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{eu li} O leitor do trem das 6h27 – Jean-Paul Didierlaurent

Uma leitura bem agradável e prazerosa, com um humor leve e sútil o livro diverte do início ao fim, mesclando aqui e ali uma crítica social. O leitor do trem das 6h27 é uma trama que envolve leitores, esse tipo de livro sempre me deixa curiosa e com vontade de ler: seja de personagens que gostem muito, tenham uma livraria, roubem livros e etc. Adoro! Gosto do tipo de reconhecimento que se tem quando lê um livro assim. E com esse não foi diferente. Esse livro não chegou a virar um dos meus favoritos, mas gostei muito e recomendo.
logo youtbeResenha em vídeo

leitortremSinopse: Operário discreto de uma usina que destrói encalhe de livros, Guylain Vignolles é um solteiro na casa dos trinta anos que leva uma vida monótona e solitária. Todos os dias, esse amante das palavras salva algumas páginas dos dentes de metal da ameaçadora máquina que opera. A cada trajeto até o trabalho, ele lê no trem das 6h27 os trechos que escaparam do triturador na véspera. Um dia, Guylain encontra textos de um misterioso desconhecido que vão fazê-lo buscar cores diferentes para seu mundo e escrever uma nova história para sua vida.

Imagina que tormento! Gostar de livros e trabalhar num lugar em que uma máquina enorme devora livros e mais livros todos os dias, deve ser um sacrifício tremendo. Mesmo que seja para a reciclagem e que vão se tornar outros livros, acho que qualquer amante dos livros ficaria perturbado. Confesso que durante o livro fiquei me perguntando porque o personagem apesar de odiar o trabalho, não procurava outro emprego. a redenção do personagem é ler trechos salvos por ele no trem e com isso querendo ou não melhorar a vida daquelas pessoas que escutam.

Em trinta e seis anos de existência, acabara aprendendo a se fazer esquecível, a se tornar invisível para não provocar mais gargalhadas e zombarias do que as que sempre se manifestavam tão logo era notado. Não é nem bonito nem feio, nem gordo nem magro. Só o vislumbre de uma vaga silhueta nas margens do campo de visão.

Eu se estivesse num trem e ouvisse Guylain acho que não me aguentaria de curiosidade, e ia ficar perguntando de que livro que era e querendo mais informações. Alguns trechos são bem curiosos e instigantes, outros são receitas e manuais.

Para todos os passageiros presentes na composição, ele era o leitor, um sujeito estranho que, todos os dias da semana lia em voz alta e inteligível as poucas páginas retiradas de sua bolsa.

Assim, esse livro é cheio de pequenas histórias. Guylain mesmo sendo um solitário tímido, tem esses momentos em que dá vida a esses trechos salvos. E isso querendo ou não vai atrair pessoas para sua vida, me recuso a contar o que acontece estragar a surpresa. Também temos a história de dois amigos seus, um trabalhava com ele e outro ainda trabalha. Personagens riquíssimos e como retratados em poucas páginas, não vou contar muito sobre eles, só que um mostra uma bela relação de amizade e o outro só fala declamando *versos alexandrinos (muito curioso).

Nunca se esqueça disso, menino, somos para o processo editorial o que o buraco do cu é ara a digestão, apenas isso!

_Um verso alexandrino é direto como uma espada _ explicara um dia Yvon _, nasceu para acertar o alvo, com a condição de honrá-lo. Não deve ser declarado como prosa vulgar. Recita-se de pé.

Um dia Guylain encontra um pendrive no trem e nele vários arquivos de textos de uma mulher, a Julie, e ela ali narra como em um diário seu dia a dia de uma forma bem engraçada (sem querer). Confesso que fiquei meio ressentida de que no meio de tantos livros, um pendrive que mudou tudo, mas foi bom que a história não ficou óbvia. Ela trabalha em um banheiro, limpando e cuidando da ordem. Rola uma crítica a como essas pessoas que tem esse trabalho muitas vezes são invisíveis para as outras, gostei muito disso. E olha que lá na França as pessoas as vezes recebem gorjetas, nunca vi isso acontecer aqui. É claro que ele vai ler esses textos e se encantar com as histórias dela. Assim como quem lê vai ficando curioso em saber quem ela é. Esses trechos contados do diário da Julie me arrancaram algumas risadas.

Nunca se espera que pessoas responsáveis por banheiros públicos, quaisquer que sejam, mantenham um diário digitando no teclado de seu laptop. Devemos servir só para limpar de manhã até a noite, polir peças cromadas, esfregar, enxaguar, reabastecer os suportes de papel higiênico e mais nada. Espera-se que uma zeladora de banheiro limpe, não que escreva. As pessoas podem conceber que eu faça palavras cruzadas, caça-palavras, palavras trancadas em todo tipo de tabela quadriculada. Essas mesmas pessoas também podem aceitar que eu leia fotonovelas, revistas femininas e de televisão nas horas vagas, mas se sentem insultadas quando sabem que eu digito com meus dedos feridos pela água sanitária no teclado de um laptop a fim de registrar meus pensamentos.

Não vou contar mais porque esse livro é curtinho. Acredito que como o auto escrevia contos, o tamanho vem daí, e também a sensação de que há no livro várias histórias dentro de uma.

*Versos alexandrinos são aqueles que possuem 12 sílabas poéticas ou métricas.

jeanpaulgrandeO autor
Jean-Paul Didierlaurent mora em Vosges, na França. Seus contos ganharam duas vezes o Prêmio Hemingway. O leitor do trem das 6h27 é seu primeiro romance, cujo direito de publicação foi adquirido em 25 países (fonte: Intrínseca)

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Autor:

Estudante de Jornalismo na UFF, leitora voraz, que gosta muito de dividir com os amigos o que lê, o que gosta de ler e o que amou ler.

12 comentários em “{eu li} O leitor do trem das 6h27 – Jean-Paul Didierlaurent

  1. Ooooi! Nossa, é realmente muito ruim imaginar isso :O Magina, você lá vendo livros que podem ser fantásticos sendo destruídos :c O livro parece ser interessante, mas não sei se realmente o leria, sabe?
    Sua resenha é sempre bem legal, parabéns! Bjs

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