a parte mais bela do livro. O que somos capazes de fazer por um amigo. No final temos várias respostas, mas não todas. E uma revelação que deixa uma boa margem para uma possível continuação por parte do autor, basta querer. Um lado sombrio de Daniel é bastante cutucado. A narrativa é dividida entre os dois amigos.

Naquele dia, ao ver o meu amigo a beijar a mulher que amava, dei por mim a pensar que aquele momento, aquele instante roubado ao tempo e a Deus, valia todos os dias de miséria que nos haviam levado até ali e outros tantos que nos esperavam ao sair de regresso à vida, e que tudo quanto era decente e puro neste mundo e tudo por que valia a pena continuar a respirar estava naqueles lábios, naquelas mãos, no olhar daqueles dois afortunados que, soube, ficariam juntos até ao fim das suas vidas.

Sobre a ordem dos livros que pertencem ao Cemitério dos Livros Esquecidos, por mais que os livros não tenham que necessariamente ser lidos na ordem. A Sombra do Vento e O Jogo do Anjo podem ser tranquilamente lidos em qualquer ordem. Eu prefiro a mais ortodoxa, mas O prisioneiro do céu me sentiria meio perdida se não tivesse lido os dois anteriores primeiro. Mas os 3 são portas para a mesma história, recomendo que você embarque!

SEMPRE soube que, um dia, regressaria a estas ruas para contar a história do homem que perdeu a alma e o nome, por entre as sombras daquela Barcelona submersa no turvo sono de um tempo de cinzas e de silêncio. São páginas escritas a fogo, escoradas na cidade dos malditos, palavras gravadas na memória do que regressou dos mortos com uma promessa cravada no coração e arrastando o peso de uma maldição. O pano sobe, o público faz silêncio e, antes de a sombra que paira sobre o seu destino fazer a sua aparição, um elenco de espíritos brancos entra em cena, de comédia nos lábios e com a bendita inocência de quem, tendo o terceiro acto por derradeiro, nos vem narrar um conto de Natal, ignorando que, ao virar a última página, a tinta do seu esforço o arrastará lenta e inexoravelmente para o coração das trevas.

JULIÁN CARAX, O Prisioneiro do Céu Éditions de la Lumière, Paris, 1992

Para saber mais sobre o autor e os livros anteriores, só conferir as resenhas dos outros livros do Cemitério dos Livros Esquecidos.

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{Eu li} O Jogo do Anjo – Carlos Ruiz Zafón

O_JOGO_DO_ANJO_1360723302PSinopse: Aos 28 anos, desiludido no amor e na vida profissional e gravemente doente, o escritor David vive sozinho num casarão em ruínas. É quando surge em sua vida Andreas Corelli, um estrangeiro que se diz editor de livros. Sua origem exata é um mistério, mas sua fala é suave e sedutora. Ele promete a David muito dinheiro e sua simples aparição parece devolver a saúde ao escritor. Contudo, o que ele pede em troca não é pouco. E o preço real dessa encomenda é o que David precisará descobrir. Em O Jogo do Anjo, o catalão Carlos Ruiz Zafón explora novamente a Barcelona do início do século XX, cenário de seu grande êxito internacional A Sombra do Vento, que vendeu mais de 10 milhões de exemplares em todo o mundo (skoob).

O mistério em O Jogo do Anjo conseguiu ser mais intrincado e perigoso do que o de A Sombra do Vento. Ambos os livros fazem parte da coleção O cemitério dos livros esquecidos, do autor Carlos Ruiz Zafón, que pode ser lida em qualquer ordem. Já falei do primeiro livro e do autor em outro post, é só conferir aqui.

Nesse livro, tudo é um mistério, David não sabe muitas coisas sobre sua própria vida e nem da das pessoas que ele ama. A conexão com o livro A sombra do vento, não interfere e nem entra em spoilers, e ainda me gerou uma grande dúvida ao longo da história. Cheguei a pensar que o autor havia feito uma confusão, mas fui alertada por uma amiga que isso era apenas mais um parte do quebra cabeça do livro. E aproveito para alertar vocês, leiam até o fim para entender!

