Publicado em Projetos de Leitura

{Conhecendo Cervantes} O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha – 1

Olá, hoje começo a falar do livro O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha de Miguel de Cervantes. Como expliquei esse e os próximos posts e vídeos sobre a obra e o autor fazem parte do projeto de leitura Conhecendo Cervantes (clique e saiba como ele vai funcionar).

O livro começa com o prefácio de Cecília Navarro Flores (minha edição é a da Martin Claret) que nos explica a importância dessa obra para o mundo e as influências dela na obra de outros autores. Além de Cervantes ter inaugurado vários procedimentos como:

(…) a literatura que discute a literatura, a incitação ao leitor, a incidência de diversos pontos de vista sobre um mesmo objeto, o diálogo com outra obra literária, o jogo com diversos narradores, a intromissão do tradutor, entre outros.

Ela também explica a divisão da obra em dois livros, um de 1605 e um de 1615. E como nesse meio tempo um outro autor com o pseudônimo de Avellaneda usou o personagem e ainda falou mal de Cervantes em uma continuação não autorizada.

Profundamente irritado com as ofensas e por Avellaneda ter se apropriado de seu personagem Cervantes, em 1615, publica seu segundo volume, em cujo prólogo responde as ofensas e dirige farpas ao inimigo. Magistralmente Cervantes insere o Quixote de Avellaneda em seu Quixote. No capítulo LXXII do segundo volume, Dom Quixote e Sancho estão em uma pousada, quando chega Dom Álvaro Tarfe, personagem da obra de Avellaneda. O Cavaleiro Triste Figura exige quem Dom Álvaro assine um documento declarando que ele é o verdadeiro (…).

17578053_1438591846214798_1314024019_nDepois temos o prólogo do próprio Cervantes que é muito engraçado, já começa nos chamando de “Desocupado leitor” e não tenta nos obrigar a gostar do livro. O autor conta como não queria encher seu livro de notas, citações, o próprio prólogo, sonetos e etc, mas como seu amigo disse que poderia encher linguiça ali como quisesse e até inventar uma falsa biografia.

O primeiro volume é dividido em quatro partes, nesse post falarei da primeira e da segunda. Vale ressaltar que a maioria dos capítulos começa com uma ilustração belíssima de Gustave Doré (grande ilustrador do Séc XIX). Cervantes narra no livro as grandes aventuras de Quixote como se ele fosse uma pessoa real e o narrador procura pistas sobre seu passado e nos promete contar a história verdadeira.

Dom Quixote era um fidalgo, não muito rico, de cinquenta anos, apaixonado pelos livros de cavalaria, tanto leu que passou a acreditar que essas histórias eram reais. Ele mesmo resolve ser um cavalheiro andante e é tratado por quase todos como louco.

Em suma, tanto naquelas leituras se enfrascou que passava as noites de claro em claro e os dias de escuro em escuro. e assim, do pouco dormir e do muito ler, se lhe secou o cérebro, de maneira que chegou a perder o juízo. Encheu-se-lhe a fantasia de tudo que se achava nos livros, tanto de encantamentos com pendências, batalhas, desafios, ferias, requebros, amores, tormentas e disparates impossíveis, e assentou-lhe de tal modo na imaginação ser verdade toda aquela máquina de sonhadas invenções que lia que para ele não havia história mais certa no mundo.

Assim ele cai no mundo, imaginando donzelas em perigo e gigantes. Sua primeira parada o leva a uma pocilga que ele vê como castelo, lá pede ao “castelão” para ordená-lo cavalheiro. Também cria sua Dulcinéia, a mulher mais bela a que ele serve, e quer que todos jurem que ela é a mais mais. É claro que suas peripécias e ilusões também o levam à perigos e muitas vezes ele acaba ferido gravemente.

Numa passagem em que ele é trazido de vola para casa para se recuperar, o padre e o médico, incentivados pela ama e pela preocupação da sobrinha dele, queimam quase todos os livros do fidalgo. Colocando toda a culpa nos livros, escolhem os que devem ter prejudicado o estado mental de Dom Quixote e se livram deles. Essa parte é trágica e engraçada, dá pena dos livros e ao mesmo tempo a seleção e os comentários dos personagens são bem divertidos. Até um livro do próprio Cervantes está ali na pilha e acaba escapando.

Depois disso, Dom Quixote sai novamente em busca de conquistar glória e honra, já com seu fiel escudeiro Sancho Pança, iludido com as muitas riquezas prometidas por seu novo mestre. É nessa parte que acontece o famoso episódio dos moinhos de vento, que Quixote pensa serem gigantes e depois também confunde frades com mal feitores. Pelo caminho encontra personagens que o acham louco e o desafiam (onde ele acaba se ferindo), mas também outros que dão trela para ele e procuram não discordar dessa história de cavalaria andante. Chegamos ao final da segunda parte com ele encantado e querendo jurar servidão a Marcela, uma mulher valente e que não abaixa a cabeça para os homens. Ela é retratada como sendo alguém em que é impossível olhar e não ficar apaixonado, mas isso acaba trazendo muitos julgamentos para a moça.

Gostei muito do que li até aqui, todo esse amor de Quixote pela leitura causa um reconhecimento nos leitores vorazes (opa, espero não acabar louca). O personagem parece uma pessoa muito pura e boa, apesar de confusa. A escrita é bem fluida mas é necessário recorrer constantemente as notas de rodapé que explicam referências e vocabulário. O livro faz inúmeras menções a outros autores e personagens, o que mostra que mesmo sendo uma crítica as novelas de cavalaria Cervantes também deve ter lido muito.

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*A biografia Cervantes de Jean Canavaggio eu comprei pelo Estante Virtual, e você também encontra na Saraiva.

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Autor:

Estudante de Jornalismo na UFF, leitora voraz, que gosta muito de dividir com os amigos o que lê, o que gosta de ler e o que amou ler.

10 comentários em “{Conhecendo Cervantes} O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha – 1

  1. Ai que postagem de encher os olhos garota, eu tenho Dom Quixote parado na minha estante, esse ano o coloquei como meta,eu adoro visitar seu blog, sempre com inovação e assuntos que me encantam.
    Beijinhos

  2. Olá!
    Me lembro que li esses clássicos na época do colégio e isso já faz um tempinho,rs.
    Adorei seu post, pois raramente a gente vê falar deles hoje em dia. Temos que dar valor a nossa literatura, pois anda tão escassa, né?
    Dom Quixote é uma obra que nos diverte, nos faz rir e também chorar. É um clássico cheio de aventuras e fantasias, adorado por linguistas, historiadores, críticos literários, pois é um poço de referências sociais, linguistas e culturais da época em que foi escrito, trazendo ao mesmo tempo temas que continuam a perpetuar por todos esses séculos. É uma obra que deve ser lida e apreciada, por todos.

  3. Bacana conhecer esses detalhes da história do livro! Esse Avellaneda era um recalcadão kkkkk fiquei animada para ler o meu volume da coleção da editora abril. Espero que tenha gravura do Doré porque ele tinha muito talento.

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