Essa é a forma de Zafón montar seu mistério, com pequenas peças aqui e ali, que depois se juntam na engrenagem. Nesse mistério específico, achei um pouco nebulosa e com margem a mais de uma interpretação a grande revelação e o desfecho. Quem é Andreas Corelli e qual o grande mistério que envolve ele e a casa que David comprou? Não espere uma resposta única.

Abri o paletó e estendi um maço de páginas para ele. Penetramos no recinto do cemitério procurando um lugar abrigado da chuva. O patrão escolheu um velho mausoléu que dispunha de uma cúpula sustentada por colunas de mármore e rodeada de anjos de rosto afilado e dedos demasiadamente longos. Sentamos num banco de pedra fria. O patrão dedicou-me um de seus sorrisos caninos e piscou o olho, suas pupilas amarelas e brilhantes fechando-se num ponto negro, no qual podia ver refletido o meu rosto pálido e visivelmente perturbado.

Além do mistério, no livro é sempre discutido o papel dos livros e dos escritores, qual o jeito certo de se escrever uma obra? Vale a pena o escritor sacrificar suas próprias ideias por fins comerciais? Se vender? Acho que muitos escritores já escreveram livros com um tema ou linguagem simplesmente por ser o requisito da editora ou por ser mais vendável, ou ainda o que o seu público espera. Escrever um livro para ter destaque e depois sim escrever a obra prima de sua vida, é uma situação frequente em livros e filmes que envolvem escritores. O que é mais importante: ser ume scritor famoso e bajulado ou escrever algo que você realmente achaque presta?  Sem perder a ideia de que eles também precisam de dinheiro para sobreviver. O personagem, é atormentado pela vontade de ser um escritor de sucesso e como não vender a própria alma em troca disso. Para ele escrever um livro é se entregar aquele trabalho de forma muito intensa, até os dedos sangrarem.

Um escritor nunca esquece a primeira vez em que aceita algumas moedas ou um elogio em troca de uma história. Nunca esquece a primeira vez em que sente o doce veneno da vaidade no sangue e começa a acreditar que, se conseguir disfarçar sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de garantir um teto sobre sua cabeça, um prato quente no final do dia e aquilo que mais deseja: seu nome impresso num miserável pedaço de papel que certamente vai viver mais do que ele. Um escritor está condenado a recordar esse momento porque, a partir daí, ele está perdido e sua alma já tem um preço.

Também é um livro sofrido, os personagens sofrem tentando encontrar a felicidade, mas ela está sempre a lhe escapar dos dedos. E acabam sendo momentos fugazes, de contemplação da felicidade que poderia ser, sem realmente participar dela. Impedidos por questões diversas como a sociedade, o dever com outras pessoas, a perda da família, o perigo e até mesmo uma polícia corrupta. Os momentos de refresco nessa dificuldade de existir são sempre baseados na amizade, porque o amor se revela bem complicado e trágico. É um livro para quem gosta de personagens conflituosos, densos e que não necessitam de um final feliz clássico.

No Cemitério dos livros esquecidos a filosofia é de que os livros tem alma e que elas tocam e se modificam de acordo com quem leu. é uma imagem muito bela para quem ama a literatura e se dedica a ela de alguma forma. Qualquer um que ler essa coleção vai se sentir com vontade de visitar os corredores e o cemitério, e ter um livro que faça um contato tão puro. Mas todos temos livros favoritos, quem nunca pensou: nossa esse livro foi escrito para mim! mesmo sem nunca ter chegado perto do autor.

—Há quem prefira acreditar que é o livro que escolhe a pessoa… O destino, por assim dizer. O que está vendo aqui é a soma de séculos de livros perdidos e esquecidos, livros que estavam condenados a ser destruídos e silenciados para sempre, livros que preservam a memória e a lama de tempos e prodígios que ninguém mais lembra. Nenhum de nós, nem os mais velhos, sabe exatamente quando foi criado ou por quem.

Já comecei a ler o livro O Prisioneiro do Céu, em que as duas narrativas convergem. E estou muito curiosa!